Introdução. Gorin
No Sho, obra de Miyamoto Musashi, notabilizou-se no mundo todo em um
período de domínio comercial do Japão e de expansão das artes marciais. Tido como livro sobre estratégia, em verdade
a reflexão escrita de Musashi vai muito além, e fica também aquém. Escrita no ocaso da vida do famoso e
intrépido samurai, o livro dos cinco elementos (cinco anéis ou cinco reinos,
conforme as várias traduções), que trata de postura e técnicas do kenjutsu (esgrima japonesa), de
estratégia e de filosofia, tem seu fio condutor na propagação da escola que o
samurai fundara, a Niten-Ichi, ou
escola das duas espadas.
Apesar
da grande notoriedade, que ensejou traduções para inúmeros idiomas — nem todas
fiéis ao original, principalmente tendo-se em conta as limitações dos
tradutores, em sua maioria não familiarizados com a história e cultura
japonesas, e especialmente com artes marciais —, o livro parece ao leitor
desavisado um tanto ininteligível, de leitura difícil, sem estrutura seqüencial.
É
verdade que Musashi dedicou-se a escrever a obra após mais de três décadas de
reflexão, quando já se encontrava idoso e doente, não o permitindo a vida que
fizesse os últimos reparos no original, pois que apanhado pela morte em meio da
elaboração intelectual.
Não
é menos verdadeiro, entretanto, que o velho samurai tinha plena consciência da
enorme dificuldade que significava traduzir em palavras o pensamento
detalhadamente desenvolvido após quase três decênios de meditação, estes antecedidos
de outras duas décadas de prática intensa e vitoriosos combates.
Por
essa razão, pressentindo, provavelmente, as dificuldades em que se veriam os
futuros leitores, após cada trecho, o nobre samurai exorta o praticante para
que se dedique a meditar sobre o que leu e a praticar com intensidade as
técnicas de postura, luta e estratégia que foram professadas. Somente assim seria possível a perfeita
ligação entre o texto, a prática e o praticante.
A
dificuldade ainda fica maior pela grande distância de contextos, quando o
praticante de artes marciais do século vinte depara-se com o pensamento de um
samurai do século dezessete, e quando este refere-se a combates entre
exércitos, onde o desforço físico e pessoal, homem a homem, era a realidade vigente.
A
experiência de Musashi, notadamente em seu contexto histórico, é imprescindível
ao moderno praticante de artes marcais, pois talvez ele tenha sido o precursor
dos sistemas que hoje conhecemos, e que ainda se ressentem de uma formulação
filosófica adequada e madura.
Musashi
era um ronin, ou um samurai
desempregado pelo um período de paz.
Viveu nos primórdios da era Tokugawa
que, a partir do ano de 1.603, garantiu cerca de duzentos anos de
pacificação ao país nipônico, por séculos marcado pelos combates militares na
luta pelo poder.
A
arte da guerra tem sua gênese justamente na guerra, e é razoável que tenha
resultado grandemente incrementada em um país marcado em sua história pelos
conflitos armados, mas não é menos verdadeiro que as artes marciais surgiram,
foram desenvolvidas e sistematizadas, em razão da necessidade da paz, da
constatação da absurdez que a guerra significa, de modo a controlar, pelo
exercício, esse atavismo humano — e por decorrência também os demais — que se
encerra em sua agressividade.
De
quebra, as artes marciais descobriram um poderoso instrumento de descoberta do
homem a si mesmo, e daí, fundamentalmente, o grande interesse que despertam no
mundo inteiro, na fase de globalização mundial, inaugurada após a 2ª Grande
Guerra, pela intersecção das culturas e dos povos, bem como pelo
desenvolvimento dos meios de comunicação.
Nesse
contexto, as artes marciais ganharam uma dimensão que não existia no mundo de
Musashi, mas ao mesmo tempo, em razão de uma intransponível contradição que
somente enriquece a prática, distanciamo-nos dos combates reais, de vida ou
morte, onde Musashi foi mestre sem jamais ter perdido uma peleja.
Essa
questão é filosoficamente relevante: as artes marciais, que foram criadas e
sistematizadas para melhorar seus praticantes como homens e cidadãos,
destinam-se a, pela prática, atingir as profundezas do autoconhecimento e,
desse modo, o conhecimento dos demais.
Entretanto,
não é possível perder de vista que essa prática — por dessas insondáveis
contradições da natureza humana —, iniciou-se justamente no campo de batalha,
onde a vida e a morte coexistiam como fatos normais, onde matar era uma
atividade como as demais.
Nesse
sentido, a riqueza da experiência de Musashi ganha dimensão que não pode ser
repetida nem prescindida. Matar para
ele, e em seu mundo, era legítima e respeitada profissão. Hoje, felizmente, é o crime mais repudiado
pelos sistemas jurídicos modernos.
Por
isso, sem querer reproduzir a experiência de Musashi na busca da morte do
oponente, que filosoficamente as artes marciais modernas procuram reprimir, o
artista marcial tem no texto do velho samurai um instrumento poderoso, pois
significa a utilização da arte em seu paroxismo, em sua expressão mais
dramática, e a lições que de tal prática podem resultar.
A
densidade e alguma falta de sistematização do texto podem não permitir a exata
compreensão do que foi escrito, seja porque o leitor moderno sente-se muito
distante do contexto histórico em que foi escrito, seja porque há reconhecida
precariedade do ajuntamento das palavras, considerando que o autor não foi
bafejado pela vida até que a obra atingisse o pleno amadurecimento.
O
presente opúsculo é um mero exercício intelectual de um artista marcial que se
viu em grandes dificuldades para a primeira leitura do vetusto texto, quando
ainda jovem e comandado pelos impulsos, mas que mais maduro e calejado, passado
mais de um decênio, voltou à leitura da obra — é certo que através de uma
primorosa tradução para o português, presenteada por um sincero amigo —,
ocasião em que novas perspectivas abriram-se fortalecidas pela visão que
somente os olhos cansados podem atingir.
A
experiência não é propriamente de uma exegese da obra de Miyamoto Musashi —
demasiada pretensão para quem não dispõe de todo o conhecimento necessário para
tal —, mas uma tentativa de retirar do texto original os ensinamentos que ainda
são relevantes para o budoka atual,
procurando interpretá-los e, de certa forma, escandi-los para permitir uma melhor
compreensão.
Em
sua sistematização, Miyamoto Musashi, dividiu o livro em cinco capítulos, que
lhe dão o título, ou seja, a terra,
a água, o fogo, o vento e o vácuo.
A cada um deles deu sua ênfase como ele mesmo explica, mas os mesmos
assuntos, por vezes perpassam todos os capítulos.
Respeitando
a sistematização do autor-samurai — em que pese, desse modo, tenhamos a
contingência de tratar o mesmo assunto em mais de uma parte —, segue-se a ordem
da divisão capitular original, utilizando-se o sistema de glosas, sem, no
entanto, reproduzir o texto original, senão em mínimas partes para melhorar a
compreensão.
Indispensável,
portanto, a quem realmente queira desenvolver o entendimento global e do livro
de Musashi, que leia a obra propriamente dita, da qual este escrito representa
apenas mera interpretação, singelo estudo, livre reflexão ou versão para a
linguagem atual.
