domingo, 3 de agosto de 2014

Bibliografia recomendada


  • Capra, Fritjof, “O Ponto de Mutação”, Ed. Cultrix.
  • Capra, Fritjof, “O Tao da Física”, Ed. Cultrix.
  • Chung , Tsai Chih, “O Tao em quadrinhos”, Ediouro
  • Chung, Tsai Chih, “Zen em quadrinhos”, Ediouro.
  • Cleary, Thomas, “A Arte japonesa de criar estratégias”, ed. Cultrix.
  • FERNANDEZ,S, Felix. Didactica y técnica de karate. Bilbao: Fher, 1992.
  • Funakoshi, Gichin, “Karate-dô, o meu modo de vida”, ed. Cultrix.
  • FUNAKOSHI, Gichin. Karate-do Nyumon: . São Paulo: Cultrix,1988.
  • FUNAKOSHI, Gichin; Os Vinte princípios fundamentais do Mestre; Ed. Cultrix;
  • Gleiser, Marcelo, “Dança do Universo dos mitos da criação ao Big-Bang”, Companhia das Letras, 1997.
  • Hassel, Randall G. “Shotokan Karate, Its History and Evolution”, edição independente.
  • Herrigel, Eugen, “A arte cavalheiresca do arqueiro zen”, ed. Pensamento, introdução de D. T. Suzuki.
  • Herrigel. Eugen, “O caminho zen”, ed. Pensamento.
  • Kammer, Reinhard, “O Zen na arte de conduzir a espada”, ed. Pensamento, 1987.
  • KANAZAWA, Hirokazu;  Faixa preta Karatê-dô.
  • Karatê-do Kata – Shadan Hojin Nihon Karatê Kiokai Shihankai.
  • KISHIKAWA, Jorge; Shin Hagakure - Pensamentos de um Samurai Moderno
  • Kushner, Kenneth, “O Arqueiro Zen e a Arte de Viver”, ed. Pensamento.
  • Mammitzsch, Horst, “Zen na Arte da Cerimônia do Chá”, ed. Pensamento, 1987.
  • measures in predicting performance outcome in karate competition.
  • Morisawa, Jackson S. “O Segredo de Acertar no Alvo”, ed. Pensamento.
  • Musashi, Miyamoto, “Gorin no sho” (O Livro dos cinco elementos), tradução de José Yamashiro, Cultura.
  • Nakayama, “Dynamic Karate”, ed. Kodansha, 1983.
  • NAKAYAMA, M. Série: O Melhor do Karatê – 1 a 20 - São Paulo, 1978.
  • Nishiyama, “Karate, The art of ‘empty hand’ fighyting’,ed. Tutle, 1984.
·         OKAZAKI, Teruyuki. The Textbook of Modern Karate. Ed. Kodansh, 1984.
  • Revista Karate Bushido, França, janeiro de 1998.
  • OKAZAKI, Teruyuki. Perfection of Character: Guiding Principles for the Martial Arts & Everyday Life. Ed. GMW Publishing, 2006.
  • rooney,  martin ; Training for Warriors: The Ultimate Mixed Martial Arts Workout
  • SASAKI, Y. Karate-do o Caminho Educativo . São Paulo: Cepeusp, 1991.
  • Sasaki, Yasuyuki, In Manual de Educação Física, Karate-Dô, vol., Ed. E.P.U., 1974.
  • Severino, Roque, “Espírito das Artes Marciais”, Imago, 1988.
·         STEVENS, John; Segredos do Budô
·         STEVENS, John; Três mestres do Budô
  • Suziki, Daisetz Teitaro, “Introdução ao Zen-budismo”, Ed. Pensamento, com introdução do psicanalista Carl Gustav Jung
·         TAGININI, A C. Gotuzo. O Verdadeiro Caminho do Karatê. São Paulo, 1972.
·         TANAKA, M. Perfecting Kumite. Tokyo, Baseball Magazine, 1985.
·         TERRY,P,C. (1997). The application of mood profiling with elite sport performers. Em R.J.Butler (ed) Sport Psychology in performance (pp.3-32). Plenum Press
·         TERRY,P,C. e Slade,A. (1995) . Discriminant effectiveness of psychological states
·         TSUNETOMO, Yamamoto;  Hagakure: o Livro do Samurai
·         TZU, Sun; A Arte da Guerra
  • Ueshiba, Kisshômaru, “O espírito do Aikidô”, ed. Cultrix.
  • VIANNA, José Antônio. O impacto dos valores humanos do instrutor, sobre a conduta do atleta: o caso do karatê. Rio de Janeiro: (Dissertação de Mestrado). PPGEF/UGF,
  • VIANNA, José Antônio; DUINO, Silvana Rígido. Perfil desportivo dos praticantes de artes marciais: a expectativa dos iniciantes. Rio de Janeiro: Motus Corporis. V.06, nº02,
  • Watts, Alan, “O espírito Zen”. Ed. Cultrix.
  • Watts, Alan, “O Zen e a experiência mística”, ed. Cultrix
  • WISHNIETSKY, D FELDER, D; Coaching Problems: are suggested solutions effective?
  • Yamachiro, José “Choque Luso no Japão dos Séculos XVI e XVII”, Ibrasa, 1989.
  • Yamashiro, José “História da Cultura Japonesa”, Ibrasa, 1985.
·         Yamashiro, José “História dos Samurais”, Kempf/Editores, 1982.


O REVERSO DO GORIN NO SHO


IntroduçãoGorin No Sho, obra de Miyamoto Musashi, notabilizou-se no mundo todo em um período de domínio comercial do Japão e de expansão das artes marciais.  Tido como livro sobre estratégia, em verdade a reflexão escrita de Musashi vai muito além, e fica também aquém.  Escrita no ocaso da vida do famoso e intrépido samurai, o livro dos cinco elementos (cinco anéis ou cinco reinos, conforme as várias traduções), que trata de postura e técnicas do kenjutsu (esgrima japonesa), de estratégia e de filosofia, tem seu fio condutor na propagação da escola que o samurai fundara, a Niten-Ichi, ou escola das duas espadas.

                                   Apesar da grande notoriedade, que ensejou traduções para inúmeros idiomas — nem todas fiéis ao original, principalmente tendo-se em conta as limitações dos tradutores, em sua maioria não familiarizados com a história e cultura japonesas, e especialmente com artes marciais —, o livro parece ao leitor desavisado um tanto ininteligível, de leitura difícil, sem estrutura seqüencial.

                                   É verdade que Musashi dedicou-se a escrever a obra após mais de três décadas de reflexão, quando já se encontrava idoso e doente, não o permitindo a vida que fizesse os últimos reparos no original, pois que apanhado pela morte em meio da elaboração intelectual.

                                   Não é menos verdadeiro, entretanto, que o velho samurai tinha plena consciência da enorme dificuldade que significava traduzir em palavras o pensamento detalhadamente desenvolvido após quase três decênios de meditação, estes antecedidos de outras duas décadas de prática intensa e vitoriosos combates.

                                   Por essa razão, pressentindo, provavelmente, as dificuldades em que se veriam os futuros leitores, após cada trecho, o nobre samurai exorta o praticante para que se dedique a meditar sobre o que leu e a praticar com intensidade as técnicas de postura, luta e estratégia que foram professadas.  Somente assim seria possível a perfeita ligação entre o texto, a prática e o praticante.

                                   A dificuldade ainda fica maior pela grande distância de contextos, quando o praticante de artes marciais do século vinte depara-se com o pensamento de um samurai do século dezessete, e quando este refere-se a combates entre exércitos, onde o desforço físico e pessoal, homem a homem, era a realidade vigente.

                                   A experiência de Musashi, notadamente em seu contexto histórico, é imprescindível ao moderno praticante de artes marcais, pois talvez ele tenha sido o precursor dos sistemas que hoje conhecemos, e que ainda se ressentem de uma formulação filosófica adequada e madura.

                                   Musashi era um ronin, ou um samurai desempregado pelo um período de paz.  Viveu nos primórdios da era Tokugawa que, a partir do ano de 1.603, garantiu cerca de duzentos anos de pacificação ao país nipônico, por séculos marcado pelos combates militares na luta pelo poder.

                                   A arte da guerra tem sua gênese justamente na guerra, e é razoável que tenha resultado grandemente incrementada em um país marcado em sua história pelos conflitos armados, mas não é menos verdadeiro que as artes marciais surgiram, foram desenvolvidas e sistematizadas, em razão da necessidade da paz, da constatação da absurdez que a guerra significa, de modo a controlar, pelo exercício, esse atavismo humano — e por decorrência também os demais — que se encerra em sua agressividade.

                                   De quebra, as artes marciais descobriram um poderoso instrumento de descoberta do homem a si mesmo, e daí, fundamentalmente, o grande interesse que despertam no mundo inteiro, na fase de globalização mundial, inaugurada após a 2ª Grande Guerra, pela intersecção das culturas e dos povos, bem como pelo desenvolvimento dos meios de comunicação.

                                   Nesse contexto, as artes marciais ganharam uma dimensão que não existia no mundo de Musashi, mas ao mesmo tempo, em razão de uma intransponível contradição que somente enriquece a prática, distanciamo-nos dos combates reais, de vida ou morte, onde Musashi foi mestre sem jamais ter perdido uma peleja.

                                   Essa questão é filosoficamente relevante: as artes marciais, que foram criadas e sistematizadas para melhorar seus praticantes como homens e cidadãos, destinam-se a, pela prática, atingir as profundezas do autoconhecimento e, desse modo, o conhecimento dos demais.

                                   Entretanto, não é possível perder de vista que essa prática — por dessas insondáveis contradições da natureza humana —, iniciou-se justamente no campo de batalha, onde a vida e a morte coexistiam como fatos normais, onde matar era uma atividade como as demais.

                                   Nesse sentido, a riqueza da experiência de Musashi ganha dimensão que não pode ser repetida nem prescindida.  Matar para ele, e em seu mundo, era legítima e respeitada profissão.  Hoje, felizmente, é o crime mais repudiado pelos sistemas jurídicos modernos.

