domingo, 3 de agosto de 2014

A base (dachi)


                                                               O praticante experimentado sabe da importância da base no desenvolvimento de seus movimentos.  Ainda que não tenha consciência exata da relevância deste fundamento, por certo intui que deverá se manter firme sobre pernas, facilitando e otimizando sua movimentação, tornando o gesto mais agudo, pontual, com foco e evidentemente mais eficiente.

                                                               O que talvez não seja claro são as consequências pessoais e filosóficas desta grande metáfora, do que a base significa.  A base desde sua representação física até todas as demais derivações simbólicas.

                                                               Primeiro de tudo, no plano físico, pode-se dizer que a base representa o contato do praticante com o mundo.  É através do chão e da utilização das leis da física – especialmente a terceira Lei de Newton, conhecida como Lei da Ação e Reação – que tudo principia, produzindo-se a energia que, em um átimo, deverá se deslocar através das partes do corpo até ser descarregada com todo o seu conteúdo cinético no alvo, talvez no adversário se o treinamento assim o determinar. Também o contato com o mundo, além do oponente, o praticante o faz através do ar, com a respiração, mas esse aspecto deixo para outro ensaio. A base significa, em si, uma universalidade, ainda que se encontre interligada umbilicalmente com todo o demais.  Carrega a representatividade estrutural, assim como o caráter do ser humano distingue sua personalidade.

                                                               Já pela base será possível compreender a natureza do praticante, e isso porque seu desenvolvimento inspira e exige perseverança, algo que somente encontrar-se-á ente os bons e os fortes.  Exige também a compreensão aprofundada do funcionamento do corpo e da natureza humana.

                                                               A inteireza do fundamento não pode ser confundida com a força – a bruta.  Além do efeito plástico, a base haverá ser flexível, moldável, alterável, quase uma relação quântica entre o estado e o entorno.  Essa a compreensão que o praticante deverá desenvolver para obtê-la, que demandará, ao longo de sua existência e treinamento, algo mais transcendente do que a lógica binária da mera ação física (newtoniana).

                                                               Há, na base, o conceito de estrutura fundamental à obtenção dos fenômenos que ela permite.  Base é disponibilidade, acesso aos patamares impossíveis a quem não a dispõe desenvolvida.  Reflete-se no ambiente anímico, nas emoções e vivências, pois dela emanam as sensações produzíveis no ânimo do praticamente experiente, e que somente ele poderá valorar.

                                                               É a firmeza de caráter, de princípios e conduta que a base enseja e representa, e daí sua relevância como fundamento, muito depois da simples execução da técnica, mas a exploração do imenso universo que se descortina àquele que, postado sobre seu eixo, vê o mundo nessa peculiar perspectiva, e dele sabe seus azares e ganhos, não se movendo senão ante a imperiosa necessidade do movimento, mesmo que a mais terrível aflição possa sobrevir à alma calejada de quem nela firmou suas raízes, a base da identidade.


Fernando Malheiros Filho
Professor de Karate-dō


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