domingo, 3 de agosto de 2014

O caminho do Guerreiro (Budō)


                                                               Quem é o guerreiro? Qual o seu caminho?  Alguns séculos nos separaram do samurai medieval, oprimido entre o cego dever de obediência ao senhor e a morte certa.  Mas o Budō que inspirou aquela figura mítica ainda segue vivo entre nós e nos desafia em decifrá-lo.

                                                               Talvez um bom começo seja possível encontrar na etimologia da palavra, que deriva de dois ideogramas.  Um composto da raizbu’ (em japonês::), que significa a guerra, ou as artes marciais, e ‘do’ (em japonês: :どう), o caminho.  A influência do ZEN impõe a noção de caminho, mas ainda assim estamos muito distantes de esclarecer o mistério, e certos, antecipadamente, de que ele jamais será integralmente desvendado.

                                                               Parece inequívoco que a expressão diz respeito aos praticantes de artes marciais ou artes de luta guiadas pelo ZEN, e que delas fazem sua razão de viver, inspirando modos de conduta, princípios éticos e demais valores que sustentam o agir de cada um.  O restante pertence ao mundo das especulações que, ainda que filosóficas, andejam na difusa atmosfera das abstrações.

                                                               Um longo caminho percorrido separa aquele samurai prototípico dos séculos XIII a XVI, estando às vésperas da própria morte e sob o peso de todos os anos de sua formação, do praticante moderno que busca retirar do Budō todos os ingredientes que poderão lhe servir para a vida.

                                                               Essa peregrinação mental parte da natureza do treinamento a que deve estar submetido o praticante, que exige imenso espírito de esforço, titânica determinação, acentuada disciplina e tolerância para com o cansaço e a dor, isso tudo sem contar o que talvez seja o principal, representado pelas emoções vividas e sentidas pelo lutador ante seu oponente.

                                                               Esse cenário inicial não recomenda a constatação de que o budoka trilhe um caminho hedonista, mas antes ao contrário, tantas são as asperezas que deverão ser defrontadas e vencidas ao longo do trajeto.

                                                               Embora ideais estéticos estejam presentes nessa caminhada, derivados da beleza do movimento relacionado com a sua eficiência e também certo prazer na sensação do dever cumprido, do esforço despendido e do objetivo alcançado, não é possível antever no caminho do guerreiro, e no seu fim e resultado, o prazer puro ou a egocêntrica afirmação da identidade.

                                                               Ao revés, do trajeto palmilhado pelo sofrimento, ainda que com realizações, retira-se a sensação de que o pior foi evitado.  Parece aqui estar presente a chave para a compreensão do significado do Budō, ou parte dele, na sua acepção moderna, intimamente enraizada em suas origens.

                                                               Embora, ocasionalmente, possa ter esta dimensão, o Budō, atualmente, não se destina a formação de soldados aptos a desafiar a morte no campo de batalha.

                                                               O praticante moderno pretende fazer desses ensinamentos e experiência algo que possa tornar a vida mais tolerável.  Ninguém que veja a vida como um jardim verdejante, repleto de surpresas prazerosas, escolheria caminho tão áspero e espinhoso.  É da natureza daquele que se dedica às artes marciais reconhecer na existência um desafio estupendo para o qual deve estar preparado; preparado para o pior, antecipar-se à morte como faziam os velhos samurais, mesmo que ela não passe de uma remota expectativa, como passa com os jovens, que nem por isso deixam de se dedicar às artes da luta, e que, até pelo contrário, nesse público encontra a maior parte de seu material humano.

                                                               Talvez o mistério do Budō esteja justamente no mistério que ele tenta enfrentar: essa evanescência que contamina todas as existências, a finitude de cada trajetória, a consciência dela, a degenerescência a que estamos fatalmente condenados.

                                                               A dramaticidade de tal constatação não poderia resultar no ser humano outra visão senão a luta.  As melhores metáforas são aquelas que explicam a si mesmas.  O lutador não luta mais para retirar a vida e seu oponente, até porque, ao tempo em que isso era necessário, estava em jogo a própria vida.  A luta hoje é mais encarniçada e demorada.  O sofrimento não terá mais fim em poucos minutos, quando o corpo do soldado – um ou outro – jazer sem vida no campo de batalha.  A luta é mais inclemente e mira o adversário interior, na soma das forças em conflito e que vicejam dentro de cada um.

                                                               O desafio é mantê-las em atividade e equilibradas, enquanto que a consciência desenvolvida pela mortificação do corpo dá conta de compreender aquilo de maior significado: a absurdez da existência.

                                                               De fato não faz qualquer sentido em que nasçamos para um dia morrer.  Essa consciência é fonte de constante tormento para qualquer ser humano, que somente encontrará lenitivo no intenso exercício existencial.  Viver, em si, contrasta à morte, ainda mais se for a vida dirigida para desafiá-la.

                                                               O budoka faz dessa prática o seu caminho.  Arrosta a morte com desassombro, desafia o medo que ela inspira, antecipando o desfecho fatal e inevitável.  Busca a serenidade no fragor da batalha e compreende que tudo passa, principalmente ele próprio.  E aceita que, após passar, jamais poderá retornar, e as marcas que aqui deixar, por mais indeléveis que possam ser, um dia se apagarão.

                                                               Então o pior foi evitado.  Por mais efêmera que ser a existência, é melhor dar-lhe um rumo, pô-la em um caminho, ainda que temporário, bálsamo para o que sobrevive e se que distingue aqueles que se deixaram passar.


Fernando Malheiros Filho
Professor de Karate-dō


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