                                   Por isso, sem querer reproduzir a experiência de Musashi na busca da morte do oponente, que filosoficamente as artes marciais modernas procuram reprimir, o artista marcial tem no texto do velho samurai um instrumento poderoso, pois significa a utilização da arte em seu paroxismo, em sua expressão mais dramática, e a lições que de tal prática podem resultar.

                                   A densidade e alguma falta de sistematização do texto podem não permitir a exata compreensão do que foi escrito, seja porque o leitor moderno sente-se muito distante do contexto histórico em que foi escrito, seja porque há reconhecida precariedade do ajuntamento das palavras, considerando que o autor não foi bafejado pela vida até que a obra atingisse o pleno amadurecimento.

                                   O presente opúsculo é um mero exercício intelectual de um artista marcial que se viu em grandes dificuldades para a primeira leitura do vetusto texto, quando ainda jovem e comandado pelos impulsos, mas que mais maduro e calejado, passado mais de um decênio, voltou à leitura da obra — é certo que através de uma primorosa tradução para o português, presenteada por um sincero amigo —, ocasião em que novas perspectivas abriram-se fortalecidas pela visão que somente os olhos cansados podem atingir.

                                   A experiência não é propriamente de uma exegese da obra de Miyamoto Musashi — demasiada pretensão para quem não dispõe de todo o conhecimento necessário para tal —, mas uma tentativa de retirar do texto original os ensinamentos que ainda são relevantes para o budoka atual, procurando interpretá-los e, de certa forma, escandi-los para permitir uma melhor compreensão.

                                   Em sua sistematização, Miyamoto Musashi, dividiu o livro em cinco capítulos, que lhe dão o título, ou seja, a terra, a água, o fogo, o vento e o vácuo.  A cada um deles deu sua ênfase como ele mesmo explica, mas os mesmos assuntos, por vezes perpassam todos os capítulos.

                                   Respeitando a sistematização do autor-samurai — em que pese, desse modo, tenhamos a contingência de tratar o mesmo assunto em mais de uma parte —, segue-se a ordem da divisão capitular original, utilizando-se o sistema de glosas, sem, no entanto, reproduzir o texto original, senão em mínimas partes para melhorar a compreensão.

                                   Indispensável, portanto, a quem realmente queira desenvolver o entendimento global e do livro de Musashi, que leia a obra propriamente dita, da qual este escrito representa apenas mera interpretação, singelo estudo, livre reflexão ou versão para a linguagem atual.

                                   O capítulo da “Terra”, conforme o próprio Autor explicita, destina-se a esboçar, em linhas gerais, a escola “Ichi”, que ele então professava. No capítulo da “Água” a ênfase é ao espírito humano, moldável às situações, como é a água ao seu recipiente.  No capítulo do “Fogo” o notável samurai trata da guerra, enquanto que no capítulo “vento” das demais escolas de kenjutsu, chegando, finalmente, ao capítulo do “Vácuo”, talvez a síntese filosófica e espiritual de todos os demais.

                                   Em que pese mantida a sistemática original, o objetivo deste ensaio é simplesmente buscar uma interpretação contemporânea, razão pela qual, alguns do dizeres de Musashi são destacados e devidamente explorados, sem contudo descer a todos os aspectos da obra, alguns desinteressantes ao homem moderno.

                                   Finalmente, é também preciso referir que me moveu a preocupação literária, isto é, de fazer um texto mais agradável para a leitura, sem contudo prescindir da linguagem interrogativa, permitindo ao leitor sua própria especulação quanto aos temas tratados.

A metáfora do carpinteiro.  Não é sem razão que, após algumas palavras introdutórias, Miyamoto Musashi comece a elaborar seu texto buscando analogias com outras atividades, demonstrando a parecença entre a arte da guerra e os demais ofícios.  Hoje talvez um discurso dessa natureza pareça completamente desarrazoado, embora as guerras continuem um fenômeno freqüente na humanidade.  Todavia, no Japão medieval anterior ao período Tokugawa, a guerra era cotidiana, e por séculos foi assim, tornando o samurai, ou o profissional da luta, sob o ponto de vista moral, um trabalhador como outro qualquer, em que pese o poder que poderia abasorver pelo manejo profissional das armas.

                                   Nisso a metáfora do carpinteiro fica mais ajustada quando olhada em seu tempo, e não perde qualquer atualidade no ponto de vista filosófico.

                                   Mais ainda, ao tempo de Musashi, o carpinteiro deveria ter importância fundamental, visto que a ele pertencia a faculdade de construir moradias da época, predominantemente feitas em madeira.

                                   Por isso, o lutador e o carpinteiro, ainda que pareça paradoxal, aproximam-se na dedicação ao seu ofício, e o samurai-escritor, atento ao que acontecia a sua volta, descobre que o segredo da estratégia era fazer do lutador um conhecedor tão profundo de seus misteres, quanto é o carpinteiro em seu ofício.

                                   A diferença, é claro, fica no risco de vida a que o soldado em atividade de guerra está constantemente submetido, mas aqui o enclave filosófico fundamental: conviver com a morte é essencial ao ser humano que pretenda alguma plenitude na vida.  Se a negarmos, ela nos perseguirá constantemente como um fantasma inquietante, não necessariamente representada por ameaças externas, mas simbolizada pelo próprio envelhecimento, sempre inexorável.

                                   O paralelismo com o carpinteiro ganha ainda maior amplitude quando, além da mecânica do ofício, onde o profissional aprofunda-se em si mesmo pela prática repetitiva que domina com cada vez maior maestria — e conseqüentemente ganha sabedoria —, também adquire elevada postura espiritural, pela segurança que o conhecimento alicerçado permite.

                                   O conhecimento não é uma vantagem isolada, conhecer algo profundamente, de uma certa forma, significa conhecer um pouco de tudo, pela inter-relação cósmica, nem sempre perceptível, que as coisas, os seres e os fenômenos têm entre si.

                                   A matriz, portanto, do pensamento externado por Musashi está provavelmente no alcançar às profundezas da alma humana que o domínio extremado do ofício permite, quando o especialista, por dominar completamente sua especialidade, transcende-a.  É a constatação definitiva de que não seria possível manter conhecimentos isolados, pois constantemente estaríamos impelidos a correlacioná-los.

                                   O procedimento metódico ganha relevância nesse contexto, pois somente a prática exaustiva “purifica” e aprofunda, onde o homem descobre-se pela revisão dos valores. O praticante domina cada item de sua área, cada aspecto, cada instrumento, amplamente, profundamente, como se fosse um universo particular a ser dominado, cujo domínio permite conhecer, por analogia, as demais universalidades e intuir sobre as leis que regem o comportamento do universo, seja material, seja anímico.

                                   No ápice do processo de aperfeiçoamento, o artista (marcial) atinge sua plenitude, e passa a praticar os atos de seu ofício, e assim também os demais atos de sua vida, de uma maneira tão natural que parecem brotar da essência de seu ser, e não de um complexo processo de aprendizagem que passou por metódico, duro e demorado treinamento.  Os atos do “carpinteiro” parecem ter vida própria, representam algo que se instaura no íntimo do obreiro, que confere transcendência à sua obra e significam a representação de um sentimento intraduzível em palavras.

                                   A arte militar, ou a arte da luta, então, surge apenas como um meio, um instrumento capaz de levar o homem à elevação.  Elevação espiritual seria a denominação mais adequada, mas como a palavra espírito e suas demais flexões encontram-se desgastadas pelas várias correntes místicas que a utilizam como bandeira, melhor deixar esse sentimento para o terreno do indefinível, pelo menos de maneira semântica.

O ritmo. A preocupação do velho samurai com o detalhes está sempre presente. Refere expressamente a intimidade que o artífice deve ter com cada instrumento, conhecendo-os com toda a profundidade permitindo verdadeira interação entre o instrumento, o corpo e a mente.  Evidentemente, os instrumentos não se esgotam naqueles em que se pode tocar, por isso materiais.  Há métodos, técnicas, sistemas, que têm apenas existência intelectual, mas nem por isso perdem sua natureza instrumental.  O artista, mormente o artista marcial, tem compromisso com sua técnica, pois é através dela que se depurará, tornar-se-á melhor e, no caso específico do lutador — o antigo guerreiro —, chegará ao paradoxo de pela arte da guerra atingir à paz, externa e interna.

                                   Dos vários pormenores que envolvem a prática, suma importância tem a noção de ritmo, pois por nela esconde-se a eficiência e, mais profundamente, o êxito, seja nos objetivos mediatos como imediatos.

                                   É deveras larga a possibilidade que o homem tem de enganar-se a si próprio e, por vezes, impensadamente acelera os ciclos da vida, tornando-a arrítmica.  Todos sabemos as conseqüências deletérias dessas circunstâncias, que ocasionalmente levam até à morte.

                                   A técnica imita à vida, e nisso seu grande tesouro.  Quem domina a técnica passa também a dominar as circunstâncias da vida.  Isso é fundamental na estratégia, seja ela para vencer inimigos, seja para vencer os obstáculos que todos enfrentamos no curso da existência, e o maior deles: o temor da morte.  Viver sem enfrentar essa verdade, é viver às escondidas.

                                   O ritmo é próprio de cada um, e a cada qual cabe descobri-lo.  Trata-se daquele momento onde os elementos essenciais se harmonizam.  A harmonia é o objetivo do ritmo, e há harmonia plena em golpear.  Há harmonia definitiva na morte.

                                   Sem ritmo não vivemos com plenitude, tornando-nos reféns da morte.  Só teme morrer quem não atingiu a plenitude.  É equivocado lutar contra o inevitável.

                                   Na vida e na arte devemos buscar o ritmo, o movimento certo no momento adequado e, mais profundamente, a infinitude de movimentos certos, no exato momento.

                                   É preciso não perder de vista que todo o ato humano é antecipado por uma complicada reação química, até hoje cientificamente incompreensível, responsável pelo pensamento; e este aciona um outro e igualmente complexo mecanismo biofísico consubstanciado no sistema motor.  Toda essa equação deve estar ajustada, mente, corpo, “espírito”.  Isso, ainda que explicado de forma imperfeita, é ritmo.