O
capítulo da “Terra”, conforme o próprio Autor explicita, destina-se a esboçar,
em linhas gerais, a escola “Ichi”,
que ele então professava. No capítulo da “Água” a ênfase é ao espírito humano,
moldável às situações, como é a água ao seu recipiente. No capítulo do “Fogo” o notável samurai trata
da guerra, enquanto que no capítulo “vento” das demais escolas de kenjutsu, chegando, finalmente, ao
capítulo do “Vácuo”, talvez a síntese filosófica e espiritual de todos os
demais.
Em
que pese mantida a sistemática original, o objetivo deste ensaio é simplesmente
buscar uma interpretação contemporânea, razão pela qual, alguns do dizeres de
Musashi são destacados e devidamente explorados, sem contudo descer a todos os
aspectos da obra, alguns desinteressantes ao homem moderno.
Finalmente,
é também preciso referir que me moveu a preocupação literária, isto é, de fazer
um texto mais agradável para a leitura, sem contudo prescindir da linguagem
interrogativa, permitindo ao leitor sua própria especulação quanto aos temas
tratados.
A
metáfora do carpinteiro. Não é sem
razão que, após algumas palavras introdutórias, Miyamoto Musashi comece a
elaborar seu texto buscando analogias com outras atividades, demonstrando a
parecença entre a arte da guerra e os demais ofícios. Hoje talvez um discurso dessa natureza pareça
completamente desarrazoado, embora as guerras continuem um fenômeno freqüente
na humanidade. Todavia, no Japão
medieval anterior ao período Tokugawa, a guerra era cotidiana, e por séculos
foi assim, tornando o samurai, ou o profissional da luta, sob o ponto de vista
moral, um trabalhador como outro qualquer, em que pese o poder que poderia
abasorver pelo manejo profissional das armas.
Nisso
a metáfora do carpinteiro fica mais ajustada quando olhada em seu tempo, e não
perde qualquer atualidade no ponto de vista filosófico.
Mais
ainda, ao tempo de Musashi, o carpinteiro deveria ter importância fundamental,
visto que a ele pertencia a faculdade de construir moradias da época,
predominantemente feitas em madeira.
Por
isso, o lutador e o carpinteiro, ainda que pareça paradoxal, aproximam-se na
dedicação ao seu ofício, e o samurai-escritor, atento ao que acontecia a sua
volta, descobre que o segredo da estratégia era fazer do lutador um conhecedor
tão profundo de seus misteres, quanto é o carpinteiro em seu ofício.
A
diferença, é claro, fica no risco de vida a que o soldado em atividade de
guerra está constantemente submetido, mas aqui o enclave filosófico
fundamental: conviver com a morte é essencial ao ser humano que pretenda alguma
plenitude na vida. Se a negarmos, ela
nos perseguirá constantemente como um fantasma inquietante, não necessariamente
representada por ameaças externas, mas simbolizada pelo próprio envelhecimento,
sempre inexorável.
O
paralelismo com o carpinteiro ganha ainda maior amplitude quando, além da
mecânica do ofício, onde o profissional aprofunda-se em si mesmo pela prática
repetitiva que domina com cada vez maior maestria — e conseqüentemente ganha
sabedoria —, também adquire elevada postura espiritural, pela segurança que o
conhecimento alicerçado permite.
O
conhecimento não é uma vantagem isolada, conhecer algo profundamente, de uma
certa forma, significa conhecer um pouco de tudo, pela inter-relação cósmica,
nem sempre perceptível, que as coisas, os seres e os fenômenos têm entre si.
A
matriz, portanto, do pensamento externado por Musashi está provavelmente no
alcançar às profundezas da alma humana que o domínio extremado do ofício
permite, quando o especialista, por dominar completamente sua especialidade,
transcende-a. É a constatação definitiva
de que não seria possível manter conhecimentos isolados, pois constantemente
estaríamos impelidos a correlacioná-los.
O
procedimento metódico ganha relevância nesse contexto, pois somente a prática
exaustiva “purifica” e aprofunda, onde o homem descobre-se pela revisão dos
valores. O praticante domina cada item de sua área, cada aspecto, cada
instrumento, amplamente, profundamente, como se fosse um universo particular a
ser dominado, cujo domínio permite conhecer, por analogia, as demais
universalidades e intuir sobre as leis que regem o comportamento do universo,
seja material, seja anímico.
No
ápice do processo de aperfeiçoamento, o artista (marcial) atinge sua plenitude,
e passa a praticar os atos de seu ofício, e assim também os demais atos de sua
vida, de uma maneira tão natural que parecem brotar da essência de seu ser, e
não de um complexo processo de aprendizagem que passou por metódico, duro e
demorado treinamento. Os atos do
“carpinteiro” parecem ter vida própria, representam algo que se instaura no
íntimo do obreiro, que confere transcendência à sua obra e significam a
representação de um sentimento intraduzível em palavras.
A
arte militar, ou a arte da luta, então, surge apenas como um meio, um
instrumento capaz de levar o homem à elevação.
Elevação espiritual seria a denominação mais adequada, mas como a
palavra espírito e suas demais flexões encontram-se desgastadas pelas várias
correntes místicas que a utilizam como bandeira, melhor deixar esse sentimento
para o terreno do indefinível, pelo menos de maneira semântica.
O
ritmo. A preocupação do velho samurai com o detalhes está sempre presente.
Refere expressamente a intimidade que o artífice deve ter com cada instrumento,
conhecendo-os com toda a profundidade permitindo verdadeira interação entre o
instrumento, o corpo e a mente.
Evidentemente, os instrumentos não se esgotam naqueles em que se pode
tocar, por isso materiais. Há métodos,
técnicas, sistemas, que têm apenas existência intelectual, mas nem por isso
perdem sua natureza instrumental. O
artista, mormente o artista marcial, tem compromisso com sua técnica, pois é
através dela que se depurará, tornar-se-á melhor e, no caso específico do
lutador — o antigo guerreiro —, chegará ao paradoxo de pela arte da guerra
atingir à paz, externa e interna.
Dos
vários pormenores que envolvem a prática, suma importância tem a noção de
ritmo, pois por nela esconde-se a eficiência e, mais profundamente, o êxito,
seja nos objetivos mediatos como imediatos.
É
deveras larga a possibilidade que o homem tem de enganar-se a si próprio e, por
vezes, impensadamente acelera os ciclos da vida, tornando-a arrítmica. Todos sabemos as conseqüências deletérias
dessas circunstâncias, que ocasionalmente levam até à morte.
A
técnica imita à vida, e nisso seu grande tesouro. Quem domina a técnica passa também a dominar
as circunstâncias da vida. Isso é
fundamental na estratégia, seja ela para vencer inimigos, seja para vencer os
obstáculos que todos enfrentamos no curso da existência, e o maior deles: o
temor da morte. Viver sem enfrentar essa
verdade, é viver às escondidas.
O
ritmo é próprio de cada um, e a cada qual cabe descobri-lo. Trata-se daquele momento onde os elementos
essenciais se harmonizam. A harmonia é o
objetivo do ritmo, e há harmonia plena em golpear. Há harmonia definitiva na morte.
Sem
ritmo não vivemos com plenitude, tornando-nos reféns da morte. Só teme morrer quem não atingiu a
plenitude. É equivocado lutar contra o
inevitável.
