Uma certa penumbra, um nuvem gris, um viés preconceituoso normalmente acompanha todo o praticante de artes marciais. Afinal de contas qual a vantagem, qual o sentido em se envolver com um prática aparentemente violenta, que teve seu nascedouro na ancestral pulsão humana de exterminar o próximo? Seria razoável e civilizado extrair da principal chaga da história da humanidade (a Guerra) algo realmente positivo?
Não
é sem razão que estas perguntas sejam feitas a propósito da prática marcial,
pois nossa cultura, que carrega em si uma forma cartesiana de pensar, não pode
ver senão a superfície, enquanto que o substrato inferior, as profundezas dos
impulsos humanos somente mesmo uma sonda guiada pelo radar da intuição poderá
perscrutar.
A
lógica cartesiana ou mesmo a aristotélica que informa nossa forma de pensar,
realmente, não oferece qualquer solução para o enigma. Se a guerra é má, e conduz necessariamente à
morte, sua prática, a arte que dela emerge, haverá de ser também deletéria,
eivada de maldade, danosa!
Mas
o ser humano, sua existência, sentimentos, expectativas e necessidades, desafia
outras formas de pensar além da lógica formal, normalmente binária,
rasteiramente dualista, e por isso mesmo terrivelmente superficial. Precisamos de um instrumento mais poderoso,
profundo e completo, capaz de permitir o entendimento mais amplo do significado
filosófico da vida, partindo do absurdo original que ela encerra, pois sempre e
inexoravelmente conduz à morte.
A
vida não pode ser entendida sem a morte.
Tudo o que fazemos dimana de nossa intrínseca mortalidade. Trabalhar, estudar, praticar o sexo, e todas
as outras atividades humanas destinam-se, em primeiríssimo plano, a evitar a
morte, logo depois, melhorar a qualidade de vida, e finalmente, a perpetuar a
espécie.
Fôssemos
imortais, a vida significaria uma eterna condenação à monotonia, pois qualquer
das atividades que na condição de mortais desenvolvemos perderia por completo o
sentido, e evidentemente, ante a ausência das pulsões primordiais oriundas da
necessidade de preservação e perpetuação da vida, tudo que hoje realizamos com
prazer tornar-se-ia tarefa, por desnecessária, profundamente enfadonha, perdida
em sua inocuidade.
Se
a vida pressupõe morte, e nessa equação absurda (no sentido de falta de lógica)
consumimos nossas existências, é mais fácil explicar o fascínio que a arte da
guerra, e por ela as artes marciais, exerce sobre o ser humano, pois, nessa
complexa abstração, a arte da guerra é a arte da vida.
Evidentemente,
nem tudo é absurdo, mas há o absurdo primordial. As artes marciais surgiram, especialmente
aquelas conhecidamente influenciadas pelo zen, não para estimular a matança, mas
para “humanizar” o atavismo da violência, após séculos de guerras ininterruptas
no solo nipônico, através da disciplina e fundamentalmente do autoconhecimento
(a primeira conduz ao segundo), este a mais velha e ainda distante aspiração da
humanidade.
Lutar, nesse contexto, adquire uma
função nobre, francamente educativa, em que cada praticante, pela repetição
exaustiva dos movimentos, em sua química interior, produz uma amálgama única,
um “insight”, o satori, encontrando a
chave do mistério, que permite a abertura dos magníficos portais que guardam o
conhecimento que somente a intuição pode alcançar.
O
caminho, no entanto, como tudo que é produto da humanidade, não é tranqüilo,
posto que repleto de armadilhas, freqüentemente intransponíveis, como a jactância
do forte, que não consegue ver a fraqueza por detrás de sua fortaleza, e
perde-se em um átimo, ignorando a própria degenerescência, onde somente a
sabedoria sobrevive.
A
arte da guerra, portanto, é o principal instrumento de que dispomos para evitá-la,
e não só as guerras externas, cruentas e saguinárias, mas também os renhidos
embates internos, guerras metafóricas, mas não menos dolorosas.
Trilhar
verdadeiramente o caminho (Do) do combate significa conviver com ele
potencialmente, evitando-o na realidade, como a vacina, que nada mais é do que
o próprio agente da doença mitigado. Se
a velha parêmia latina já expressava “si
vis pacem, para bellum” (se desejas a paz, prepara-te para guerra), sua
versão reescrita pela pena brilhante de Sigmund Freud é ainda mais aguda: “Si vis vitam, para mortem” (Se queres
a vida, prepara-te para a morte).
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