                                   Nas artes marciais o ritmo assume características próprias e encontra campo fértil para exploração física, psicológica e até metafísica.  Incorretamente confunde-se ritmo com velocidade.  Mistura-se conceitos inconciliáveis.  Velocidade é uma medida, um instrumento de aferição que somente pode ser utilizada através do exercício de comparação.  Somente sabemos se algum movimento ou algo é veloz através da comparação com seu semelhante mais próximo.

                                   A velocidade, no entanto, em si, nada significa, pode ser extremadamente negativa, provocar graves e fatais acidentes, deslocando o movimento de seu objetivo.  Ser veloz, portanto, nada significa.

                                   O que importa é o ritmo de cada um, isto é, a capacidade individual, pessoal, por longo tempo desenvolvida, de fazer praticar cada ato a seu tempo, em perfeita harmonia com os demais e com a ordem universal..  A estratégia e o ritmo confundem-se.

                                   A velocidade, ou ser veloz, está associado com angústia, ansiedade, ou seja, com uma alma arrítmica.  O desejo de velocidade não está presente somente nos movimentos, no deslocamento de corpos, mas também nos processos, sejam da vida, sejam institucionais.  Quando os aceleramos, tirando-os do ritmo, não raro temos que começá-los novamente, desde o primeiro ato, ou os tornamo tão demorados como se houvessem vários recomeços.

                                   Os ritmos, internos e externos, podem ser percebidos pelo espectador atento e treinado, permitindo-lhe grande vantagem estratégica, mesmo na ausência de inimigos concretos, quando se quer simplesmente vencer os obstáculos da vida.  É possível antever a ascensão e o colapso, de modo a não se deixar impressionar com a vitória e não se abater o descenso, tornando menor neste último, o natural sofrimento que os períodos negativos acarretam.  Ascensão e colapso nada mais são do que a vibração de um ritmo.

                                   Na luta o mesmo acontece, o lutador consciente pode discernir seu momento de maior fraqueza de modo a dele proteger-se, bem como captar os sinais do colapso do oponente para, no tempo certo, atacá-lo e tornar a vitória definitiva.  Essa percepção envolve técnica requintada somente possível às mentes eleitas pela iluminação, após árduo treinamento.

                                   Musashi lembra que assim como na luta, no comércio há a ascensão e o descenso, o ritmo seria o fator predominante para enriquecer e empobrecer.

                                   Ritmo há em tudo, em todos os movimentos do lutador, mas está palpável, perceptível, aflorado na respiração.  A função fisiológica de respirar — grosso modo — é de fornecer oxigênio ao corpo.  Mas a respiração transcende em muito a essa primitiva função.  É também instrumento de comunicação e nela afinamos o ritmo.  Sem ela, como sem ritmo, resta-nos a morte.

                                   Morte é ruptura; ruptura do ritmo, assim como necessitamos romper o ritmo do adversário para vencê-lo.  Não basta ânimo e desprendimento para enfrentar, é preciso conhecer: todos os ritmos.

                                   O estudo dos ritmos permite-nos formular regras gerais do movimento e do comportamento, e com elas jamais poderemos transigir, senão quando convencidos de que devem ser modificadas por equivocadas.  Essas normas, uma vez perenizadas transformam-se em mandamentos, princípios.  Afastar-se deles significa perder o ritmo, pois que passaremos a desconhecê-lo.   É preciso treinar arduamente, dedicar-se com afinco.  A prática negligente acaba por traduzir-se na sensação de vazio espiritual (e não filosófico), de quem não percebeu o ritmo.  A prática torna-se desarrazoada.

                                   Praticar com afinco não significa ultrapassar os limites — e cada qual tem seus próprios —, mas buscar a correta compreensão do sentido da prática.  Deve-se realizá-la com descortino e com os olhos postos no objetivo último que é a autocompreensão.  Compreendendo a si, compreenderás teu próximo, mesmo que ele seja o inimigo.

                                   A linguagem militar, que sempre defronta o leitor com o inimigo, nos tempos atuais deve ser lida em vista da paz buscada — nem sempre conseguida.  Paz social, paz entre nações, mas sobretudo paz interior.

                                   Na visão cósmica do universo onde tudo e todos correlacionam-se, não é estranho que o método da guerra seja o mesmo método da paz; que a estratégia guerreira seja a mesma na luta pelo conhecimento próprio em busca da paz interior.  Afinal paz e guerra situam-se em locais opostos de uma dualidade, onde um conceito não existe sem o outro.  Sabe-se que a paz é a ausência de guerra e vice-versa.  O importante é identificar em quais guerras deveremos combater.  A noção de triunfo, perscrutada por Musashi, fica relativizada: triunfar é existir com plenitude.

A atitude espiritual.  Também de grande importância é a atitude espiritual na guerra ou na luta, que deve traduzir o mesmo sentimento que experimentaríamos em uma situação quotidiana da vida normal.  O sobressalto, os sentimentos cíclicos e erráticos são claro sintoma da perda de ritmo.  O ritmo e a serena atitude espiritual adquire-se através da prática.  Mas não basta a prática intensa e deslocada do foro primordial, pois ela deve levar à maturidade filosófica onde o praticante pode com tranqüilidade divisar os verdadeiros valores.

                                   A prática, nesse sentido, é enriquecedora, pois em grande medida as valorações equivocadas provém da incorreta percepção do próprio corpo.  Nele, apesar de sua finitude e mutabilidade, carregamos um relevantíssimo material; o verdadeiro instrumental da prática espiritual.  É preciso conhecê-lo profundamente, explorando seus limites, para atingir o conhecimento.  Não há efetiva prática mental sem prática física, e a prática física despida de reflexão não passa de uso inútil da energia.

                                   A atitude espiritual do lutador deve originar-se na paz interior, mantendo a serenidade íntima.  Se não conseguir fazê-lo falta-lhe prática.  Os sentimentos menores, como rancor e ódio traduzem a falta de ritmo, e situam-se em incorreta atitude espiritual.  Manifestar sentimentos assim para com o antagonista na luta significa sinalizar-lhe o colapso.  Se adversário for experimentado, saberá aproveitar a oportunidade pela manifestação de fraqueza.

                                   Os sentimentos devem estar sob controle do praticante, na perspectiva de que a prática destina-se justamente a separar o sentimentos menores dos elevados.  Difícil descrever com exatidão esse processo, mas este é o caminho do lutador em busca da verdade última, que jamais poderá ser percebida pelos sentidos, mas pela faculdade fundamental de todo o ser humano, produto da soma da razão com a emoção.

                                   Se o espírito domina o corpo, e este é mero coadjuvante, somente este poderá relaxar, até porque a sucessão de relaxamento e contração insere-se no que temos por ritmo.  O espírito, no entanto, não pode fraquejar, devendo manter-se atento e vigilante, buscando constantemente entender o que se passa ao derredor do corpo que habita.

                                   Há unicidade entre espírito e corpo, pois ambos fazem parte do mesmo indivíduo, mas se não for possível separá-los, o praticante esmorecerá, pois os ciclos do corpo são diferentes dos do espírito.  Este jamais deve envelhecer.  É com sua jovialidade que enfrentaremos o envelhecimento do corpo.

                                   A distinção entre corpo e espírito permite a busca do equilíbrio entre ambos.  Tanto mais forte deverá ser o espírito quanto mais fraco estiver o corpo, sem nunca perder de vista que a fortaleza espiritual é, mais do que tudo, a exata compreensão os sistemas, permitindo a eleição da melhor estratégia.

                                   A atenção, portanto, deve estar no espírito, pois no corpo sem espírito inexiste vida, e sem vida não há porque lutar.  Se corpo e espírito pertencem a uma dualidade inextrincável, Musashi adverte que aqueles de corpo pequeno devem ocuparem-se da coisas grandes do espírito, e os de corpo grande com as coisas pequenas.  Trata-se da percepção íntima de que, em algum nível, o corpo molda o espírito.  Temos que lutar sempre para sanar às imperfeições, do corpo e do espírito.

                                   A retidão é da essência da atitude espiritual correta, pois o comportamento esquivo, fraudulento, enganoso na verdade não passa de mero reflexo do espírito doente.  A doença, nesse caso, certamente atingirá o corpo.

                                   Essa retidão conduz à sabedoria, permitindo-nos trilhar com êxito qualquer caminho que o destino apontar, ou, sob o ponto de vista existencialista, aqueles pelo qual decidirmos.  Será possível desempenhar com maestria não só a arte da luta, mas as demais atividades, todas com gênese no mesmo espírito humano que se procura descobrir.

                                   Dessa forma, poderemos evitar que sejamos induzidos ao engano.  Ninguém poderá enganar ao espírito atento, garantindo-nos também isenção ao pior dos enganos: o auto-engano.

A postura do corpo. A noção de ritmo e harmoniza-se com a atitude espiritual, e ambas conduzem ao equilíbrio.  As palavras são sempre imperfeitas e seu significado normalmente fica aquém do que se quer dizer.  Ritmo, atitude espiritual e equilíbrio podem parecer, em certo sentido, o mesmo conceito, e efetivamente são em múltiplos aspectos, especialmente nas áreas em que apresentam intersecções.

                                   Todavia, o entendimento de equilíbrio deve estar mais voltado para o corpo, pois a atitude equilibrada deste poderá permitir o movimento correto.  Corpo desequilibrado significa movimento incorreto, e certamente ineficiente, imprestável para sua verdadeira finalidade.

                                   A postura do bípede, característica do homos sapiens, confere-lhe uma peculiar forma de equilíbrio que somente é possível quando a coluna vertebral situa-se na posição vertical.  É preciso manter essa posição do corpo e, mais do que isso, fortalecê-la, durante o movimento.