Na
vida e na arte devemos buscar o ritmo, o movimento certo no momento adequado e,
mais profundamente, a infinitude de movimentos certos, no exato momento.
É
preciso não perder de vista que todo o ato humano é antecipado por uma
complicada reação química, até hoje cientificamente incompreensível,
responsável pelo pensamento; e este aciona um outro e igualmente complexo
mecanismo biofísico consubstanciado no sistema motor. Toda essa equação deve estar ajustada, mente,
corpo, “espírito”. Isso, ainda que
explicado de forma imperfeita, é ritmo.
Nas
artes marciais o ritmo assume características próprias e encontra campo fértil
para exploração física, psicológica e até metafísica. Incorretamente confunde-se ritmo com
velocidade. Mistura-se conceitos
inconciliáveis. Velocidade é uma medida,
um instrumento de aferição que somente pode ser utilizada através do exercício
de comparação. Somente sabemos se algum
movimento ou algo é veloz através da comparação com seu semelhante mais
próximo.
A
velocidade, no entanto, em si, nada significa, pode ser extremadamente
negativa, provocar graves e fatais acidentes, deslocando o movimento de seu
objetivo. Ser veloz, portanto, nada
significa.
O
que importa é o ritmo de cada um, isto é, a capacidade individual, pessoal, por
longo tempo desenvolvida, de fazer praticar cada ato a seu tempo, em perfeita
harmonia com os demais e com a ordem universal.. A estratégia e o ritmo confundem-se.
A
velocidade, ou ser veloz, está associado com angústia, ansiedade, ou seja, com
uma alma arrítmica. O desejo de
velocidade não está presente somente nos movimentos, no deslocamento de corpos,
mas também nos processos, sejam da vida, sejam institucionais. Quando os aceleramos, tirando-os do ritmo,
não raro temos que começá-los novamente, desde o primeiro ato, ou os tornamo
tão demorados como se houvessem vários recomeços.
Os
ritmos, internos e externos, podem ser percebidos pelo espectador atento e
treinado, permitindo-lhe grande vantagem estratégica, mesmo na ausência de
inimigos concretos, quando se quer simplesmente vencer os obstáculos da
vida. É possível antever a ascensão e o
colapso, de modo a não se deixar impressionar com a vitória e não se abater o
descenso, tornando menor neste último, o natural sofrimento que os períodos
negativos acarretam. Ascensão e colapso
nada mais são do que a vibração de um ritmo.
Na
luta o mesmo acontece, o lutador consciente pode discernir seu momento de maior
fraqueza de modo a dele proteger-se, bem como captar os sinais do colapso do
oponente para, no tempo certo, atacá-lo e tornar a vitória definitiva. Essa percepção envolve técnica requintada
somente possível às mentes eleitas pela iluminação, após árduo treinamento.
Musashi
lembra que assim como na luta, no comércio há a ascensão e o descenso, o ritmo
seria o fator predominante para enriquecer e empobrecer.
Ritmo
há em tudo, em todos os movimentos do lutador, mas está palpável, perceptível,
aflorado na respiração. A função
fisiológica de respirar — grosso modo — é de fornecer oxigênio ao corpo. Mas a respiração transcende em muito a essa
primitiva função. É também instrumento
de comunicação e nela afinamos o ritmo.
Sem ela, como sem ritmo, resta-nos a morte.
Morte
é ruptura; ruptura do ritmo, assim como necessitamos romper o ritmo do
adversário para vencê-lo. Não basta ânimo
e desprendimento para enfrentar, é preciso conhecer: todos os ritmos.
O
estudo dos ritmos permite-nos formular regras gerais do movimento e do
comportamento, e com elas jamais poderemos transigir, senão quando convencidos
de que devem ser modificadas por equivocadas.
Essas normas, uma vez perenizadas transformam-se em mandamentos,
princípios. Afastar-se deles significa
perder o ritmo, pois que passaremos a desconhecê-lo. É preciso treinar arduamente, dedicar-se com
afinco. A prática negligente acaba por
traduzir-se na sensação de vazio espiritual (e não filosófico), de quem não
percebeu o ritmo. A prática torna-se
desarrazoada.
Praticar
com afinco não significa ultrapassar os limites — e cada qual tem seus próprios
—, mas buscar a correta compreensão do sentido da prática. Deve-se realizá-la com descortino e com os
olhos postos no objetivo último que é a autocompreensão. Compreendendo a si, compreenderás teu próximo,
mesmo que ele seja o inimigo.
A
linguagem militar, que sempre defronta o leitor com o inimigo, nos tempos
atuais deve ser lida em vista da paz buscada — nem sempre conseguida. Paz social, paz entre nações, mas sobretudo
paz interior.
Na
visão cósmica do universo onde tudo e todos correlacionam-se, não é estranho
que o método da guerra seja o mesmo método da paz; que a estratégia guerreira
seja a mesma na luta pelo conhecimento próprio em busca da paz interior. Afinal paz e guerra situam-se em locais
opostos de uma dualidade, onde um conceito não existe sem o outro. Sabe-se que a paz é a ausência de guerra e
vice-versa. O importante é identificar
em quais guerras deveremos combater. A
noção de triunfo, perscrutada por Musashi, fica relativizada: triunfar é
existir com plenitude.
A
atitude espiritual. Também de
grande importância é a atitude espiritual na guerra ou na luta, que deve
traduzir o mesmo sentimento que experimentaríamos em uma situação quotidiana da
vida normal. O sobressalto, os
sentimentos cíclicos e erráticos são claro sintoma da perda de ritmo. O ritmo e a serena atitude espiritual
adquire-se através da prática. Mas não
basta a prática intensa e deslocada do foro primordial, pois ela deve levar à
maturidade filosófica onde o praticante pode com tranqüilidade divisar os
verdadeiros valores.
A
prática, nesse sentido, é enriquecedora, pois em grande medida as valorações
equivocadas provém da incorreta percepção do próprio corpo. Nele, apesar de sua finitude e mutabilidade,
carregamos um relevantíssimo material; o verdadeiro instrumental da prática
espiritual. É preciso conhecê-lo
profundamente, explorando seus limites, para atingir o conhecimento. Não há efetiva prática mental sem prática
física, e a prática física despida de reflexão não passa de uso inútil da
energia.
A
atitude espiritual do lutador deve originar-se na paz interior, mantendo a
serenidade íntima. Se não conseguir
fazê-lo falta-lhe prática. Os
sentimentos menores, como rancor e ódio traduzem a falta de ritmo, e situam-se
em incorreta atitude espiritual.
Manifestar sentimentos assim para com o antagonista na luta significa
sinalizar-lhe o colapso. Se adversário
for experimentado, saberá aproveitar a oportunidade pela manifestação de
fraqueza.
Os
sentimentos devem estar sob controle do praticante, na perspectiva de que a prática
destina-se justamente a separar o sentimentos menores dos elevados. Difícil descrever com exatidão esse processo,
mas este é o caminho do lutador em busca da verdade última, que jamais poderá
ser percebida pelos sentidos, mas pela faculdade fundamental de todo o ser
humano, produto da soma da razão com a emoção.
Se
o espírito domina o corpo, e este é mero coadjuvante, somente este poderá
relaxar, até porque a sucessão de relaxamento e contração insere-se no que
temos por ritmo. O espírito, no entanto,
não pode fraquejar, devendo manter-se atento e vigilante, buscando
constantemente entender o que se passa ao derredor do corpo que habita.
