Essa breve
exposição destina-se aos iniciados, não parecendo acessível àqueles que não
desenvolvem a prática, indispensável ao seu entendimento. A prática diária é fundamental e
insubstituível, significando esse esforço teórico mero auxiliar no
desenvolvimento dos movimentos e técnicas do Karate-Do.
O
texto e as observações que serão a seguir desenvolvidas, com a linguagem
engajada do praticante, não se destina a determinado estilo de Karate, mas
fruto de observação, ao longo de quarenta anos, da execução de movimentos de
toda a natureza, bloqueios e golpes com pés e mãos, com vista a eficiência
máxima a partir do material humano disponível.
A
própria eficiência significa um valor filosófico a ser alcançado, pois não se
esgota no conceito estrito da técnica aplicada ao movimento, mas no sentido
mais amplo de busca da verdade.
Decidi
utilizar a expressão “teorias” para não incorrer na pretensão de ter
desenvolvidos princípios, quando estes se cristalizam quando já testados e
aceitos universalmente, mas posso afirmar que em minha experiência cotidiana
essas teorias há muito já se elevaram à condição de princípios cuja obediência
é imperativo da eficiência e todas as consequências práticas e abstratas da
plenitude de seu exercício.
Finalmente,
no texto a seguir, não estarão descritas técnicas para execução de movimentos,
mas “princípios” que devem ser observados em seu estudo e desenvolvimento;
equipamento racional para o domínio da técnica que somente se dá, como bem sabe
o praticante, por sua profunda interiorização, momento em que deve ter a técnica
encontrado o seu lugar nesse caminho da introjeção aliada aos princípios que
lhe dão sustento.
Teoria da
unicidade do movimento
A
prática do Karate-Do não se destina a tornar forte o que já é forte, mas dar
força ao fraco tornando-o forte, e em todos os sentidos da expressão, começando
pela eficiência na arte de lutar e desenvolver movimentos precisos.
Para
que tal ocorra o praticante deve ser levado a compreender que qualquer movimento, absolutamente todos, envolvem o
corpo inteiro. Executamos os movimentos
a partir de apoio, e são apenas dois os contatos que temos com o mundo externo:
o chão (raramente também as paredes) e o ar.
Com o chão ou o assoalho entramos em contato com os pés e será sempre
necessário, no uso da 3ª Lei de Newton (ação e reação) transmitir o empuxo que
conseguimos a partir desse contato. O
mesmo com a respiração.
O
princípio significa que entre o movimento desejado, bloqueio, golpes com os
braços ou pernas, e ação do restante do corpo não poderá haver um hiato (pelo
menos daqueles perceptíveis a olho nu), mas instantaneidade, unicidade. Essa é a regra, por exemplo, na aplicação do
oi-zuki. O corpo não pode chegar antes
da mão que golpeia e esta depois da pressão a ser exercida sobre o chão, ao
mesmo tempo em que se dá a ação interna da respiração. O braço em relação ao corpo, no átimo em que
se desenvolve o movimento, deve obedecer ação correspectiva de modo a percorrer
a distância necessária no mesmo tempo e no mesmo instante em que os demais
elementos do corpo o fazem.
Teoria do alinhamento das
articulações
É
necessário estudar com vagar e atenção o sistema articular e ósseo do corpo
humano. O movimento somente produzirá o
efeito desejado (máxima eficiência), se a energia cinética foi transmitida por
movimentos articulares desimpedidos. A
articulação mal posicionada importará necessariamente em decomposição vetorial
do movimento. Vale dizer: de pouco
significa dar instantaneidade às ações corporais para aumentar o efeito
cinético, se a energia respectiva (cinética) não foi transmitida ao
máximo. A articulação mal alinhada
servirá de obstáculo à transmissão cinética ou de desvio de seu efeito,
anulando todo o esforço para a produção energética.
Essa
constatação é especialmente dramática quando ocorre o impacto, aliás, objetivo
dos movimentos, seja defensiva como ofensivamente. No momento do impacto as articulações devem
estar posicionadas de tal forma que não o suportem, tocando a responsabilidade
aos músculos atuantes no movimento para absorção do impacto. Por exemplo, o esticamento completo na
execução da técnica de tzuki, no momento do impacto, levará ao afrouxamento dos
músculos que sustentam o braço e assim a transferência da energia despertada
para as articulações, quando tal responsabilidade é o músculo.
