Quem
é o guerreiro? Qual o seu caminho?
Alguns séculos nos separaram do samurai medieval, oprimido entre o cego
dever de obediência ao senhor e a morte certa.
Mas o Budō que inspirou aquela figura mítica ainda segue vivo entre nós
e nos desafia em decifrá-lo.
Talvez
um bom começo seja possível encontrar na etimologia da palavra, que deriva de
dois ideogramas. Um composto da raiz ‘bu’ (em japonês:武:ぶ), que
significa a guerra, ou as artes
marciais, e ‘do’ (em japonês: 道:どう), o caminho. A
influência do ZEN impõe a noção de caminho, mas ainda assim estamos muito
distantes de esclarecer o mistério, e certos, antecipadamente, de que ele
jamais será integralmente desvendado.
Parece
inequívoco que a expressão diz respeito aos praticantes de artes marciais ou
artes de luta guiadas pelo ZEN, e que delas fazem sua razão de viver,
inspirando modos de conduta, princípios éticos e demais valores que sustentam o
agir de cada um. O restante pertence ao
mundo das especulações que, ainda que filosóficas, andejam na difusa atmosfera
das abstrações.
Um
longo caminho percorrido separa aquele samurai prototípico dos séculos XIII a XVI,
estando às vésperas da própria morte e sob o peso de todos os anos de sua
formação, do praticante moderno que busca retirar do Budō todos os ingredientes
que poderão lhe servir para a vida.
Essa
peregrinação mental parte da natureza do treinamento a que deve estar submetido
o praticante, que exige imenso espírito de esforço, titânica determinação,
acentuada disciplina e tolerância para com o cansaço e a dor, isso tudo sem
contar o que talvez seja o principal, representado pelas emoções vividas e
sentidas pelo lutador ante seu oponente.
Esse
cenário inicial não recomenda a constatação de que o budoka trilhe um caminho
hedonista, mas antes ao contrário, tantas são as asperezas que deverão ser defrontadas
e vencidas ao longo do trajeto.
Embora
ideais estéticos estejam presentes nessa caminhada, derivados da beleza do
movimento relacionado com a sua eficiência e também certo prazer na sensação do
dever cumprido, do esforço despendido e do objetivo alcançado, não é possível
antever no caminho do guerreiro, e no seu fim e resultado, o prazer puro ou a
egocêntrica afirmação da identidade.
Ao
revés, do trajeto palmilhado pelo sofrimento, ainda que com realizações,
retira-se a sensação de que o pior foi evitado.
Parece aqui estar presente a chave para a compreensão do significado do
Budō, ou parte dele, na sua acepção moderna, intimamente enraizada em suas
origens.
Embora,
ocasionalmente, possa ter esta dimensão, o Budō, atualmente, não se destina a
formação de soldados aptos a desafiar a morte no campo de batalha.
O
praticante moderno pretende fazer desses ensinamentos e experiência algo que
possa tornar a vida mais tolerável.
Ninguém que veja a vida como um jardim verdejante, repleto de surpresas
prazerosas, escolheria caminho tão áspero e espinhoso. É da natureza daquele que se dedica às artes
marciais reconhecer na existência um desafio estupendo para o qual deve estar
preparado; preparado para o pior, antecipar-se à morte como faziam os velhos
samurais, mesmo que ela não passe de uma remota expectativa, como passa com os
jovens, que nem por isso deixam de se dedicar às artes da luta, e que, até pelo
contrário, nesse público encontra a maior parte de seu material humano.
Talvez
o mistério do Budō esteja justamente no mistério que ele tenta enfrentar: essa
evanescência que contamina todas as existências, a finitude de cada trajetória,
a consciência dela, a degenerescência a que estamos fatalmente condenados.
A
dramaticidade de tal constatação não poderia resultar no ser humano outra visão
senão a luta. As melhores metáforas são
aquelas que explicam a si mesmas. O
lutador não luta mais para retirar a vida e seu oponente, até porque, ao tempo
em que isso era necessário, estava em jogo a própria vida. A luta hoje é mais encarniçada e
demorada. O sofrimento não terá mais fim
em poucos minutos, quando o corpo do soldado – um ou outro – jazer sem vida no
campo de batalha. A luta é mais
inclemente e mira o adversário interior, na soma das forças em conflito e que
vicejam dentro de cada um.
O
desafio é mantê-las em atividade e equilibradas, enquanto que a consciência
desenvolvida pela mortificação do corpo dá conta de compreender aquilo de maior
significado: a absurdez da existência.
De
fato não faz qualquer sentido em que nasçamos para um dia morrer. Essa consciência é fonte de constante
tormento para qualquer ser humano, que somente encontrará lenitivo no intenso
exercício existencial. Viver, em si,
contrasta à morte, ainda mais se for a vida dirigida para desafiá-la.
O
budoka faz dessa prática o seu caminho.
Arrosta a morte com desassombro, desafia o medo que ela inspira,
antecipando o desfecho fatal e inevitável.
Busca a serenidade no fragor da batalha e compreende que tudo passa,
principalmente ele próprio. E aceita
que, após passar, jamais poderá retornar, e as marcas que aqui deixar, por mais
indeléveis que possam ser, um dia se apagarão.
Então
o pior foi evitado. Por mais efêmera que
ser a existência, é melhor dar-lhe um rumo, pô-la em um caminho, ainda que
temporário, bálsamo para o que sobrevive e se que distingue aqueles que se
deixaram passar.
Fernando Malheiros Filho
Professor
de Karate-dō
Nenhum comentário:
Postar um comentário