Há
unicidade entre espírito e corpo, pois ambos fazem parte do mesmo indivíduo,
mas se não for possível separá-los, o praticante esmorecerá, pois os ciclos do
corpo são diferentes dos do espírito.
Este jamais deve envelhecer. É
com sua jovialidade que enfrentaremos o envelhecimento do corpo.
A
distinção entre corpo e espírito permite a busca do equilíbrio entre
ambos. Tanto mais forte deverá ser o
espírito quanto mais fraco estiver o corpo, sem nunca perder de vista que a
fortaleza espiritual é, mais do que tudo, a exata compreensão os sistemas,
permitindo a eleição da melhor estratégia.
A
atenção, portanto, deve estar no espírito, pois no corpo sem espírito inexiste
vida, e sem vida não há porque lutar. Se
corpo e espírito pertencem a uma dualidade inextrincável, Musashi adverte que
aqueles de corpo pequeno devem ocuparem-se da coisas grandes do espírito, e os
de corpo grande com as coisas pequenas.
Trata-se da percepção íntima de que, em algum nível, o corpo molda o
espírito. Temos que lutar sempre para
sanar às imperfeições, do corpo e do espírito.
A
retidão é da essência da atitude espiritual correta, pois o comportamento
esquivo, fraudulento, enganoso na verdade não passa de mero reflexo do espírito
doente. A doença, nesse caso, certamente
atingirá o corpo.
Essa
retidão conduz à sabedoria, permitindo-nos trilhar com êxito qualquer caminho
que o destino apontar, ou, sob o ponto de vista existencialista, aqueles pelo
qual decidirmos. Será possível
desempenhar com maestria não só a arte da luta, mas as demais atividades, todas
com gênese no mesmo espírito humano que se procura descobrir.
Dessa
forma, poderemos evitar que sejamos induzidos ao engano. Ninguém poderá enganar ao espírito atento,
garantindo-nos também isenção ao pior dos enganos: o auto-engano.
A
postura do corpo. A noção de ritmo e harmoniza-se com a atitude
espiritual, e ambas conduzem ao equilíbrio.
As palavras são sempre imperfeitas e seu significado normalmente fica
aquém do que se quer dizer. Ritmo,
atitude espiritual e equilíbrio podem parecer, em certo sentido, o mesmo
conceito, e efetivamente são em múltiplos aspectos, especialmente nas áreas em
que apresentam intersecções.
Todavia,
o entendimento de equilíbrio deve estar mais voltado para o corpo, pois a
atitude equilibrada deste poderá permitir o movimento correto. Corpo desequilibrado significa movimento
incorreto, e certamente ineficiente, imprestável para sua verdadeira
finalidade.
A
postura do bípede, característica do homos
sapiens, confere-lhe uma peculiar forma de equilíbrio que somente é
possível quando a coluna vertebral situa-se na posição vertical. É preciso manter essa posição do corpo e,
mais do que isso, fortalecê-la, durante o movimento.
As
projeções (do corpo) devem sempre ter presente que no deslocamento do corpo o
equilíbrio depende da posição ereta (não é sem razão que, no estágio anterior
do desenvolvimento humano, ao espécime da época deu-se o nome de homo erectus), ganhando relevância o
posicionamento dos pés, pernas e quadris, que se devem postar com firmeza,
“agarrando” o chão.
Olhar
e perceber. A todo o ser humano hígido ou
sadio foi dada a faculdade de olhar, mas nem todos que olham conseguem
perceber. O ato de divisar imagens é
deveras primitivo, e para ele estão aptos a maior parte dos seres vivos que
habitam este planeta. A percepção nos
animais prende-se à necessidade de sobrevivência, sem ela o perecimento é
iminente. No ser humano, a percepção é
mais elevada e requintada, estando ligada, em todos os níveis, às eleições que
o perceptivo irá realizar. Se correta a
percepção, atingir-se-á a ventura; se incorreta, o caos, ou a antítese de ritmo
e harmonia.
A
fraqueza da visão sem percepção, é a fraqueza do corpo sem espírito. Assim como a carne dá forma aos ossos e o
espírito é a essência do homem, a visão sem percepção é um sentido inútil.
A
visão perceptiva igualmente requer exercício e preparação da mente. É através dela que poderemos identificar o
colapso, esteja onde estiver, dentro ou fora, no inimigo real ou virtual.
A
percepção é a visão com sabedoria, dotada de técnicas de interpretação dos
fatos e da realidade, que não deixam passar o que importa, embora aparentando
insignificância.
Se
a visão é de fundamental importância nos momentos críticos, é indispensável
que, diante deles a mesma já se encontre devidamente exercitada e desenvolvida,
o que somente será possível se praticada no cotidiano, procurando-se descobrir
a riqueza que toda a banalidade encobre.
A
posição das mãos. Se quanto
aos pés, como se verá mais adiante, a movimentação, e principalmente seu modo,
guardam enorme relevância, com pertinência às mãos — instrumento mais refinado
e de maior sensibilidade — o movimento é ainda mais vital. Como adverte Musashi a imobilidade das mãos
representa a “mão da morte”, e a mobilidade a “mão da vida”. Por detrás desse conceito dual está a correta
percepção de que a imobilidade, a inércia, adormece o espírito, neutraliza o
ritmo, conduz à morte. Se no universo a
entropia é a origem da vida, a ausência de movimento é o fenecimento.
O
movimento dos pés. Não é
possível compreender o movimento dos pés senão para relacioná-los com o
equilíbrio do corpo. É óbvio que os pés,
ordinariamente o único contado do bípede com o chão, são os responsáveis
primordiais de qualquer mobilidade corporal.
Mas não é do movimento em si de que necessita o lutador. Para este importa o movimento equilibrado,
efetivo, eficaz, eficiente, ritmado, a partir do qual possa produzir uma ação
capaz de atingir os objetivos perseguidos.
Interessa ao combatente, pelo movimento, por sua cinética,
multiplicar-se em efetividade, razão última de toda a técnica.
Musashi,
também com inefável acerto, lembra que o movimento correto dos pés é o “Yin-Yang”, ou que respeita à dualidade
cósmica; que reconhece as forças antagônicas para convertê-las em um só
movimento.
Ciente
dessa realidade, Musashi assevera que o movimento de um dos pés sempre deve
guardar estreita relação com o seu igual e, ao mesmo tempo, antípoda
(direta/esquerda). Se o direito move-se,
igualmente deve mover-se o esquerdo, e o inverso também. Se é verdadeiro que, ordinariamente ambos os
pés haverão de moverem-se na mesma direção, o correto é que essa não é a regra,
pois o movimento dos pés devem sempre buscar o equilíbrio do corpo, encontrando
a melhor posição para o equilíbrio do “tanden”,
“hara” ou centro de gravidade,
situado em um ponto clássico do baixo ventre.
Um
os pés, assim, jamais deverá movimentar-se de forma isolada, devendo sempre
corresponder no outro o movimento próprio e adequado na busca do equilíbrio
gravitacional e espiritual. Aqui, mais
do que nunca, o sábio samurai tem razão: é necessário examinar tudo o que foi
dito, refletir e praticar.