                                   As projeções (do corpo) devem sempre ter presente que no deslocamento do corpo o equilíbrio depende da posição ereta (não é sem razão que, no estágio anterior do desenvolvimento humano, ao espécime da época deu-se o nome de homo erectus), ganhando relevância o posicionamento dos pés, pernas e quadris, que se devem postar com firmeza, “agarrando” o chão.

Olhar e perceber.  A todo o ser humano hígido ou sadio foi dada a faculdade de olhar, mas nem todos que olham conseguem perceber.  O ato de divisar imagens é deveras primitivo, e para ele estão aptos a maior parte dos seres vivos que habitam este planeta.  A percepção nos animais prende-se à necessidade de sobrevivência, sem ela o perecimento é iminente.  No ser humano, a percepção é mais elevada e requintada, estando ligada, em todos os níveis, às eleições que o perceptivo irá realizar.  Se correta a percepção, atingir-se-á a ventura; se incorreta, o caos, ou a antítese de ritmo e harmonia.

                                   A fraqueza da visão sem percepção, é a fraqueza do corpo sem espírito.  Assim como a carne dá forma aos ossos e o espírito é a essência do homem, a visão sem percepção é um sentido inútil.

                                   A visão perceptiva igualmente requer exercício e preparação da mente.  É através dela que poderemos identificar o colapso, esteja onde estiver, dentro ou fora, no inimigo real ou virtual.

                                   A percepção é a visão com sabedoria, dotada de técnicas de interpretação dos fatos e da realidade, que não deixam passar o que importa, embora aparentando insignificância.

                                   Se a visão é de fundamental importância nos momentos críticos, é indispensável que, diante deles a mesma já se encontre devidamente exercitada e desenvolvida, o que somente será possível se praticada no cotidiano, procurando-se descobrir a riqueza que toda a banalidade encobre.

A posição das mãos.  Se quanto aos pés, como se verá mais adiante, a movimentação, e principalmente seu modo, guardam enorme relevância, com pertinência às mãos — instrumento mais refinado e de maior sensibilidade — o movimento é ainda mais vital.  Como adverte Musashi a imobilidade das mãos representa a “mão da morte”, e a mobilidade a “mão da vida”.  Por detrás desse conceito dual está a correta percepção de que a imobilidade, a inércia, adormece o espírito, neutraliza o ritmo, conduz à morte.  Se no universo a entropia é a origem da vida, a ausência de movimento é o fenecimento.

O movimento dos pés.   Não é possível compreender o movimento dos pés senão para relacioná-los com o equilíbrio do corpo.  É óbvio que os pés, ordinariamente o único contado do bípede com o chão, são os responsáveis primordiais de qualquer mobilidade corporal.  Mas não é do movimento em si de que necessita o lutador.  Para este importa o movimento equilibrado, efetivo, eficaz, eficiente, ritmado, a partir do qual possa produzir uma ação capaz de atingir os objetivos perseguidos.  Interessa ao combatente, pelo movimento, por sua cinética, multiplicar-se em efetividade, razão última de toda a técnica.

                                   Musashi, também com inefável acerto, lembra que o movimento correto dos pés é o “Yin-Yang”, ou que respeita à dualidade cósmica; que reconhece as forças antagônicas para convertê-las em um só movimento. 

                                   Ciente dessa realidade, Musashi assevera que o movimento de um dos pés sempre deve guardar estreita relação com o seu igual e, ao mesmo tempo, antípoda (direta/esquerda).  Se o direito move-se, igualmente deve mover-se o esquerdo, e o inverso também.  Se é verdadeiro que, ordinariamente ambos os pés haverão de moverem-se na mesma direção, o correto é que essa não é a regra, pois o movimento dos pés devem sempre buscar o equilíbrio do corpo, encontrando a melhor posição para o equilíbrio do “tanden”, “hara” ou centro de gravidade, situado em um ponto clássico do baixo ventre.

                                   Um os pés, assim, jamais deverá movimentar-se de forma isolada, devendo sempre corresponder no outro o movimento próprio e adequado na busca do equilíbrio gravitacional e espiritual.  Aqui, mais do que nunca, o sábio samurai tem razão: é necessário examinar tudo o que foi dito, refletir e praticar.

A “guarda sem guarda”:  Apesar de velho e doente quando dedicou-se a escrever sua obra única e fundamental, o velho samurai intuía as verdades filosóficas que elaborava, embora tenha destinado o texto exclusivamente a professar sua escola “niten-ichi”.

                                   A tese da “guarda sem guarda” é transcendente, e ultrapassa em muito a arte pura de lutar, com mãos armadas ou vazias.  Significa dizer que a guarda, em si, encerra a indesejável inércia, a espera suicida à iniciativa do adversário.  Indispensável antecipá-lo, antevê-lo, dominar suas ações.

                                   Assim tanto na luta como na vida — que nada mais é do que uma forma, ainda que metafórica, de luta —, especialmente em uma época onde o desenvolvimento científico revela a importância das precauções e da prevenção.  Prevenir é antecipar; prevenção e absoluta inércia são inconciliáveis.

                                   Daí segue-se que a guarda no sentido da resignada espera ao ataque do adversário significa uma errônea atitude espiritual.  Se o corpo pode aguardar o ataque inimigo, procurando a melhor posição para contragolpear, a mente não pode ficar resignada, mas ativa, sempre voltada para a vitória.  A “guarda sem guarda” (ukô-mukô) significa dissociar o corpo da mente, fazendo aquele aparentar o inverso do que passa nesta.

O golpe a um só tempo.  Não fora o fato de que a demora em abater o inimigo sempre poderá permitir-lhe a recuperação, há a verdade filosófica que de se deve buscar a eficiência máxima, e de que vivemos várias vidas dentro da vida existencial.  O golpe é uma vida.

                                   Pouco importa o que os fatos aparentam revelar, pois relevante é a verdade espiritual.  Não há uma verdade única; cada um carrega sua própria verdade.  A verdade é uma vivência individual.

                                   Assim, a posição mental adequada é de que o inimigo será abatido com um só golpe.  Do contrário estaremos antecipadamente admitindo que o golpe será fraco; e se assim o imaginarmos, assim ele o será.  É preciso nunca esquecer a importância do pensamento sempre anterior a todos os atos humanos.

Táticas para golpear.  Não é relevante que, eventualmente, seja necessário mais de um movimento para abater o adversário, o que importa é que cada movimento seja soberano, impregnado de consciência e convicção quanto ao seu objetivo.

                                   É possível fintar, enganar, concentrar forças para contragolpear, usar uma seqüência, esquivar, enfim, utilizar de todas as formas que a imaginação permitir.

                                   Todavia, o uso deve ser antecedido da prática prolongada detida e estudada, pois o movimento inseguro, sem toda a carga de volição — ou espiritual —, está antecipadamente fadado ao fracasso.

Golpear e bater. Nova e importante dualidade propõe-nos Musashi, tal como propôs ao separar o ato de ver do de perceber.  O espírito estreito é sempre prejudicial ao seu portador.  Aquele que apenas bate pensando estar golpeando, somente desperta o adversário para extensão de sua fraqueza.

                                   É possível usar na estratégia o ato de bater, mas apenas quando antecedente do verdadeiro golpear para definitivamente abater o adversário.

                                   Bater significa atingir, mas não necessariamente com o potencial ofensivo capaz de vencer o antagonista.

                                   Golpear, por seu turno, reveste-se de caráter definitivo, é absoluto desde a origem ao fim último: vencer inapelavelmente.  Essa a correta posição mental ao golpear.

                                   Aqui talvez a insuperável dificuldade que jamais permitirá a completa adequação das artes marciais ao mundo desportivo.  No desporto, por definição, não se deve golpear, mas apenas bater.

                                   No entanto, na vida, onde não mais está presente a necessidade de matar como prática habitual de sobrevivência, a distinção é fundamental em relação aos demais atos humanos.  Golpear, nesse âmbito, significa agir com absoluta convicção, lealdade e preparação, com a firme intenção de atingir o objetivo.  Bater é o agir indolente, despreparado, insosso, para ao depois desenvolver múltiplas e inaceitáveis explicações para o fracasso.  Aquele que bate simplesmente, em nível profundo, sabe golpear, mas apenas no ato de explicar, a si mesmo e aos demais, suas razões para não sabê-lo.  Nisso age com plena convicção, em sua apologia ao malogro.

Corpo de Shûkô.  Inúmeras são as táticas de movimentação professadas por Musashi, todas elas relacionadas com o Kenjutsu, em área onde, por não conhecer com a devida profundidade, sinto-me desconfortável para discorrer.   Todavia, quando trata do “Corpo de Shûtô”, o autor-estrategista revela novamente a essência da movimentação.  Nela sempre devemos ter em vista predominantemente o movimento do corpo, e não dos membros.  Estes são meros acessórios, canais para a transmissão da energia corporal em direção ao adversário.  Os membros, em si, são fracos e vulneráveis, e somente ganham grandeza como emissários do corpo.  Daí a necessidade da técnica correta, com a qual jamais devemos transigir, ainda mais em nome da aparência cuja valorização excessiva é um dos mais constantes e perniciosos pecados do espírito.

Inúmeras maneiras de atacar.  Apesar de o ato de lutar encerrar uma força instintiva imensurável, é justamente dela que deveremos nos servir racionalmente.  Talvez lutar, profundamente, signifique uma forma de trazer à tona os mais remotos sentimentos do ser humano, de modo a com eles interagir.  Por isso, ainda que no calor da refrega, mas principalmente em razão dela, é preciso serenidade, concentração e aplicação da técnica cuidadosamente insculpida e treinada.

                                   Musashi refere inúmeras maneiras e fazê-lo no Kenjutsu, algumas delas aplicáveis e normalmente utilizadas até os dias de hojes pelas demais artes de luta.

                                   Entre outras, percebeu o velho samurai, que há sempre um momento de vulnerabilidade de quem ataca e neste instante poderá o oponente encurtar a distância e alvejá-lo com vigor através do próprio corpo (normalmente com o ombro).  Trata-se de uma técnica não esportiva, mas de utilização em combates verdadeiros, que parte da constatação que o adversário ficará ainda mais vulnerável se desequilibrado e projetado.  Passará por um período suficientemente longo de apatia mental, permitindo ao opositor ultimar o combate através da vitória definitiva.  Essa técnica destina-se a evitar a permanência dos combatentes em curta distância, extremamente perigosa das disputas que envolviam armas brancas.

