A
extração do suco ou do sumo encerra bem a metáfora da essência. Retira-se o desnecessário e fica-se apenas
com aquilo que realmente importa, o extrato mais puro, o essencial, a parte da
qual não se pode dispor.
Essa
percepção, de matriz filosófica, influiu em todos os aspectos da vida e da
existência no quanto ambos os fenômenos se confundem. Seremos mais íntegros e teremos a identidade
mais definida, assim também a dignidade, quanto mais for possível deixar de
lado o que é desnecessário e perfunctório, dedicando a arte de existir àquilo
que realmente importa: a essência.
Não
é fácil perceber, mas os acessórios desnecessários sempre foram um sobrepeso
para a civilização e para o ser humano individualmente considerado, ainda mais
quando não dispomos da capacidade de perceber no acessório sua intrínseca
inutilidade, e quando este se sobrepõe ao principal.
É
simples perceber o fenômeno depois de ocorrido, mas dificílimo vê-lo por
antecipação, já que está relacionado com a escala de valores que nos habita, em
geral isenta de questionamentos e considerações prévios. Está lá por inércia e tende a ficar se não
for acicatada com a inquietude moral e filosófica que deve nos acompanhar desde
sempre, e não por outra razão, mas simplesmente porque é essencial.
Não
deve ser outra a posição do praticante com relação aos seus movimentos, também
representação simbólica dos demais atos da vida nesse entrelaçamento natural de
tudo que é humano.
Os
movimentos padecem da mesma desgraça que viceja nas sociedades humanas, na
política e na relação do homem consigo mesmo.
Tendem a produzir excessos desnecessários, desviando a energia que
deveria ser dedicada ao foco. Qualquer
leitor e praticante haverá de lembrar inúmeras hipóteses em que o movimento
deixou de produzir o resultado desejado derivando, muitas vezes, até em sua
antítese.
A
questão está em descobrir a essência, tarefa imensa, própria a quem tem no
horizonte os desafios do Budō.
Como
em tudo, o movimento tem seus excessos, as rebarbas que deverão ser aparadas. O
critério para descobri-las sempre será o efeito que sem elas dele se poderá
extrair. Há o movimento dentro do movimento,
e em sucessivas camadas de compreensão, cabendo ao praticante estudá-las e
entendê-las em sua transmissão cinética, algo que em outros setores da vida tem
igual significado. Não basta executar o movimento aprendido na forma do
aprendizado. Cada ser humano encerra seu
próprio universo, tão infinito quanto os demais, mesmo o cósmico que justamente
por essa razão leva esse nome.
É
necessário conhecer cada detalhe e exercitá-lo, mesmo o mais insignificante
desde que compatível com a essência. Todos
os fatos e os atos humanos nada mais são do que poderosas somas de
insignificâncias. Estará no caminho errado o praticante que desprezar as
insignificâncias, pois estará desdenhando seu próprio caminho. Nos mais recônditos detalhes esconde-se a
essência. Na posição dos pés no solo, na
trajetória das articulações, no acionamento dos músculos, na posição mental;
esta antes de tudo.
Na
perspectiva do resultado a essência mostra sua relevância. Salvo por obra do acaso – no qual jamais se
pode confiar –, a ação correta, exata, pontual, aguda, com “kime” em todas as
acepções do termo, sempre é precedida do árduo trabalho de quem a executa para
aperfeiçoá-la, polindo-a, removendo-lhe os excessos, as impurezas, deixando-a
apenas com o que é efetivamente essencial.
A
rebarba obstaculiza a essência, pois esta é frágil e vulnerável como todas as
verdades puras, que rapidamente podem ser contaminadas pelo desejo ególatra de
cada um de fazer prevalecer suas próprias verdades, que não passam de mentiras
racionalizadas. Esse apego ao essencial é o verdadeiro caminho do budō, que
deve ser trilhado com intransigência. A
dúvida sempre será o principal aliado do praticante, mas a dúvida de si mesmo,
capaz de imunizar a essência de suas demasias.
A certeza é a exceção e somente se pronuncia no átimo em que se realiza
o movimento exato e essencial.
Esse
o cuidado eterno do praticante com seus próprios movimentos, pois significam
não somente a representação externa de sua identidade, mas também o pudor com
que trabalha a essência, e, contrário sensu, o desleixo daquele que não se
preocupou com o que realmente importa, fazendo de seus gestos a bizarrice
constrangedora, cujo constrangimento o autor não percebe, senão os olhos
atentos, e em geral condescendentes, de quem está no caminho.
Na
trilha da essência poder-se-á encontrar a verdade, ou pelo menos será possível
divisá-la ao fim do caminho reto que o budō impõe. Haverá muitas formas de vê-lo e de
interpretá-lo, mas uma única forma de praticá-lo. Ao fim, sobreviverá apenas a
essência, seja no movimento que se produz em uma fração infinitesimal de tempo
para logo depois desaparecer, como também pode ser considera a existência de
cada indivíduo na perspectiva do tempo no Universo a que pertencemos.
Fernando Malheiros Filho
Professor de Karatê
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