A
“guarda sem guarda”: Apesar de
velho e doente quando dedicou-se a escrever sua obra única e fundamental, o
velho samurai intuía as verdades filosóficas que elaborava, embora tenha
destinado o texto exclusivamente a professar sua escola “niten-ichi”.
A
tese da “guarda sem guarda” é transcendente, e ultrapassa em muito a arte pura
de lutar, com mãos armadas ou vazias.
Significa dizer que a guarda, em si, encerra a indesejável inércia, a
espera suicida à iniciativa do adversário.
Indispensável antecipá-lo, antevê-lo, dominar suas ações.
Assim
tanto na luta como na vida — que nada mais é do que uma forma, ainda que
metafórica, de luta —, especialmente em uma época onde o desenvolvimento
científico revela a importância das precauções e da prevenção. Prevenir é antecipar; prevenção e absoluta
inércia são inconciliáveis.
Daí
segue-se que a guarda no sentido da resignada espera ao ataque do adversário
significa uma errônea atitude espiritual.
Se o corpo pode aguardar o ataque inimigo, procurando a melhor posição
para contragolpear, a mente não pode ficar resignada, mas ativa, sempre voltada
para a vitória. A “guarda sem guarda” (ukô-mukô) significa dissociar o corpo da
mente, fazendo aquele aparentar o inverso do que passa nesta.
O
golpe a um só tempo. Não fora o
fato de que a demora em abater o inimigo sempre poderá permitir-lhe a
recuperação, há a verdade filosófica que de se deve buscar a eficiência máxima,
e de que vivemos várias vidas dentro da vida existencial. O golpe é uma vida.
Pouco
importa o que os fatos aparentam revelar, pois relevante é a verdade
espiritual. Não há uma verdade única;
cada um carrega sua própria verdade. A
verdade é uma vivência individual.
Assim,
a posição mental adequada é de que o inimigo será abatido com um só golpe. Do contrário estaremos antecipadamente
admitindo que o golpe será fraco; e se assim o imaginarmos, assim ele o será. É preciso nunca esquecer a importância do
pensamento sempre anterior a todos os atos humanos.
Táticas
para golpear. Não é relevante que,
eventualmente, seja necessário mais de um movimento para abater o adversário, o
que importa é que cada movimento seja soberano, impregnado de consciência e
convicção quanto ao seu objetivo.
É
possível fintar, enganar, concentrar forças para contragolpear, usar uma
seqüência, esquivar, enfim, utilizar de todas as formas que a imaginação
permitir.
Todavia,
o uso deve ser antecedido da prática prolongada detida e estudada, pois o
movimento inseguro, sem toda a carga de volição — ou espiritual —, está
antecipadamente fadado ao fracasso.
Golpear
e bater. Nova e importante dualidade propõe-nos Musashi, tal como propôs ao
separar o ato de ver do de perceber. O
espírito estreito é sempre prejudicial ao seu portador. Aquele que apenas bate pensando estar
golpeando, somente desperta o adversário para extensão de sua fraqueza.
É
possível usar na estratégia o ato de bater, mas apenas quando antecedente do
verdadeiro golpear para definitivamente abater o adversário.
Bater
significa atingir, mas não necessariamente com o potencial ofensivo capaz de
vencer o antagonista.
Golpear,
por seu turno, reveste-se de caráter definitivo, é absoluto desde a origem ao
fim último: vencer inapelavelmente. Essa
a correta posição mental ao golpear.
Aqui
talvez a insuperável dificuldade que jamais permitirá a completa adequação das
artes marciais ao mundo desportivo. No
desporto, por definição, não se deve golpear, mas apenas bater.
No
entanto, na vida, onde não mais está presente a necessidade de matar como
prática habitual de sobrevivência, a distinção é fundamental em relação aos
demais atos humanos. Golpear, nesse
âmbito, significa agir com absoluta convicção, lealdade e preparação, com a
firme intenção de atingir o objetivo.
Bater é o agir indolente, despreparado, insosso, para ao depois
desenvolver múltiplas e inaceitáveis explicações para o fracasso. Aquele que bate simplesmente, em nível
profundo, sabe golpear, mas apenas no ato de explicar, a si mesmo e aos demais,
suas razões para não sabê-lo. Nisso age
com plena convicção, em sua apologia ao malogro.
Corpo
de Shûkô. Inúmeras são as táticas de
movimentação professadas por Musashi, todas elas relacionadas com o Kenjutsu, em área onde, por não conhecer
com a devida profundidade, sinto-me desconfortável para discorrer. Todavia, quando trata do “Corpo de Shûtô”, o
autor-estrategista revela novamente a essência da movimentação. Nela sempre devemos ter em vista
predominantemente o movimento do corpo, e não dos membros. Estes são meros acessórios, canais para a
transmissão da energia corporal em direção ao adversário. Os membros, em si, são fracos e vulneráveis,
e somente ganham grandeza como emissários do corpo. Daí a necessidade da técnica correta, com a
qual jamais devemos transigir, ainda mais em nome da aparência cuja valorização
excessiva é um dos mais constantes e perniciosos pecados do espírito.
Inúmeras
maneiras de atacar. Apesar de o
ato de lutar encerrar uma força instintiva imensurável, é justamente dela que
deveremos nos servir racionalmente.
Talvez lutar, profundamente, signifique uma forma de trazer à tona os
mais remotos sentimentos do ser humano, de modo a com eles interagir. Por isso, ainda que no calor da refrega, mas
principalmente em razão dela, é preciso serenidade, concentração e aplicação da
técnica cuidadosamente insculpida e treinada.
Musashi
refere inúmeras maneiras e fazê-lo no Kenjutsu,
algumas delas aplicáveis e normalmente utilizadas até os dias de hojes pelas
demais artes de luta.
Entre
outras, percebeu o velho samurai, que há sempre um momento de vulnerabilidade
de quem ataca e neste instante poderá o oponente encurtar a distância e alvejá-lo
com vigor através do próprio corpo (normalmente com o ombro). Trata-se de uma técnica não esportiva, mas de
utilização em combates verdadeiros, que parte da constatação que o adversário
ficará ainda mais vulnerável se desequilibrado e projetado. Passará por um período suficientemente longo
de apatia mental, permitindo ao opositor ultimar o combate através da vitória
definitiva. Essa técnica destina-se a
evitar a permanência dos combatentes em curta distância, extremamente perigosa
das disputas que envolviam armas brancas.
Também
não escapou à acuidade de Musashi a relevância dos golpes dirigidos aos
olhos. Ele percebeu a imensidão que
significa o ato de olhar, verdadeira porta de entrada, que separa o mundo
exterior da alma. Atacar contra os
olhos, normalmente, além do caráter agressivo desse ataque, tendo em vista a
região do corpo, nobre e sensível, onde os olhos encontram-se, resulta em um
movimento defensivo do opositor, há um amplo constrangimento deste,
possivelmente os olhos até fechar-se-ão por alguns segundos. Nesse momento o antagonista está
completamente vulnerável, e poderá ser facilmente vencido.
Atacar
a face e os olhos, atualmente, também tem uma significação metafórica, pois é
conhecido o comportamento esquivo, atordoado, medroso daquele que não olha nos
olhos. Olhar nos olhos e, se for o
caso, investir contra eles, representa uma prática de extremo vigor, mas também
de lealdade e retidão de quem age às claras, à vista.