                                   Também não escapou à acuidade de Musashi a relevância dos golpes dirigidos aos olhos.  Ele percebeu a imensidão que significa o ato de olhar, verdadeira porta de entrada, que separa o mundo exterior da alma.  Atacar contra os olhos, normalmente, além do caráter agressivo desse ataque, tendo em vista a região do corpo, nobre e sensível, onde os olhos encontram-se, resulta em um movimento defensivo do opositor, há um amplo constrangimento deste, possivelmente os olhos até fechar-se-ão por alguns segundos.  Nesse momento o antagonista está completamente vulnerável, e poderá ser facilmente vencido.

                                   Atacar a face e os olhos, atualmente, também tem uma significação metafórica, pois é conhecido o comportamento esquivo, atordoado, medroso daquele que não olha nos olhos.   Olhar nos olhos e, se for o caso, investir contra eles, representa uma prática de extremo vigor, mas também de lealdade e retidão de quem age às claras, à vista.

                                   Semelhante relevância no ato de lutar, e na vida, tem a expressão sonora da alma.  Musashi sugere as palavras Katsu e Totsu (uma provocação ou grito de guerra), mas na verdade a sabedoria indica que a forma de comunicação expressa a firmeza ou fraqueza de caráter do emissor.  É possível, por ela, inibir os opositores, e até vencê-los sem lutar, o que seria a mais sábia e completa forma de vencer.   De qualquer forma, ainda que não se trate de simplesmente lutar, pela manifestação sonora, sendo ela firme e decidida, verdadeira expressão do espírito reto, granjearemos o respeito dos que nos são próximos e, eventualmente, até mesmo dos distantes.  Esta é, por si só, uma grande vitória!

                                   O uso do sistema de bater e golpear (já mencionado anteriormente) não se limita a finta ofensiva, mas também pode ser utilizado defensivamente, é possível aparar o golpe adversário através da batida neutralizadora, seguindo-se o golpear forte e vigoroso.  Nesse momento deverá ser mentalmente clara a diferença ente uma e outra forma de agir.  Bater para absorver, golpear para vencer.  Mesmo princípio pode ser utilizado em outras situações da vida, ante os ataques adversários, ainda que meramente verbais.  Todo o tribuno conhece essa diferença.   Golpear simplesmente e simultaneamente com o adversário resultará na neutralização de ambos os golpes ou, o que é pior, na morte de ambos os oponentes.  Deve-se golpear no instante logo anterior ou logo posterior ao golpe do adversário, justamente no momento em que ele se encontra mais vulnerável.  Enfrentá-lo no ápice de sua performance é um erro de estratégia.

                                   No combate com vários inimigos, Musashi sugere que se deve condicioná-los a vários combates individuais.  Divisar com clareza o adversário que vem mais à frente e imediatamente enfrentá-lo, posicionar-se de tal maneira que os demais sejam obrigados a ingressar em fila indiana.  Enfrentá-los a todos com toda a determinação.

                                   Nesse particular, de pouca utilidade prática nos dias atuais, mas de vital relevância à época do Japão medieval, está um aspecto essencial da postura mental do lutador de jamais intimidar-se.  Se a morte era um caminho natural para o samurai, é certo que, mesmo em maioria, o grupo ofensor não sentiria impedimentos para abater o opositor solitário.  A alternativa deste era combater com destemor, certo que de vencerá a todos.  Doutra forma decerto perecerá, pois se há desvantagem numérica, tal desvantagem jamais poderá ser superada por uma mente abatida.  O abatimento, ainda que um sentimento natural do ser humano, é extremamente perigoso, e deve ser guardado para os momentos em que o riscos forem menores.

                                   Ao finalizar o “capítulo do vento” Musashi lança algumas sérias advertências, sobre a serenidade do espírito e a obediência aos mandamentos.  Refere que o lutador deve sempre desconfiar de suas capacidades, pois se ficar inebriado com uma vitória, na próxima contenda provavelmente será vencido.  Os mandamentos destinam-se a lapidar o espírito e evitar que a alma, por suscetível, atenda aos sentimentos menores de glória e jactância, sinais do iminente colapso.  Na glória o homem esquece de sua finitude e imperfeição, e, no momento posterior, poderá morrer de for um samurai, ou simplesmente sofrer terrivelmente se for um cidadão moderno.

A Guerra. No “capítulo do fogo” Musashi desloca seu exame das táticas, formas e posturas para o combate propriamente dito. No entanto, as leis da estratégia pontuam todo o proceder do guerreiro, e o que foi acentuado antes também merece atenção agora.  Certas verdades filosóficas reaparecem sob a afirmação de que o combatente não deve deter-se em pormenores, especialmente os de somenos importância, cumprindo-lhe dominar amplamente os mandamentos.

                                   Não está escrito, mas se pode perfeitamente perceber que o autor não renega os pormenores — talvez apenas aqueles realmente irrelevantes —, mas lembra que estes, no momento da luta devem estar “esquecidos”, ou seja, internalizados pelo treinamento.  Devem já fazer parte da essência da alma do samurai.

                                   Não é possível, no momento da aplicação, lograr a execução correta da técnica, senão após o duro período de preparação, onde a sabedoria agrega-se de forma sedimentar, um conceito dando fundamento e escora ao outro, todos formando um todo introjetado de tal forma no espírito do praticante que ele regurgita a sabedoria, mesmo sem perceber conscientemente.  Está de tal forma impregnado pelo conhecimento, que não é mais possível separá-lo de si mesmo, ambos perfazem um só indivíduo.

                                   O combate também deve ser interpretado sob o ponto de vista metafórico.  É concreto, até hoje, para os lutadores que fazem dessa arte o seu ofício.  Entretanto, qualquer um poderá beneficiar-se da estratégia, desde que devidamente entendida em seu sentido amplo, traduzindo a linguagem do estrategista para o campo onde se dará o embate estudado, mesmo que apenas intelectual.

O local.  É quase que evidente que o local do combate é de suma importância para o desempenho do lutador, seja em razão de sua simples situação, de seu solo, dos obstáculos que apresenta, da iluminação, do clima, da temperatura, e outros pormenores.  Musashi exemplifica que, em locais de escassa iluminação, deve-se sempre procurar dar as costas à fonte de luz, de modo que esta beneficie o lutador e confunda seu opositor.  Sendo possível deve-se procurar usar do local para dificultar a ação do antagonista, levando-o a uma posição onde tenha comprometido seu equilíbrio, ou, sendo um local fechado, tenha limitações em sua movimentação.

                                   Essas circunstâncias, para aqueles que ainda adotam a arte de lutar como meio de vida, especialmente em competições esportivas, tem pouca significação, pois os locais onde se ferem os combates são espaçosos, homogeneamente iluminados e sem obstáculos.

                                   Para o atual competidor a aferição do local onde se desenvolverão os combates tem outra significação: psicológica.  Dificilmente, tal como o samurai, ele poderá usar de particularidades do local para infligir dificuldades ao oponente.  Todavia, será de grande valia a adaptação mental ao local.  De sua sensação de familiaridade com o local virá a necessária serenidade.  É importante estudar o local, até ele tornar-se familiar, neutralizando assim as pressões que o local hostil poderia provocar.

                                   Igual importância tem esse mandamento aos demais que necessitam da estratégia, na vida ou nos negócios.  O contendor acuado entra em desequilíbrio, oferecendo uma vantagem ao opositor que dificilmente poderá ser superada.  É preciso lembrar que quando tratamos do opositor de maneira ampla, não se aplica exclusivamente a inimigos humanos, mas de qualquer espécie, sejam eles fatos aleatórios, provocados ou previsíveis.

Os três modos de se adiantar ao inimigo.  Musashi, quando discorre sobre a antecipação na luta tem em mente as formas clássicas, que ele divide em “Ken no sen”, “Tai no sen” e “Tai-tai no sen”.  Sinteticamente, na primeira modalidade, o combatente ataca o inimigo.  A iniciativa é sua, e o constrangimento do inimigo; poderá usar das inúmeras táticas já mencionadas.  Na segunda modalidade, a iniciativa do ataque dá-se no momento em que o adversário ataca; utiliza-se do momento de vulnerabilidade que todo o atacante tem entre o início de seu ataque e a terminação do movimento.  Trata-se de um átimo, mas nele a vida ou o êxito está em risco (viver é correr risco).  Na terceira modalidade, o ataque opera-se simultaneamente ao do inimigo.

                                   Como bem lembra o sábio samurai é impossível descrever com detalhes a forma e a evolução dessas modalidades, mesmo porque depende da percepção de cada praticante.  O que importa é salientar que o lutador deve desenvolver essa sensibilidade de imediatamente identificar no inimigo sua disposição, de atacar ou recuar, passando então, por esse sistema de antecipação, a desenvolver a atitude adequada.  Apreender a reconhecer antecipadamente os sentimentos do adversário, eis a suma da estratégia.

Prender o travesseiro.  Se o objetivo é dominar o adversário como meio de vencê-lo, é preciso dominar sua cabeça, e com ela os principais sentidos do ser humano.   Se for possível impedir que o antagonista consiga elevar a cabeça, ou controlá-la em seus movimentos em razão ataques vigorosos que lhe são infligidos, a vitória estará próxima.  Musashi exclama que não é possível vencer o oponente sem antecipar sua intenção.  Portanto, o procedimento aqui descrito significa que, frente ao poder antecipação, deve o combatente abortar todas as iniciativas do adversário, agindo antes e com determinação.

