domingo, 3 de agosto de 2014

Energia Espiritual (ki)

                                                        O conceito deriva de longa tradição cultural chinesa e japonesa.  O Ideograma corresponde à expressão em japonês () e encerra a ideia do vapor que se desprende no cozimento do arroz.  E o arroz, no Japão, representa muito mais do que um alimento complementar, sintetizando o conceito de alimento.  Daí a metáfora contida no ideograma sobre os vapores que emergem dos alimentos, todos os vapores e todos os alimentos, também aqueles que nutrem a alma.  Em latim spiritus pode significar sopro, algo como emanação, ou o produto imaterial da existência física.  Assim traduz-se “ki” para a locução “energia espiritual”.

                                                               Desde a antiguidade percebeu-se que os fenômenos não se esgotam no que pode ser visto, mas também no que pode ser sentido e em tudo mais que pode existir sem ser captado pelos limites estreitos da percepção humana em seus cinco sentidos físicos.

                                                               A energia espiritual, para além das abordagens exotéricas e religiosas, tem sua dimensão fenomenológica.  Para o budoka tem um sentido próprio, na interseção entre o abstrato e o concreto.  A ação física, material no plano nos músculos, ossos e articulações, deriva de um tão complexo como incognoscível conjunto de circunstâncias cuja resultante é o gesto, a aplicação aguda e pontual da técnica, que por isso mesmo exala múltiplos significados.

                                                               Imponderável a miríade de elementos que estão na gênese e na execução do gesto, mas é inquestionável que se trata da expressão acabada do ki, na sua acepção mais pura.  A simples elaboração técnica, ainda que possa ser concentrada por modelos teóricos – como de fato é –, não atinge senão a superfície do fenômeno, que exige a repetição exaustiva da ação, por vezes nas fronteiras da completa exaustão, de modo a torná-la tão íntima do praticante, como se sempre fosse sua, desde o nascimento.
                                                               Imaginemos o praticante que realmente se dedicou, que executou seu treinamento até o limite de suas forças, mas ao ser levado a executar e técnica falta-lhe convicção e sinceridade, a genuína expressão de sua identidade: falta-lhe o ki!  Todos sabem que malogrará em qualquer dos sentidos do malogro, desde a derrota pessoal e íntima,
até o revés frente o possível adversário, sempre lembrando que ser vencido por outrem não significa necessariamente derrota no plano interior.

                                                               Trata-se de mais do que ossos, músculos e disposição; muito mais.  Cogita-se de forças mais profundas e intuitivas, que se reúnem em busca de uma singularidade raramente alcançada.  O “ki” revela-se na capacidade de atrair todos esses fenômenos para um só momento, o alinhamento das forças físicas, da ação muscular, da posição dos ossos e das articulações, mas também da conduta psíquica a que damos o nome de dimensão espiritual.  Não há “ki” sem que os músculos da mente estejam em sintonia, assim como aqueles que equilibram o corpo, pois se trata da expressão mais profunda e íntegra da humanidade.

                                                               Há no “ki” a consciência profunda dos limites humanos, bem ao contrário da percepção de que tal energia é usada para expandi-los.  O ki é a consciência do todo e do tudo na justa aplicação desse conhecimento à vida e à morte.

                                                               O budō é justamente o exercício do ki, o domínio de algo que existe em cada corpo e em cada consciência, em cada cérebro e na sua dimensão abstrata que chamamos de mente, e que pode ser explorado na busca da verdade.  O ki é – se fosse possível sintetizá-lo –, a verdade que subjaz em cada um daqueles que desejar conhecê-la.

                                                               Praticar é produzir energia, torná-la aguda para depois vê-la ser dissipada pelo tempo, assim como se dissipam as existências embretadas entre o nascimento e a morte.  A energia é imaterial e inerente à fenomenologia da vida.

                                                               Todos os que praticam sabem e já vivenciaram: não se trata de uma demonstração exuberante energia, pois não fomos beneficiados pela evolução com força e armas naturais.  Vivemos administrando a escassez.  Ainda que possamos buscar a interpretação de fenômenos gigantescos da natureza, como os terremotos e erupções vulcânicas, sabemos ser credores escassas fontes de energia naturais, não nos restando alternativa senão otimizá-las, reuni-las sobre determinado ponto e fração de tempo, quando se manifesta, na sua melhor performance, a energia espiritual.

                                                               Dominar o Ki é ter consciência da fraqueza, a ser enfrentada com o alinhamento de forças físicas e psíquicas em nome de um resultado eticamente elevado.  É para poucos que o destino permite essa exaltação.  O caminho é duro, áspero demais para as almas fúteis.  Mas aquele que dominar sua energia espiritual saberá de si mesmo e a essência de sua existência neste mundo.  Disporá de pernas fortes para trilhar seu "caminho" com a certeza de sua dramática finitude, único remédio para preservar a dignidade.


Fernando Malheiros Filho
Professor de Karate-dō


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