Semelhante
relevância no ato de lutar, e na vida, tem a expressão sonora da alma. Musashi sugere as palavras Katsu e Totsu (uma provocação ou grito de guerra), mas na verdade a
sabedoria indica que a forma de comunicação expressa a firmeza ou fraqueza de
caráter do emissor. É possível, por ela,
inibir os opositores, e até vencê-los sem lutar, o que seria a mais sábia e
completa forma de vencer. De qualquer
forma, ainda que não se trate de simplesmente lutar, pela manifestação sonora,
sendo ela firme e decidida, verdadeira expressão do espírito reto, granjearemos
o respeito dos que nos são próximos e, eventualmente, até mesmo dos
distantes. Esta é, por si só, uma grande
vitória!
O
uso do sistema de bater e golpear (já mencionado anteriormente) não se limita a
finta ofensiva, mas também pode ser utilizado defensivamente, é possível aparar
o golpe adversário através da batida neutralizadora, seguindo-se o golpear
forte e vigoroso. Nesse momento deverá
ser mentalmente clara a diferença ente uma e outra forma de agir. Bater para absorver, golpear para
vencer. Mesmo princípio pode ser
utilizado em outras situações da vida, ante os ataques adversários, ainda que
meramente verbais. Todo o tribuno
conhece essa diferença. Golpear
simplesmente e simultaneamente com o adversário resultará na neutralização de
ambos os golpes ou, o que é pior, na morte de ambos os oponentes. Deve-se golpear no instante logo anterior ou
logo posterior ao golpe do adversário, justamente no momento em que ele se
encontra mais vulnerável. Enfrentá-lo no
ápice de sua performance é um erro de estratégia.
No
combate com vários inimigos, Musashi sugere que se deve condicioná-los a vários
combates individuais. Divisar com
clareza o adversário que vem mais à frente e imediatamente enfrentá-lo,
posicionar-se de tal maneira que os demais sejam obrigados a ingressar em fila
indiana. Enfrentá-los a todos com toda a
determinação.
Nesse
particular, de pouca utilidade prática nos dias atuais, mas de vital relevância
à época do Japão medieval, está um aspecto essencial da postura mental do
lutador de jamais intimidar-se. Se a
morte era um caminho natural para o samurai, é certo que, mesmo em maioria, o
grupo ofensor não sentiria impedimentos para abater o opositor solitário. A alternativa deste era combater com
destemor, certo que de vencerá a todos.
Doutra forma decerto perecerá, pois se há desvantagem numérica, tal
desvantagem jamais poderá ser superada por uma mente abatida. O abatimento, ainda que um sentimento natural
do ser humano, é extremamente perigoso, e deve ser guardado para os momentos em
que o riscos forem menores.
Ao
finalizar o “capítulo do vento” Musashi lança algumas sérias advertências,
sobre a serenidade do espírito e a obediência aos mandamentos. Refere que o lutador deve sempre desconfiar
de suas capacidades, pois se ficar inebriado com uma vitória, na próxima
contenda provavelmente será vencido. Os
mandamentos destinam-se a lapidar o espírito e evitar que a alma, por
suscetível, atenda aos sentimentos menores de glória e jactância, sinais do
iminente colapso. Na glória o homem
esquece de sua finitude e imperfeição, e, no momento posterior, poderá morrer
de for um samurai, ou simplesmente sofrer terrivelmente se for um cidadão
moderno.
A
Guerra. No “capítulo do fogo” Musashi desloca seu exame das táticas, formas e
posturas para o combate propriamente dito. No entanto, as leis da estratégia
pontuam todo o proceder do guerreiro, e o que foi acentuado antes também merece
atenção agora. Certas verdades
filosóficas reaparecem sob a afirmação de que o combatente não deve deter-se em
pormenores, especialmente os de somenos importância, cumprindo-lhe dominar
amplamente os mandamentos.
Não
está escrito, mas se pode perfeitamente perceber que o autor não renega os
pormenores — talvez apenas aqueles realmente irrelevantes —, mas lembra que
estes, no momento da luta devem estar “esquecidos”, ou seja, internalizados
pelo treinamento. Devem já fazer parte
da essência da alma do samurai.
Não
é possível, no momento da aplicação, lograr a execução correta da técnica,
senão após o duro período de preparação, onde a sabedoria agrega-se de forma
sedimentar, um conceito dando fundamento e escora ao outro, todos formando um
todo introjetado de tal forma no espírito do praticante que ele regurgita a
sabedoria, mesmo sem perceber conscientemente.
Está de tal forma impregnado pelo conhecimento, que não é mais possível
separá-lo de si mesmo, ambos perfazem um só indivíduo.
O
combate também deve ser interpretado sob o ponto de vista metafórico. É concreto, até hoje, para os lutadores que
fazem dessa arte o seu ofício.
Entretanto, qualquer um poderá beneficiar-se da estratégia, desde que
devidamente entendida em seu sentido amplo, traduzindo a linguagem do
estrategista para o campo onde se dará o embate estudado, mesmo que apenas
intelectual.
O
local. É quase que evidente que o
local do combate é de suma importância para o desempenho do lutador, seja em
razão de sua simples situação, de seu solo, dos obstáculos que apresenta, da
iluminação, do clima, da temperatura, e outros pormenores. Musashi exemplifica que, em locais de escassa
iluminação, deve-se sempre procurar dar as costas à fonte de luz, de modo que
esta beneficie o lutador e confunda seu opositor. Sendo possível deve-se procurar usar do local
para dificultar a ação do antagonista, levando-o a uma posição onde tenha
comprometido seu equilíbrio, ou, sendo um local fechado, tenha limitações em
sua movimentação.
Essas
circunstâncias, para aqueles que ainda adotam a arte de lutar como meio de
vida, especialmente em competições esportivas, tem pouca significação, pois os
locais onde se ferem os combates são espaçosos, homogeneamente iluminados e sem
obstáculos.
Para
o atual competidor a aferição do local onde se desenvolverão os combates tem
outra significação: psicológica.
Dificilmente, tal como o samurai, ele poderá usar de particularidades do
local para infligir dificuldades ao oponente.
Todavia, será de grande valia a adaptação mental ao local. De sua sensação de familiaridade com o local
virá a necessária serenidade. É
importante estudar o local, até ele tornar-se familiar, neutralizando assim as
pressões que o local hostil poderia provocar.
Igual
importância tem esse mandamento aos demais que necessitam da estratégia, na
vida ou nos negócios. O contendor acuado
entra em desequilíbrio, oferecendo uma vantagem ao opositor que dificilmente
poderá ser superada. É preciso lembrar
que quando tratamos do opositor de maneira ampla, não se aplica exclusivamente
a inimigos humanos, mas de qualquer espécie, sejam eles fatos aleatórios,
provocados ou previsíveis.
Os
três modos de se adiantar ao inimigo. Musashi, quando discorre sobre a antecipação
na luta tem em mente as formas clássicas, que ele divide em “Ken no sen”, “Tai no sen” e “Tai-tai no sen”. Sinteticamente, na primeira modalidade, o
combatente ataca o inimigo. A iniciativa
é sua, e o constrangimento do inimigo; poderá usar das inúmeras táticas já
mencionadas. Na segunda modalidade, a
iniciativa do ataque dá-se no momento em que o adversário ataca; utiliza-se do
momento de vulnerabilidade que todo o atacante tem entre o início de seu ataque
e a terminação do movimento. Trata-se de
um átimo, mas nele a vida ou o êxito está em risco (viver é correr risco). Na terceira modalidade, o ataque opera-se
simultaneamente ao do inimigo.