Atravessar corrente crítica.  Nesse passo o emérito estrategista reconhece a importância de seus mandamentos, lembrando que eles transcendem à guerra e aplicam-se na vida.  Atravessar período de dificuldades é inerente a própria existência humana.  Todos enfrentaremos situações hostis em maior ou menor intensidade ao longo da vida.  Cumpre-nos enfrentá-las com afinco até superá-las, na luta ou na vida. O desencanto e a depressão, na guerra ou na vida, poderão significar a morte.  É nesses momentos críticos que a fortaleza conquistada pela prática será mais útil.

Conhecer o momento.  Temos para a existência humana a sensação de que se trata de uma unidade.  Todavia, o tempo faz-se pela sucessão de momentos.  Não nos cabe perquirir a unidade básica de tempo, pois este é o campo de especulação da física atual.  Mas a sensibilidade treinada é capaz de discernir a diferença entre os momentos.  Há períodos favoráveis para tudo.  Os atos praticados contra essa grande ordem tendem ao fracasso.  Sendo possível perceber o momento exato fica mais fácil o êxito.  Na luta os momentos pertencem a dualidade formada pelos adversários.  Há o momento de exaltação do combatente e também o momento de fraqueza do opositor.  Ambos deverão ser avaliados, e dever-se-á agir no momento em que as duas circunstâncias estejam favoráveis.  Musashi recorda que se a capacidade intelectual estiver toda voltada para o momento, será possível percebê-lo.

                                   Perceber o momento requer mais do que simplesmente aguardar o tempo certo para agir, mas principalmente compreender o ritmo do adversário para poder quebrá-lo.  Compreender o ritmo é ato de extrema sensibilidade, trata-se de reconhecer a pulsação cósmica, eco daquela que no passado deu origem ao mundo.

Pisar na espada.  Significa, de outra maneira, também entender o ritmo do inimigo e disso tirar vantagem.  Musashi lembra dos combates medievais onde os soldados dispunham de apenas um carga na espingarda, ou do uso do arco e flecha, onde também não havia repetição automática de tiros.  No momento logo posterior aos disparos, a força adversária, preocupada com a recarga, estará vulnerável.  Compreendendo este ciclo, poder-se-á atacá-la no justo momento em que se encontra neutra, sem poder ofensivo.

                                   A forma mencionada é um exemplo prático e clássico, mas a estratégia não se encerra nisso, pois tem uma representação espiritual mais profunda.  Pisar na arma do adversário significa submetê-lo inteiramente, quiçá vencê-lo sem sequer lutar, constrangê-lo de tal maneira que ele prefira a paz.

                                   A paz é um objetivo civilizado da maior importância, mas o homem não pode perder a perspectiva que ela situa-se em uma dualidade que lhe dá essência.  Não surgiria a necessidade de paz se jamais houvesse guerra.  A paz pressupõe guerra, assim como a bondade contrapõe-se à agressão; a sabedoria à ignorância.  Somente é possível a paz eliminando-se a guerra; a bondade controlando-se a agressão; a sabedoria superando-se a ignorância.  É preciso interagir com o próprio espírito de agressão como com a agressividade dos demais, pisando-lhes.  Essa a essência da prática marcial: enfrentar a guerra sem provocá-la, liberando sua enorme energia criadora.

                                    Em razão disso, adverte Musashi, não se pisa somente com os pés, mas com todo o corpo e também com o espírito, além de com a espada, é claro.

Saber o que é o colapso.  Evidentemente, perceber o momento depende da percepção do ritmo, e entendendo o ritmo é possível antecipar. O ritmo é da natureza do processo.  Todo o processo tem começo, meio e fim. Por vezes confundimo-nos.  Vemos momento onde há processo, pois o processo foi tão rápido que escapou aos nossos sentidos.  A noção de tempo de que dispomos é muito acanhada para percebê-lo.  Há muitas dimensões de tempo e espaço imperceptíveis.  Interessa-nos, no entanto, os processos que podemos perceber e entender através do desenvolvimento dos sentidos.  Na vida de relação os processos estão disponíveis à percepção e poderão ser entendidos pelo assistente atento.  Entendendo-os poderemos antever o ocaso, prever o colapso.  Se o colapso antevisto for o próprio de quem assiste, será possível minimizar suas conseqüências (dificilmente evitá-lo, pois é da essência do processo).  Se o colapso foi do inimigo poderá ser utilizado para abreviar a vitória.

                                   Não compreender o colapso é muito perigoso e nocivo, pois permitirá ao adversário (qualquer adversário, vivo ou factual) readaptar-se a nova contingência, ressurgindo fortalecido.

Transformar-se no inimigo.  Já ficou visto que enfrentar significa essencialmente compreender.  Enfrentar sem antes compreender resulta em comportamento inconseqüente, onde somente a sorte poderá evitar a derrota.  Compreender o adversário é essencial, pois assim é possível antecipar-lhe os passos e, principalmente, influenciar no ânimo próprio.  Compreensão é também mutação.  Melhor colocar-se na posição de quem queremos compreender.  Desse modo não o superlativaremos nem o subestimaremos.  Qualquer dessas hipóteses será perigosa.  Ver no adversário mais força do que tem, levar-nos-á a enfrentá-lo de forma acanhada e amedrontada.  Por outro lado, olhá-lo menor do que é jogar-nos-á em uma aventura irresponsável pela vulnerabilidade.  Viver significa correr risco, não há como evitá-lo, mas é possível minimizá-lo através da correta e equilibrada avaliação.

Soltar as quatro mãos.  Significa o momento do combate em que ambos os lutadores encontram-se com suas mãos presas umas contra as outras.  Trata-se do impasse, comum à vida como à luta.  O impasse resulta da estratégia inadequada, pois levou ao obstáculo intransponível.  É preciso “soltar as mãos” para estudar uma outra forma de enfrentamento.  Persistir no impasse é gastar energia inutilmente, que cuja falta pode ser mortal no momento seguinte.

                                   A sabedoria dessa estratégia está em identificar e superar à teimosia, permitindo a rápida criação de um novo cenário mais favorável.

Mover a sombra.  Se é indispensável perceber a estratégia do inimigo para antecipá-la, temos que dispor de métodos para desvendá-la, especialmente quando enfrentamos um adversário habilidoso e experiente.  Mover a sombra é obrigá-lo a praticar movimentos para que possamos, por seus gestos, interpretar sua intenção.

Prender a sombra.  As grandes dualidades que explicam o universo estão sempre presentes.  Ao atacar — de modo a exercitar sua fortaleza — todo o inimigo fica vulnerável.  Quem ataca se expõe, é inevitável.  A estratégia significa atormentar-lhe o espírito ante seu manifestado desejo de atacar, demonstrando-lhe a firme intenção de enfrentá-lo mesmo em seu ataque, superando-o através da exploração de sua vulnerabilidade inevitável.  É uma forma de quebrar-lhe o ritmo. Ele agirá de forma insegura.

Passar adiante:  Em toda a forma de vida há comunicação.  A comunicação pode ser uma forma de controle (normalmente é utilizada com este desiderato).  É possível controlar o adversário fazendo-o absorver sensações previamente determinadas.  É possível torná-lo desatento, desidioso, para facilitar a vitória.  Mesmo na luta há uma relação, uma intensa relação com grande carga de comunicação.  O espírito mais forte dominará o mais fraco, basta examinar.

Provocar o temor e a inquietação.  Tanto maior é a segurança do ser humano quanto maior for seu conhecimento da situação e do local em que se encontra.  O inverso é também regra.  O inusitado, o desconhecimento tem por fruto o temor e a inquietação.  Desse modo, para superar o adversário, não podemos ser previsíveis, pois assim estaremos oferecendo a ele a capacidade de nos compreender e nos antecipar.  É preciso inverter essa situação.  Não basta procurar antecipar o adversário.  É necessário evitar também que ele nos antecipe.  Para isso o lutador deve desenvolver sua imprevisibilidade, aparentar o contrário do que pretende, retirar de sua gestualidade e das feições a forma de seu espírito, posto que o espírito transbordante é fraco por previsível.  A surpresa provocará temor e inquietação.  Facilitará a vitória.  É necessário compreender o que significa essa estratégia nas infinitas situações que podem surgir na vida.

Infiltrar-se.  O impasse é sempre indesejável, mas os fatos estão acima dos desejos.  É preciso enfrentá-lo.  Persistir no impasse, além de teimosia, denota falta de inteligência.  A situação deve ser alterada sem demora.  Pode-se confundir o adversário se o fizermos “rolar”, fazendo-o desequilibrado pelo nosso próprio desequilíbrio (deliberado).  Nesse momento ele não consegue discernir onde seu corpo termina e onde começa o do seu oponente.  Ele estará ainda mais inquieto pelo fato de não ter desejado tal situação.  Quem a provocou terá vantagem, pois dela antes sabia e poderá antecipar suas ações.

Atacar os cantos.  Musashi recomenda que, no combate de exércitos, deva-se atacar primeiro os setores mais fortes.  Parte do princípio que assim não se ficará deles à mercê, ao contrário da situação onde fosse adotada a tática inversa, de atacar os setores mais fracos.  No combate individual a estratégia é ferir o pontos nevrálgicos do adversário, debilitando-o.

                                   É preciso bem compreender essa estratégia.  O correto é que se mate a cobra cortando-lhe a cabeça.  Entretanto, entre antagonistas equiparados a cabeça não está disponível para ser cortada.  É preciso antes expô-la neutralizando partes do corpo.  Se o todo é composto necessariamente por suas partes, torna-se necessário identificar quais partes deverão ser inicialmente neutralizadas ou destruídas, para comprometer o desempenho global e, finalmente, atingir a vitória.  O corpo é um todo, o espírito é um todo, ambos são formados por partes.  Mas corpo e espírito também são partes de um todo.  É possível neutralizar o espírito para atacar o corpo, ou ferir o corpo para esvaziar o espírito.  O corpo ferido perturba o espírito; o espírito perturbado torna vulnerável o corpo.

