O
conceito deriva de longa tradição cultural chinesa e japonesa. O Ideograma corresponde à expressão em
japonês (氣) e encerra a
ideia do vapor que se desprende no cozimento do arroz. E o arroz, no Japão, representa muito mais do
que um alimento complementar, sintetizando o conceito de alimento. Daí a metáfora contida no ideograma sobre os
vapores que emergem dos alimentos, todos os vapores e todos os alimentos,
também aqueles que nutrem a alma. Em
latim spiritus pode significar sopro,
algo como emanação, ou o produto imaterial da existência física. Assim traduz-se “ki” para a locução “energia
espiritual”.
Desde
a antiguidade percebeu-se que os fenômenos não se esgotam no que pode ser
visto, mas também no que pode ser sentido e em tudo mais que pode existir sem
ser captado pelos limites estreitos da percepção humana em seus cinco sentidos
físicos.
A
energia espiritual, para além das abordagens exotéricas e religiosas, tem sua
dimensão fenomenológica. Para o budoka
tem um sentido próprio, na interseção entre o abstrato e o concreto. A ação física, material no plano nos
músculos, ossos e articulações, deriva de um tão complexo como incognoscível
conjunto de circunstâncias cuja resultante é o gesto, a aplicação aguda e
pontual da técnica, que por isso mesmo exala múltiplos significados.
Imponderável
a miríade de elementos que estão na gênese e na execução do gesto, mas é
inquestionável que se trata da expressão acabada do ki, na sua acepção mais
pura. A simples elaboração técnica,
ainda que possa ser concentrada por modelos teóricos – como de fato é –, não
atinge senão a superfície do fenômeno, que exige a repetição exaustiva da ação,
por vezes nas fronteiras da completa exaustão, de modo a torná-la tão íntima do
praticante, como se sempre fosse sua, desde o nascimento.
Imaginemos
o praticante que realmente se dedicou, que executou seu treinamento até o
limite de suas forças, mas ao ser levado a executar e técnica falta-lhe
convicção e sinceridade, a genuína expressão de sua identidade: falta-lhe o
ki! Todos sabem que malogrará em
qualquer dos sentidos do malogro, desde a derrota pessoal e íntima,
até o revés frente o possível
adversário, sempre lembrando que ser vencido por outrem não significa
necessariamente derrota no plano interior.
Trata-se
de mais do que ossos, músculos e disposição; muito mais. Cogita-se de forças mais profundas e
intuitivas, que se reúnem em busca de uma singularidade raramente
alcançada. O “ki” revela-se na
capacidade de atrair todos esses fenômenos para um só momento, o alinhamento
das forças físicas, da ação muscular, da posição dos ossos e das articulações,
mas também da conduta psíquica a que damos o nome de dimensão espiritual. Não há “ki” sem que os músculos da mente
estejam em sintonia, assim como aqueles que equilibram o corpo, pois se trata
da expressão mais profunda e íntegra da humanidade.
Há
no “ki” a consciência profunda dos limites humanos, bem ao contrário da
percepção de que tal energia é usada para expandi-los. O ki é a consciência do todo e do tudo na
justa aplicação desse conhecimento à vida e à morte.
O
budō é justamente o exercício do ki, o domínio de algo
que existe em cada corpo e em cada consciência, em cada cérebro e na sua
dimensão abstrata que chamamos de mente, e que pode ser explorado na busca da
verdade. O ki é – se fosse possível
sintetizá-lo –, a verdade que subjaz em cada um daqueles que desejar
conhecê-la.
Praticar
é produzir energia, torná-la aguda para depois vê-la ser dissipada pelo tempo,
assim como se dissipam as existências embretadas entre o nascimento e a
morte. A energia é imaterial e inerente
à fenomenologia da vida.
Todos
os que praticam sabem e já vivenciaram: não se trata de uma demonstração
exuberante energia, pois não fomos beneficiados pela evolução com força e armas
naturais. Vivemos administrando a
escassez. Ainda que possamos buscar a
interpretação de fenômenos gigantescos da natureza, como os terremotos e
erupções vulcânicas, sabemos ser credores escassas fontes de energia naturais,
não nos restando alternativa senão otimizá-las, reuni-las sobre determinado
ponto e fração de tempo, quando se manifesta, na sua melhor performance, a
energia espiritual.
Dominar
o Ki é ter consciência da fraqueza, a ser enfrentada com o alinhamento de
forças físicas e psíquicas em nome de um resultado eticamente elevado. É para poucos que o destino permite essa
exaltação. O caminho é duro, áspero
demais para as almas fúteis. Mas aquele
que dominar sua energia espiritual saberá de si mesmo e a essência de sua
existência neste mundo. Disporá de
pernas fortes para trilhar seu "caminho" com a certeza de sua
dramática finitude, único remédio para preservar a dignidade.
Fernando Malheiros Filho
Professor
de Karate-dō
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