Como
bem lembra o sábio samurai é impossível descrever com detalhes a forma e a
evolução dessas modalidades, mesmo porque depende da percepção de cada
praticante. O que importa é salientar
que o lutador deve desenvolver essa sensibilidade de imediatamente identificar
no inimigo sua disposição, de atacar ou recuar, passando então, por esse
sistema de antecipação, a desenvolver a atitude adequada. Apreender a reconhecer antecipadamente os
sentimentos do adversário, eis a suma da estratégia.
Prender
o travesseiro. Se o objetivo é dominar o
adversário como meio de vencê-lo, é preciso dominar sua cabeça, e com ela os
principais sentidos do ser humano. Se
for possível impedir que o antagonista consiga elevar a cabeça, ou controlá-la
em seus movimentos em razão ataques vigorosos que lhe são infligidos, a vitória
estará próxima. Musashi exclama que não
é possível vencer o oponente sem antecipar sua intenção. Portanto, o procedimento aqui descrito
significa que, frente ao poder antecipação, deve o combatente abortar todas as
iniciativas do adversário, agindo antes e com determinação.
Atravessar
corrente crítica. Nesse passo
o emérito estrategista reconhece a importância de seus mandamentos, lembrando
que eles transcendem à guerra e aplicam-se na vida. Atravessar período de dificuldades é inerente
a própria existência humana. Todos
enfrentaremos situações hostis em maior ou menor intensidade ao longo da
vida. Cumpre-nos enfrentá-las com afinco
até superá-las, na luta ou na vida. O desencanto e a depressão, na guerra ou na
vida, poderão significar a morte. É
nesses momentos críticos que a fortaleza conquistada pela prática será mais
útil.
Conhecer
o momento. Temos para a existência humana
a sensação de que se trata de uma unidade.
Todavia, o tempo faz-se pela sucessão de momentos. Não nos cabe perquirir a unidade básica de
tempo, pois este é o campo de especulação da física atual. Mas a sensibilidade treinada é capaz de
discernir a diferença entre os momentos.
Há períodos favoráveis para tudo.
Os atos praticados contra essa grande ordem tendem ao fracasso. Sendo possível perceber o momento exato fica
mais fácil o êxito. Na luta os momentos
pertencem a dualidade formada pelos adversários. Há o momento de exaltação do combatente e
também o momento de fraqueza do opositor.
Ambos deverão ser avaliados, e dever-se-á agir no momento em que as duas
circunstâncias estejam favoráveis.
Musashi recorda que se a capacidade intelectual estiver toda voltada
para o momento, será possível percebê-lo.
Perceber
o momento requer mais do que simplesmente aguardar o tempo certo para agir, mas
principalmente compreender o ritmo do adversário para poder quebrá-lo. Compreender o ritmo é ato de extrema
sensibilidade, trata-se de reconhecer a pulsação cósmica, eco daquela que no
passado deu origem ao mundo.
Pisar
na espada. Significa, de outra maneira,
também entender o ritmo do inimigo e disso tirar vantagem. Musashi lembra dos combates medievais onde os
soldados dispunham de apenas um carga na espingarda, ou do uso do arco e
flecha, onde também não havia repetição automática de tiros. No momento logo posterior aos disparos, a
força adversária, preocupada com a recarga, estará vulnerável. Compreendendo este ciclo, poder-se-á atacá-la
no justo momento em que se encontra neutra, sem poder ofensivo.
A
forma mencionada é um exemplo prático e clássico, mas a estratégia não se
encerra nisso, pois tem uma representação espiritual mais profunda. Pisar na arma do adversário significa submetê-lo
inteiramente, quiçá vencê-lo sem sequer lutar, constrangê-lo de tal maneira que
ele prefira a paz.
A
paz é um objetivo civilizado da maior importância, mas o homem não pode perder
a perspectiva que ela situa-se em uma dualidade que lhe dá essência. Não surgiria a necessidade de paz se jamais
houvesse guerra. A paz pressupõe guerra,
assim como a bondade contrapõe-se à agressão; a sabedoria à ignorância. Somente é possível a paz eliminando-se a
guerra; a bondade controlando-se a agressão; a sabedoria superando-se a
ignorância. É preciso interagir com o
próprio espírito de agressão como com a agressividade dos demais,
pisando-lhes. Essa a essência da prática
marcial: enfrentar a guerra sem provocá-la, liberando sua enorme energia
criadora.
Em razão disso, adverte
Musashi, não se pisa somente com os pés, mas com todo o corpo e também com o
espírito, além de com a espada, é claro.
Saber
o que é o colapso.
Evidentemente, perceber o momento depende da percepção do ritmo, e
entendendo o ritmo é possível antecipar. O ritmo é da natureza do
processo. Todo o processo tem começo,
meio e fim. Por vezes confundimo-nos.
Vemos momento onde há processo, pois o processo foi tão rápido que
escapou aos nossos sentidos. A noção de
tempo de que dispomos é muito acanhada para percebê-lo. Há muitas dimensões de tempo e espaço
imperceptíveis. Interessa-nos, no
entanto, os processos que podemos perceber e entender através do desenvolvimento
dos sentidos. Na vida de relação os
processos estão disponíveis à percepção e poderão ser entendidos pelo
assistente atento. Entendendo-os
poderemos antever o ocaso, prever o colapso.
Se o colapso antevisto for o próprio de quem assiste, será possível
minimizar suas conseqüências (dificilmente evitá-lo, pois é da essência do
processo). Se o colapso foi do inimigo
poderá ser utilizado para abreviar a vitória.
Não
compreender o colapso é muito perigoso e nocivo, pois permitirá ao adversário
(qualquer adversário, vivo ou factual) readaptar-se a nova contingência, ressurgindo
fortalecido.
Transformar-se
no inimigo. Já ficou visto que enfrentar
significa essencialmente compreender.
Enfrentar sem antes compreender resulta em comportamento inconseqüente,
onde somente a sorte poderá evitar a derrota.
Compreender o adversário é essencial, pois assim é possível
antecipar-lhe os passos e, principalmente, influenciar no ânimo próprio. Compreensão é também mutação. Melhor colocar-se na posição de quem queremos
compreender. Desse modo não o
superlativaremos nem o subestimaremos.
Qualquer dessas hipóteses será perigosa.
Ver no adversário mais força do que tem, levar-nos-á a enfrentá-lo de
forma acanhada e amedrontada. Por outro
lado, olhá-lo menor do que é jogar-nos-á em uma aventura irresponsável pela
vulnerabilidade. Viver significa correr
risco, não há como evitá-lo, mas é possível minimizá-lo através da correta e
equilibrada avaliação.
Soltar
as quatro mãos. Significa o momento do combate
em que ambos os lutadores encontram-se com suas mãos presas umas contra as outras. Trata-se do impasse, comum à vida como à
luta. O impasse resulta da estratégia
inadequada, pois levou ao obstáculo intransponível. É preciso “soltar as mãos” para estudar uma
outra forma de enfrentamento. Persistir
no impasse é gastar energia inutilmente, que cuja falta pode ser mortal no
momento seguinte.