Gritar.  Embora o espírito seja imaterial, pode-se usar uma expressão da física aplicada à matéria: dois espíritos antagônicos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.  O grito (“kiai”) é uma forma de expressão do espírito (“ki”).  Com ele projeta-se o espírito adiante e demonstra-se sua fortaleza.  Poderá ser utilizado para constranger o espírito adversário, ou simplesmente para firmar o próprio espírito.  Alterações no timbre e volume da voz são técnicas há muito conhecidas pela oratória.  Esta, com certeza, teve sua origem primitiva na guerra.

Movimentação.  O adversário dominará pelos sentidos, pela percepção que pode deles extrair.  Convém confundi-lo, anestesiando-lhe os sentidos. A movimentação turva a visão, tornando imprevisível a futura ação.  Deverá ser arrítmica justamente para tornar-se imprevisível. Certamente há ritmo na arritmia deliberada.  Deverá obedecer os mandamentos básicos, nortear-se pelo equilíbrio, postura ereta e adequada colocação dos pés.  Deve ser evitado o recuo, onde a vulnerabilidade, pela inércia negativa, aumenta.

Esmagar.  Se o inimigo é fraco, é necessário abatê-lo rapidamente, esmagá-lo.  Do contrário permitimos o surgimento do processo contrário ao nosso interesse, onde o fraco, cumprindo seu destino dual, torna-se forte.  O fraco oprimido, que recobra as forças, é perigoso.

Mudar da montanha para o mar. Musashi, neste item, ensina que não se deve repetir a tática que anteriormente não deu certo com o mesmo inimigo.  É necessário inová-la, pois, possivelmente, repetir sua utilização resultará em novo fracasso.  O homem deve aprender com os erros. O homem inteligente aprende com os próprios erros, o ignorante não aprende jamais, e o sábio aprende com os erros alheios.

Ultrapassar o fundo.  Significa que nem sempre o adversário aparentemente vencido está espiritualmente batido.  Se ainda estiver espiritualmente vivo, será perigoso.  Mas ultrapassar o fundo transcende, filosoficamente, à estratégia militar, onde é inegavelmente útil.  Preocupar-se com o fundo é fundamental para o entendimento, seja ele qual for.  É incorreto deter-se na superficialidade, pois ela geralmente não traduz a realidade.  Ir a fundo é essencial à plenitude.

Renovar-se.  Não se deve temer recomeçar.  O erro inicial, normalmente, compromete todo o processo. É preciso ter em mente que somente a seqüência correta de passos permitirá a consecução do objetivo perseguido.  Se os passos forem manifestamente equivocados, deve-se abandonar o “caminho” e reiniciar outro.  É indispensável a serenidade para identificar os erros.

Cabeça de rato e pescoço de touro.  Ou seja, ser meticuloso (rato) e ousado (touro) ao mesmo tempo.  A percepção parcial é tão prejudicial quando a percepção equivocada, ambas levam ao mesmo fracasso.  É necessário preocupar-se com o pequeno e com o grande ao mesmo tempo, fazê-los trabalhar em conjunto, ter uma visão ampla, reconhecer todas as forças que atuam em cada situação.  Fechar os olhos a qualquer delas é desastroso.  Aqui está presente o princípio da fluidez mental.  Deter a mente em determinado ponto significa paralisá-la.   A mente fluída tudo percebe e com tudo interage, sem perda de tempo.  Deve estar sempre disponível.

O general conhece seus soldados. Musashi refere que o verdadeiro general é capaz de comandar os soldados dos adversários.  Obviamente é uma linguagem metafórica, uma forma de dizer o quanto já foi dito, sobre a capacidade de condicionar as ações do oponente.  Somente possível após muita prática.

Soltar o punho da espada.  Se a espada integra-se ao samurai, ele não a segura, nem ela a ele.  Ambos fazem parte do mesmo todo, assim como espírito e corpo agindo em conjunto.  A espada, pela habilidade do espadachim, toma vida própria, comporta-se além do desejo consciente de quem a segura.  Espada e samurai formam um ente diverso do que simplesmente o samurai ou simplesmente a espada.  São engrenagens de um sistema, que atuará com precisão quando acionado.  Largar a espada significa deixá-la ao sabor do imponderável, pois é impossível comandá-la conscientemente.  A consciência não é suficientemente hábil e rápida para conduzir à vitória.  O espadachim transcende a si mesmo no uso de sua espada, assim como o homem sábio em seu ofício.

Corpo de rocha.  A prática efetiva, profunda e continuada conduz à verdadeira fortaleza.

O vento.  No “capítulo do vento”, o nobre samurai dedica-se à crítica das outras escolas, ensinando que não se deve privilegiar o instrumento em detrimento do lutador.  Significaria uma inversão de valores.  Sua crítica, no entanto, é própria à época, e pouca relevância tem atualmente, senão por uma leitura também metafórica, com relação aos aspectos criticáveis da conduta humana, nem sempre controláveis, muitas vezes imperceptíveis para quem os pratica.

                                   Evidentemente, Musashi não estava ocupado em um ensaio filosófico, muito embora, freqüentemente, pontificasse máximas de verdadeira sabedoria.  Este texto, todavia, destina-se justamente, por assim dizer, a preencher esta lacuna (humildemente).

                                   Desde o início do “capítulo do vento” é possível perceber em Musashi a preocupação com a inversão de valores por tornar o que é “meio” em “fim”.  É compreensível esse sentimento no lutador que fez da arte de matar sua vida para, aos trinta anos, recolher-se a meditar sobre o passado, ante o uso comercial do Kenjutsu em tempos de paz, onde quem tinha melhor aspecto e aparência recolhida mais discípulos e, conseqüentemente, mais prestígio e poder.

                                   Musashi critica asperamente as escolas que fizeram da arte de lutar um simples meio de vida.  Talvez seja inevitável que isso aconteça em época de paz, mas é sempre necessário estar atento para evitar a superficialidade.

                                   Na arte marcial encontra-se um grande paradoxo que explica o enorme interesse que despertam.  Desenvolvidas primitivamente para matar, perderam este objeto primordial no meio civilizado, mantendo-o apenas simbolicamente, metaforicamente.

                                   Nos outros ofícios, o homem atinge sempre seu objetivo primordial.  Assim o carpinteiro, o moleiro, bem como nas profissões modernas, o médico, o advogado, o engenheiro, etc...

                                   O lutador jamais poderá fazê-lo, pois aprendeu a lutar exatamente para valorizar à paz e à vida.  Como está impedido (de matar), simula, e quando simula superficializa.  Nessa inflexão, perde a identidade, sente-se desorientado, e constantemente é chamado a refletir sobre a superficialidade.  Obriga-se, então, ao aprofundamento, e redescobre-se.

                                   Musashi critica a prevalência dos instrumentos (espada longa, curta, etc...) sobre a conduta espiritual.  Modernamente, penso, é possível dirigir a mesma crítica a proeminência da técnica (instrumento) sobre o ser.  A técnica em si mesmo desnatura-se, torna-se uma caricatura, pois atinge exclusivamente um fim contraditório: aparenta a eficiência que quer neutralizar!

                                   Isso passa nas competições modernas, e daí provavelmente a crise que elas atualmente enfrentam.  As regras foram criadas para evitar a eficiência, e a eficiência valorizada passou a ser a ineficiência.  Esvaziou-se filosoficamente o conceito de arte marcial, e o invólucro vazio desaba.

                                   Como tudo, a dualidade justifica os opostos, e nem por isso as competições são indesejáveis, pois celebrizam a prática, disseminam conceitos, mas estamos muito distantes do momento em que serão perfeitamente conciliáveis as duas formas de prática (esportiva e marcial).

                                   Conforme queixava-se Musashi, é preciso resgatar a essência, enterrada sob a aparência, desvendando a riqueza verdadeira que se encontra na exploração consciente desse primitivo sentimento humano consubstanciado no espírito da agressão.  Trabalhá-lo libera enorme força criadora.

A espada como instrumento.  A natureza instrumental da espada perpassa a história das artes marciais, e hoje podemos associá-la à técnica pura de outras artes, na sua maioria desenvolvidas com as “mãos vazias”.  Nesse ponto, o instinto de Musashi também não o trai.  Argutamente lembra que não é importante o comprimento da espada, mas o uso que se faz dela.  Portanto, a espada, tal como a arte, não tem um fim em si mesmo.  Destina-se a aprimorar o praticante, elevá-lo.

                                   É nesse sentido que o mestre samurai exorta o praticante a interiorizar sua técnica, afastando-se da “força bruta”.  Tem-se por “força bruta” o desforço primitivo, impensado, mal-elaborado.  A força deve passar pela purificação da técnica, e esta é a conquista do treinamento prolongado e praticado com sinceridade.  Não se pode triunfar senão pelo poder da inteligência.

                                   Logo o instrumento é de menor importância. O que importa é a polidez com que ele é brandido, revelando a essência de seu portador.  Miyamoto Musashi notabilizou-se em vencer adversários fortemente armados com simples bastões, e uma vez através de um remo.

                                   Musashi lembra que a eleição de determinado instrumento, aprioristicamente, revela inaceitável limitação.  Os defensores do uso exclusivo da espada longa, olvidam-se da situações em que o combate dá-se em espaços pequenos, e aqueles que usam espadas curtas limitam-se a aguardar a falta ou o erro do portador da espada longa.  Ambas as perspectivas são limitadas e devem ser recusadas.  É preciso ser adaptável, usar a razão para poder vencer, seja qual for o instrumento disponível ou indicado.

                                   Para as outras situações da vida vale o mesmo ensinamento, pois o lutador engessado é vítima da própria imobilidade.  Tão infinitas são as possibilidades, como infinito é o horizonte.  Somente a preparada e aguda inteligência poderá divisá-las adequadamente.

                                   O correto é ter a compreensão ampla da situação, e portar-se com equilíbrio, firmeza e retidão — física e de caráter.

                                   É incorreto deixar-se trair pela complexidade, e elevá-la ao ponto de ser dominado por ela.  O complexo há de ser simples e o simples necessariamente complexo.  Inútil criar técnicas de mera aparência, demasiadas e excessivas.  Importante é compreender a essência, tornando, pelo entendimento amplo, o que é complexo em simples.