As
articulações diferem essencialmente dos músculos, e não somente por suas
funções, mas também estruturalmente. São
estruturas rígidas e que produzem movimento em sentidos limitados. Não têm as
propriedades plásticas dos músculos que podem facilmente absorver o impacto e,
mais do que isso, produzir, por sua plasticidade, ainda mais energia no sentido
desejado.
Por
isso o alinhamento das articulações ganha importância fundamental, devendo o
praticante estudá-las com afinco e determinação, observando as especificidades
de cada uma delas no contexto de sua aplicação, tanto para a defesa como para
golpear.
Teoria do arremesso
Como
todas as teorias e princípios aqui desenvolvidos, parte de uma posição
mental. Toda ação humana é
necessariamente antes um pensamento.
Este pensamento moldará a ação e será responsável pelos seus efeitos,
bons ou ruins.
É
necessário condicionar a ação física pela força do pensamento, produzindo na
musculatura o acertamento de sua posição que permitirá ser “arremessada” pela
técnica respectiva. Em outras palavras, a energia cinética (movimento)
produzida pelo contato com o chão (deslocamento, vibração, rotação e
deslocamento) deve ser transmitida ao membro arremessado sem obstáculos ou
retenções musculares.
Os
músculos do braço e da perna arremessados devem ser condicionados ao arremesso
de modo a evitar posições e contraturas que possam contê-los.
Trata-se,
portanto, de uma posição mental a condicionar o corpo que deve “entender sua
função”. O entendimento defeituoso pela
musculatura de sua função resultará em contenção, neutralização do movimento
desejado.
O
arremesso deve ser livre de contenções ou obstáculos. A atitude mental deverá prevenir os
empecilhos, impedindo que se produzam, pela consciência exata da função
muscular.
O
relaxamento muscular é fundamental para o processo, pois as contraturas são o
grande impedimento ao arremesso e devem ser combatidas pela posição mental a
ser desenvolvida.
Ocorre
que o ato de golpear ou defender resulta em movimentos bruscos que envolvem
reações instintivas contrárias ao procedimento técnico. É necessário “desligar” a reação instintual e
ligar o conceito técnico. A tensão
muscular impede e desacelera o arremesso, que deve ser executado, o quanto
possível, sem obstáculos.
Teoria do ponto futuro. Foco (kime)
Não
representa qualquer novidade, mesmo para o praticante sem grande experiência, a
noção de kime (foco). Mas parece que o
tema sempre é tratado sem as necessárias bases conceituais que impregnarão a
mente e serão responsáveis pela execução eficiente do movimento. É necessário
conciliar a noção de kime, com as teorias antes desenvolvidas. Dir-se-á mais: somente é possível produzir
foco ou kime através do desenvolvimento aprofundado dessas bases teóricas.
É
claro que, ao golpear ou defender, o praticante deve ter em mira o local exato
onde deseja despejar a energia cinética que desenvolveu através do movimento,
mas sem que esse movimento seja uníssono, com alinhamento das articulações e
uso exato da musculatura (arremesso), na execução final o kime não se
produzirá.
A
consciência do kime eleva-se como um conceito de alta grandeza e
complexidade. Essa complexidade deve ser
constantemente enfrentada, evitando-se o pensamento mágico pelo qual poderá se
produzir aleatoriamente.
O
objetivo da soma das teorias é justamente a produção do kime que, mesmo
maltratando o conceito, pode ser definido como “o momento infinitesimal em que
todas as ações mecânicas produzem o resultado máximo”. O foco não é uma noção
isolada, pois tem importantíssimas repercussões em todas as áreas da atividade
humana. É relevante considerar que
exercitá-lo na prática do karate-do significa concebê-lo no plano mental como
um valor disponível para qualquer situação da vida.
Na
elaboração do conceito de ponto futuro entra, pela primeira vez neste modesto
ensaio, a noção de distância (maai).
Deixamos de compreender as técnicas exclusivamente em si mesmas para
fazê-las interagir com o outro, algo fundamental à natureza humana.
