O
movimento se opõe à inércia, assim como a vida à morte. É muito provável que a origem da vida
encontre raízes justamente no movimento de partículas subatômicas, de átomos e
moléculas, otimizando as possibilidades de reunião de elementos químicos com a
formação dos aminoácidos e, finalmente, as formas mais primitivas de vida.
Ainda
que os objetos inanimados possam se movimentar, sua dinâmica sempre se dará em
razão de forças externas, enquanto que somente os seres vivos produzem
movimento autodeterminado. É na vida
inteligente que o movimento ganhará seu aspecto de arte, por vezes com um fim
em si mesmo, como passa com a arte em geral, que não se presta para qualquer
finalidade evolutiva senão o deleite de quem a observa.
O
budoca é o artista do movimento, mas sua ação física, ainda que motivada por
preocupações estéticas, tem por finalidade a eficiência máxima que o movimento
pode produzir, sintetizando fenômeno raro nas atividades humanas onde a
estética está a serviço da eficiência.
Podemos
distinguir dois objetivos claros na prática de artes marciais, pelo menos a
vista de propósitos honestos. De um
lado, de forma imediata, a produção de movimentos harmônicos, sinérgicos, onde
a beleza plástica é produto da eficiência e esta daquela. No plano mediato, como sabemos, a prática do
budo persegue a formação do caráter do praticante pela via do autoconhecimento,
mas esse tema destina-se a outras especulações.
O
desafio do praticante, no plano de seus exercícios diários, estará sempre
vinculado à pureza do movimento e todos os significados éticos e filosóficos
que essa depuração pode alcançar.
Trata-se
de uma luta eterna – enquanto perdurar a vida – pelo polimento, no exato ajuste
entre ideal estético e a eficiência do gesto.
Essa complexidade enriquece a prática, garantido a projeção de uma
utopia a ser perseguida e, como qualquer objetivo utópico, jamais alcançado.
O
espírito humano, nos seus extratos mais profundos, não se contenta com os fatos
da realidade superficial e ao alcance dos olhos. Luta constantemente para descobrir o que não
pode ser visto e, mais ainda, compreender o universo imaterial. Esse o imenso também desafio do budoca que se
produz na execução de movimentos.
O
resultado plástico associado ao objetivo atingido na execução de uma técnica
não se resume estes postulados, pois que a soma de ambos resulta em valor muito
superior àquele de cada um dos elementos individualmente considerado. O fenômeno é conhecido do praticante. Há uma consciência por trás da execução, a
certeza de que o ideal estético foi atingido porque o movimento é eficiente e
que a eficiência decorre da beleza do gesto.
Essa
ligação indissociável entre a beleza e o resultado técnico encerra o mistério
que o praticante persegue sem jamais compreender inteiramente, senão pelas
sensações e vivências que a prática produz (satori). E isso porque o gesto
nunca se resume exclusivamente à sua representação no espaço-tempo. Alcança outras dimensões imperceptíveis à
medição do olhar e aos demais instrumentos métricos.
Cada
movimento encerra uma abstração, para além do seu resultado prático e estético,
cuja compreensão exige do praticante esse constante cuidado na limpeza da ação,
removendo-lhe as impurezas, vestígios das demais imperfeições de cada ser
humano.
O
movimento, portanto, representa a própria saga da existência humana, na luta de
cada um de nós para superar as imperfeições, o caminho em direção ao zênite,
mas não para ser alcançado, pois o Olimpo somente pertence os Deuses. Como na vida, o movimento e sua dinâmica
refletem a existência e o esforço para aperfeiçoá-la no limite do que pode ser
alcançado.
Então,
a busca da pureza do movimento, para budoca, representa a chave responsável
pela abertura dos mistérios espirituais, assim compreendidos como dimensão
imaterial da existência humana. Benditos
aqueles que entendem essa equação e reconhecem que a prática nada mais é do que
o estágio necessário entre a simples condição de existir e a complexa missão de
compreender a existência.
Fernando Malheiros Filho
Professor de Karatê
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