                                   A simplicidade decorre do domínio que o praticante tem, animicamente, da situação que enfrenta.  Agindo assim deverá sair vencedor.  Se tiver a situação por complexa, jamais poderá dominá-la, decerto será dominado por ela.

                                   Portanto, desconfie dos ensinamentos ininteligíveis, que somente foram criados para enaltecer seu criador.

A visão crítica às outras escolas.  Embora já tenha mencionado no curso da obra detalhes sobre a técnica e estratégia, ao comparar seus mandamentos com os de outras escolas, o mestre samurai fornece outros conceitos valiosos, que merecem reflexão, fazendo verdadeira síntese do que já havia exposto.

                                   Lembra novamente que estar em guarda significa passividade, ou agir depois, razão pela qual nunca se deve “entrar em guarda” espiritualmente, deixando-se esse conceito apenas para meras posições do corpo que não refletem o estado de espírito.  A postura mental deve ser sempre de estar disposta a remover os obstáculos, por mais difíceis que possam parecer.

                                   Do mesmo modo deve se situar a visão, pois limitá-la à delimitação das figuras que têm forma e cor, significa aprisioná-la ao mundo da aparência.  É preciso ler o espírito, compreender as abstrações, somente assim chegar-se-á à vitória.

                                   O uso dos pés deve obedecer a maior proximidade do que deles se faz instintivamente, de modo a impedir a vacilação por contrariar a natureza.  Por isso movem-se em conjunto, obedecendo o deslocamento do corpo.

                                   O ritmo é da vida, portanto, não de pode contrariá-lo.  Desejar ser rápido é contrapor-se à lentidão.  Logo, o ritmo ficará descurado.  Não importa a rapidez se o ato é defeituoso.  Ele deve ser praticado em seu próprio ritmo.  Como assevera Musashi em sua ilustrativa alegoria, o expert, no desempenho de seu ofício, não é rápido, faz tudo a seu tempo.  A rapidez, a aceleração, levam à perda de ritmo, esta à precipitação, e, finalmente, à imperfeição.

                                   Assim na vida, assim na luta, a aptidão depende de que seja encontrado o ritmo, e vitória da manutenção deste.

                                   Finalmente, quando refere sua forma de ensino, o velho samurai recorda que exige de cada qual o que seu potencial pode oferecer.  O aprendizado deve ser gradual (os métodos modernos de ensino, aliados à psicologia, hoje, bem sabem disso, mas é surpreendente que um velho lutador tivesse bem claro tal fato no século dezessete), obedecendo a dificuldade de assimilação dos princípios.  A prática continuada dará conta do processo da aprendizagem.

                                   A profundidade do conhecimento, como tudo, é relativa ao grau de desenvolvimento do pupilo, sendo incorreto tornar secretos os conhecimentos ditos profundos.  Deles o aluno dará conta se os merecer, e merecerá se os procurar, e somente os procurará se estiver determinado a fazê-lo por sua fortaleza espiritual.  Deve-se ensinar com destemor, este o ofício do mestre-professor.

O Vácuo.  Se é verdadeiro que o Gorin no sho não tem o objetivo de ser uma suma filosófica, pois em sua maior parte atenta para questões práticas, de técnica, postura e estratégia, não é menos verdadeiro que a preocupação filosófica está sempre presente, aparecendo ao longo do texto, com maior ou menor fluência.

                                   O “capítulo do vácuo”, ao contrário dos demais, destina-se justamente à reflexão abstrata, ao linguajar simbólico, diverso dos dizeres, por vezes até cruentos, que caracterizam o restante do texto, e daí sua atualidade e provavelmente maior relevância; razão, inclusive, para ser colocado ao final do livro.

                                   O vácuo, vazio ou nada, tem inúmeras significações, mas a única que não se cogita é sua acepção literal, ou seja, de ausência de matéria.  Trata-se aqui de um estado de espírito próprio daqueles que atingiram a elevação.  Na vacuidade não há sobressaltos, inquietação, temor.  Reina a paz.

                                   Esse é o estado de espírito que todos almejam (muitos inconscientemente), pois independente do caminho que nos descobrimos trilhando, quanto ao fim último de nossos atos, buscamos o mesmo objetivo: estar em paz conosco.  Mas a paz verdadeira há de ser perene, e não pode ser confundida com a chamada paz momentânea, que conhecemos por alívio, prenúncio de tempestade.

                                   Muito difícil descrever com palavras — tão limitada forma de comunicação — a extensão do sentido do vácuo espiritual, mas é possível dizer que somente pode ser atingido pelo homem que conhece profundamente a si mesmo, e por isso aos seus demais.

                                   Este homem não se forja ao acaso, por descuido ou com indolência.  Ele é fruto do esforço em busca da perfeição, obstinadamente.

                                   É certo que a perfeição, conceitualmente, é inatingível, mas não é isso que importa, pois relevante é o propósito de alcançá-la.  Ela não deve ser representada, na vida, através da matéria, pois assim estaríamos substituindo o insubstituível.  O objeto da ação humana é sempre abstrato, pois mesmo quando desejamos a concretude material representada por determinado objeto, na verdade almejamos é o sentimento produzido pelo ato de possuir.

                                   Portanto, o espírito — essa entidade não necessariamente mística, mas exclusivamente abstrata — preside a vida, e se deve nutri-lo.  Pacificá-lo por meio do equilíbrio, harmonia, retidão e paz, significa atingir à plenitude, pairar no vácuo.


Posfácio.  A leitura do antigo texto de Musashi e deste ensaio não encerra completamente o entendimento do que realmente significam as artes marciais, pois é provável que o mestre-samurai, e alguns de seus contemporâneos, apenas tenham desencadeado um processo que somente amadureceria séculos depois.

                                   O processo referido é inevitável, pois tem semente na natureza humana.  A guerra ou o espírito guerreiro sempre buscou a paz.  Pode até parecer paradoxal, mas a reflexão séria conduz a essa conclusão.  Guerreiam aqueles que reagem à agressão, guerreiam também aqueles que, antecipando uma agressão, atacam.  Em ambos os casos, guerreia-se para a manutenção da paz.  Mas quanto àqueles que guerreiam pelo simples ato de guerrear, e do sentimento que disso experimentam, também querem a paz; a paz interior, apesar de efêmera, que doentiamente a guerra lhes traz.  É patológico, mas extremamente verdadeiro.

                                   Essa especulação resulta de livre interpretação, quase uma cogitação, como também livre é a exegese aqui pretendida ao escrito histórico, mas é muito razoável que as artes marciais japonesas (e de semelhante maneira as demais) tenham surgido justamente para contraporem-se ao milenar militarismo japonês, que moldou indelevelmente à cultura daquele país e tem influência até os nossos dias.

                                   É emblemático lembrar dos educados e refinados mestres de artes marciais, desde os mais célebres (Funakoshi, Jigoro Kano, Ueschiba, Nakayama, etc...) até os menos conhecidos, sempre pregando a utilidade educacional da arte marcial em nome da formação do caráter do praticante.

                                   Em contraposição, mas justificando o próprio movimento, estão alguns praticantes do ocidente (e também do oriente), truculentos e descerebrados, que associaram — e lamentavelmente ainda associam — as artes marciais à violência pura.

                                   Era provavelmente inevitável que as artes marciais, apesar de cuidadosamente sistematizadas por seus ideólogos, sofressem deturpação quando “ocidentalizadas”, considerando o enorme abismo que existia, e em grande parte ainda existe, entre as visões de mundo ocidental e oriental.

                                   Aliás, foi justamente em razão desse sentimento e dessa forma de percepção, que as artes marciais surgiram, com o propósito de humanizar à agressividade, e não simplesmente por sua singela negação ou supressão, mas através do exercício dela, em uma concepção que apenas a mente fluída pode permitir.  Os orientais, notadamente os japoneses, descobriram que se a sublimação é um poderoso instrumento de imposição cultural, geralmente é ineficaz quando utilizado para o tratamento das pulsões humanas.  Impossível controlar o instinto de agressão simplesmente sufocando-o.  Seria uma outra forma de agressão.  Melhor explorá-lo, recolhendo a energia que dele emana utilizando-a para propósitos nobres, tal como o homem trata a natureza.  Significa um processo de transformação.  Esse o fundamento filosófico das artes marciais.

                                   À época de Musashi, tal desiderato ainda não estava bem presente, mas já se manifestava claramente em sua preocupação com a sabedoria.  O processo que se inaugurava passou por um amadurecimento, e ainda hoje procura encontrar os verdadeiros valores, em busca que jamais cessará.

                                   Faltou a Miyamoto Musashi, evidentemente, humanizar seu pensamento e sua expressão literária, desenvolvendo o conceito mais profundo de arte, no sentido também estético e de valorização do ser humano como um todo, inclusive de sua sensualidade.

                                   Essa visão, evidentemente, não era possível naquela época, em um país oprimido por quase um milênio de militarismo misógino, que tendia à supressão das manifestações líricas e sensuais.

                                   Disso ocuparam-se os mestres posteriores a Musashi, que criaram um sistema de treinamento que também privilegiava a estética (notabilizada pelos katas e pelos movimentos harmoniosos), pois se a eficiência da prática outrora foi uma necessidade de sobrevivência, surgia então a necessidade de um alimento para a alma, através da depuração do conceito de arte, ambas convivendo em paz.

                                   Atualmente, tanto no ocidente como no oriente, começamos a compreender esse processo, de que as artes marciais cumprem seu papel na afirmação da civilização através da semeadura e cultivo dos verdadeiros valores humanos.  Esse o seu caminho (“Do”).

                                   Resta-nos, o quanto possível, afinarmo-nos com essa perspectiva, e nisso é fundamental a formação de professores que tenham a correta compreensão de sua função histórica: de abraçar seres humanos embrutecidos pelas forças primitivas, lapidando-os por uma correta atitude espiritual.  Por certo não será possível dar respostas a todas as interrogações que inquietam o ser humano (móvel principal de especulação de todos os sistemas filosóficos), mas inquestionavelmente será mais fácil conviver com essa inquietação.