Ao leitor
já vou explicando: não estou escrevendo sobre sinônimos. A situação é um tanto mais complexa. Embora a mente derive da atividade cerebral,
em algum momento essas categorias se descolam e, em muitos sentidos, agem autonomamente,
senão de forma contrária uma da outra.
Mas como? É simples constatar que embora saibamos o que não deve ser
feito, muitos seguem fazendo, e em seu próprio e óbvio prejuízo. Assim todos os portadores de adições. Os alcoólatras – quase a unanimidade – sabem
dos grandes malefícios dos excessos cometidos, mas não podem evitá-los. Assim
os tabagistas, os dependentes de drogas, os obesos mórbidos, os obsessivos em
geral. Todos sabem, compreendem e podem
explicar os males decorrentes de seus comportamentos de risco, mas ainda que
portadores dessa consciência, não lhes é possível evitar a autodestruição. Porque?
A medicina
e em particular as neurociências esforçam-se em explicar o fenômeno e encontrar
soluções, medicamentos e tratamentos, mas engatinhamos nesse caminho e parece
que a melhor solução ainda é a filosófico-doutrinária, isto é, a formação de
valores que impeçam o comportamento autodestrutivo.
Na outra
ponta do fenômeno, está a circunstância que mais interessa ao praticante. Conhecer determinado movimento ou ação,
inclusive sabê-la explicar em pormenor, com palavras mais ou menos
sofisticadas, não significa necessariamente poder executá-la. O conhecimento, a construção intelectiva,
pertence ao mundo mental, enquanto que cabe ao cérebro ordenar e acionar o
movimento. Podemos desejar o suicídio (seppuku), mas muito poucos chegarão a
executá-lo, e assim também tarefas muito complexas que somente os cérebros
treinados chegarão a fazê-las.
A prática
do Budō – até onde poderemos explicá-la com palavras – reside justamente nessa
difusa e complexa relação entre a mente e o cérebro. Não basta ao praticante a ideação, a
concepção mental, a formulação filosófica e doutrinária. É necessária a ação respectiva, o gesto, o
movimento e nele a infinitamente intrincada missão existencial.
Para o
budoka o movimento não representa o acessório dispensável ou o gesto menor, mas
a própria essência de seu conhecimento.
O praticante conhece-se em movimento.
Descobre-se – e à realidade – na imensa dificuldade de fazer-se, em si
mesmo, o que existe em seu projeto mental.
E verifica que o mundo externo não está disponível à compreensão
daqueles que teimam em simplificá-lo. O
que parece simples, no gesto ou no movimento perfeito e equilibrado de um
mestre, é fruto de longa jornada de observação e treinamento, primeiramente do
cérebro.
Como já
vimos, no cérebro residem as escrituras das leis instintuais que nos governam e
ainda não conhecemos. A formação do
budoka é especialmente difícil, pois visa transformar o que faz milênios era “presa”,
em “predador”. É como nos deslocar da
base para o topo da cadeia alimentar, o que já fizemos no mundo externo, mas
ainda sobrevive no cérebro de cada um de nós.
É a luta contra a natureza. Ela
sempre e, ao final, vencerá – todos morreremos, mercê do irrefreável destino
biológico –, mas nos cabe o prazer de vencer algumas batalhas.
Por isso é
tão difícil executar movimentos que parecem singelos em outros animais e
insetos – todos predadores – nos quais nos espelhamos para lhes imitar o
gestual. Não fomos evolutivamente
desenvolvidos para esta finalidade. O Budō representa um desvio de finalidade
essencial, e aqui a sua riqueza e transcendência. Aspiramos mais do que a natureza nos legou,
de fazer muito com o pouco que temos; do fraco, um forte.
A mente
deve contemplar o cérebro e entender a dicotomia em que se acha inserida. No espírito do esforço a primeira e valiosa
lição do praticante. Todos sabem que sem
imensa determinação, pouco se poderá alcançar.
O cansaço e a dor tornar-se-ão companheiros frequentes, mas, como
sabemos, o cérebro deplora a dor e o cansaço.
Depois,
temos que compreender que o ímpeto e a determinação serão de pouca valia sem a
reflexão profunda na busca do foco (kime), objetivo distante da preocupação
cerebral nos seus extratos mais primitivos que somente se ocupa das satisfações
imediatas.
No corpo,
o budoka reflete sua condição mental, e, na agudeza do movimento que consegue
executar, terá a representação material da agudeza mental que o habita. Para isso deverá converter o cérebro, da
máquina evolutiva, em mecanismo a serviço da mente.
Longa será
a jornada, cujo fim todos conhecemos.
Milhares serão as repetições, milhões as frustrações, e bilhões as
frações infinitesimais de tempo utilizadas no caminho. E tudo em nome de alguns momentos de
iluminação, o satori que a tudo
justifica, o nirvanaque distingue o
budoka dos demais, o insight
construtivo que se agrega e incorpora ao conhecimento vivido.
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