O
foco é dinâmico, dependendo da posição constantemente alterada do alvo. É quase quântico para quem tem algum domínio
da expressão. Significa que as teorias
todas se enfeixam e sua aplicação tem em mira um alvo instável. Abandonam o plano das definições puras e
respectivos exercícios, para se projetar no turbilhão existencial, ou seja, das
múltiplas relações, causas e consequências que significam a vida, e assim
também o ato de lutar.
Por
isso a relevância desse conceito plástico.
Encontrar o foco em um momento separado dos demais, um átimo que pode
ser isolado, representa grande erro, enorme equívoco. O kime se dá na porção infinitesimal do
tempo, relacionado com o antes e o depois.
Filosoficamente é como o presente, que não passa de um minúsculo átimo
que separa o passado do futuro.
O
kime envolve todos esses elementos; a execução exata e limpa do movimento, a transferência
da energia, e o imediato retorno ao curso dos fatos. Não pode ser hipnótico ou alienante, é parte
do todo onde o fenômeno atinge seu grau máximo, para logo depois refluir. E a maximização está relacionada com o acerto
teórico e prático de sua construção.
Teoria do corte
É
uma decorrência da teoria do foco, mas aplicada ao sistema de bloqueios. Há um foco no ato de bloquear, mas que pela
sua natureza ocorre em distância curtíssima, através de movimentação
diferenciada daquela utilizada para golpear.
Ainda
que seja possível, em algumas hipóteses, executar golpes com a execução de
movimentos de um lado para o outro do corpo (algumas modalidades de shuto,
uraken, ...), a regra para o ato de golpear caminha no sentido de que até o
ponto futuro os membros (braços e pernas) não se cruzam.
É
natural ao ser humano a dualidade física.
Há, na nossa perspectiva, um universo dual. O número dois impregna a
existência. Não é à toa que no corpo
quase tudo funciona em duplicidade (dois braços, duas pernas, pulmões, rins,
intestinos, testículos ou ovários, ...).
Mesmo órgãos unitários dividem-se em dois, como coração e cérebro.
No
bloqueio, como no ato de golpear, a ação do membro “passivo” reveste-se de suma
importância, pois é nele que o “ativo” encontrará equilíbrio para a execução do
movimento, compondo nossa dualidade essencial.
Ao bloquear, na ação de movimentar os braços de um lado para o outro do
corpo, os braços se encontram, no ponto de corte.
Mas
não se trata de um encontro físico, de choque que inutilizaria o bloqueio, mas
encontro de trajetórias, na curta distância, o que não passa, por exemplo, na
aplicação do choku-zuki em que as trajetórias somente se encontrarão, talvez,
no infinito.
É
justamente no ponto de corte o “momento” da expressão máxima do bloqueio,
devendo o praticante trabalhar para que seja ali o contato físico com o ataque
que pretende inibir.
Teoria das
cordas (Tanden)
Finalmente,
a teoria das cordas, que tenta emular a ação mental de compreensão dos
movimentos físicos em relação ao corpo e ao centro de gravidade (Tanden).
A
dualidade corporal já referida é responsável pelo equilíbrio. Fomos assim desenvolvidos pela evolução e
devemos aproveitar as vantagens minimizando as desvantagens.
Há
muito no oriente descobriu-se intuitivamente o centro de gravidade. A descoberta foi confirmada por estudos
científicos recentes. O centro de
gravidade é essencial à compreensão e execução dos movimentos. Sem o domínio do conceito qualquer movimento
corporal será inútil, perigoso ou pelo menos muito ineficiente.
Por
vezes é necessário à compreensão figuras de linguagem ou imaginárias que possam
educar o cérebro (ele precisa ser educado como qualquer outra estrutura física)
a executar movimentos.
Tal
é a relevância do centro de gravidade que é possível a criação de cordas
imaginárias que o ligam com as demais partes do corpo de modo que qualquer
movimento corporal tenha origem no centro de gravidade que irradiará a ação.
Trata-se
de um exercício mental com consequências na ação física, impedindo-se o
enquistamento dos movimentos, ou seja, o isolamento, cabendo ao centro de
gravidade a ligadura, pelas cordas imaginárias, entre
todas as porções do corpo com a natural maximização dos efeitos.
Fernando Malheiros Filho
Professor de Karatê
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