A
sabedoria dessa estratégia está em identificar e superar à teimosia, permitindo
a rápida criação de um novo cenário mais favorável.
Mover
a sombra. Se é indispensável perceber a
estratégia do inimigo para antecipá-la, temos que dispor de métodos para
desvendá-la, especialmente quando enfrentamos um adversário habilidoso e
experiente. Mover a sombra é obrigá-lo a
praticar movimentos para que possamos, por seus gestos, interpretar sua intenção.
Prender
a sombra. As grandes dualidades que
explicam o universo estão sempre presentes.
Ao atacar — de modo a exercitar sua fortaleza — todo o inimigo fica
vulnerável. Quem ataca se expõe, é
inevitável. A estratégia significa
atormentar-lhe o espírito ante seu manifestado desejo de atacar,
demonstrando-lhe a firme intenção de enfrentá-lo mesmo em seu ataque,
superando-o através da exploração de sua vulnerabilidade inevitável. É uma forma de quebrar-lhe o ritmo. Ele agirá
de forma insegura.
Passar
adiante: Em toda a forma de vida há
comunicação. A comunicação pode ser uma
forma de controle (normalmente é utilizada com este desiderato). É possível controlar o adversário fazendo-o
absorver sensações previamente determinadas.
É possível torná-lo desatento, desidioso, para facilitar a vitória. Mesmo na luta há uma relação, uma intensa
relação com grande carga de comunicação.
O espírito mais forte dominará o mais fraco, basta examinar.
Provocar
o temor e a inquietação. Tanto maior
é a segurança do ser humano quanto maior for seu conhecimento da situação e do
local em que se encontra. O inverso é
também regra. O inusitado, o
desconhecimento tem por fruto o temor e a inquietação. Desse modo, para superar o adversário, não
podemos ser previsíveis, pois assim estaremos oferecendo a ele a capacidade de
nos compreender e nos antecipar. É
preciso inverter essa situação. Não
basta procurar antecipar o adversário. É
necessário evitar também que ele nos antecipe.
Para isso o lutador deve desenvolver sua imprevisibilidade, aparentar o
contrário do que pretende, retirar de sua gestualidade e das feições a forma de
seu espírito, posto que o espírito transbordante é fraco por previsível. A surpresa provocará temor e
inquietação. Facilitará a vitória. É necessário compreender o que significa essa
estratégia nas infinitas situações que podem surgir na vida.
Infiltrar-se. O impasse é sempre indesejável, mas os fatos
estão acima dos desejos. É preciso
enfrentá-lo. Persistir no impasse, além
de teimosia, denota falta de inteligência.
A situação deve ser alterada sem demora.
Pode-se confundir o adversário se o fizermos “rolar”, fazendo-o
desequilibrado pelo nosso próprio desequilíbrio (deliberado). Nesse momento ele não consegue discernir onde
seu corpo termina e onde começa o do seu oponente. Ele estará ainda mais inquieto pelo fato de
não ter desejado tal situação. Quem a
provocou terá vantagem, pois dela antes sabia e poderá antecipar suas ações.
Atacar
os cantos. Musashi recomenda que, no
combate de exércitos, deva-se atacar primeiro os setores mais fortes. Parte do princípio que assim não se ficará
deles à mercê, ao contrário da situação onde fosse adotada a tática inversa, de
atacar os setores mais fracos. No
combate individual a estratégia é ferir o pontos nevrálgicos do adversário,
debilitando-o.
É
preciso bem compreender essa estratégia.
O correto é que se mate a cobra cortando-lhe a cabeça. Entretanto, entre antagonistas equiparados a
cabeça não está disponível para ser cortada.
É preciso antes expô-la neutralizando partes do corpo. Se o todo é composto necessariamente por suas
partes, torna-se necessário identificar quais partes deverão ser inicialmente
neutralizadas ou destruídas, para comprometer o desempenho global e,
finalmente, atingir a vitória. O corpo é
um todo, o espírito é um todo, ambos são formados por partes. Mas corpo e espírito também são partes de um
todo. É possível neutralizar o espírito
para atacar o corpo, ou ferir o corpo para esvaziar o espírito. O corpo ferido perturba o espírito; o
espírito perturbado torna vulnerável o corpo.
Gritar. Embora o espírito seja imaterial, pode-se
usar uma expressão da física aplicada à matéria: dois espíritos antagônicos não
podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.
O grito (“kiai”) é uma forma
de expressão do espírito (“ki”). Com ele projeta-se o espírito adiante e
demonstra-se sua fortaleza. Poderá ser
utilizado para constranger o espírito adversário, ou simplesmente para firmar o
próprio espírito. Alterações no timbre e
volume da voz são técnicas há muito conhecidas pela oratória. Esta, com certeza, teve sua origem primitiva
na guerra.
Movimentação. O adversário dominará pelos sentidos, pela
percepção que pode deles extrair. Convém
confundi-lo, anestesiando-lhe os sentidos. A movimentação turva a visão,
tornando imprevisível a futura ação.
Deverá ser arrítmica justamente para tornar-se imprevisível. Certamente
há ritmo na arritmia deliberada. Deverá
obedecer os mandamentos básicos, nortear-se pelo equilíbrio, postura ereta e
adequada colocação dos pés. Deve ser
evitado o recuo, onde a vulnerabilidade, pela inércia negativa, aumenta.
Esmagar. Se o inimigo é fraco, é necessário abatê-lo
rapidamente, esmagá-lo. Do contrário
permitimos o surgimento do processo contrário ao nosso interesse, onde o fraco,
cumprindo seu destino dual, torna-se forte.
O fraco oprimido, que recobra as forças, é perigoso.
Mudar
da montanha para o mar. Musashi, neste item, ensina que não se deve
repetir a tática que anteriormente não deu certo com o mesmo inimigo. É necessário inová-la, pois, possivelmente,
repetir sua utilização resultará em novo fracasso. O homem deve aprender com os erros. O homem
inteligente aprende com os próprios erros, o ignorante não aprende jamais, e o
sábio aprende com os erros alheios.
Ultrapassar
o fundo. Significa que nem sempre o
adversário aparentemente vencido está espiritualmente batido. Se ainda estiver espiritualmente vivo, será
perigoso. Mas ultrapassar o fundo
transcende, filosoficamente, à estratégia militar, onde é inegavelmente
útil. Preocupar-se com o fundo é
fundamental para o entendimento, seja ele qual for. É incorreto deter-se na superficialidade,
pois ela geralmente não traduz a realidade.
Ir a fundo é essencial à plenitude.
Renovar-se. Não se deve temer recomeçar. O erro inicial, normalmente, compromete todo
o processo. É preciso ter em mente que somente a seqüência correta de passos
permitirá a consecução do objetivo perseguido.
Se os passos forem manifestamente equivocados, deve-se abandonar o
“caminho” e reiniciar outro. É
indispensável a serenidade para identificar os erros.
Cabeça
de rato e pescoço de touro. Ou seja,
ser meticuloso (rato) e ousado (touro) ao mesmo tempo. A percepção parcial é tão prejudicial quando
a percepção equivocada, ambas levam ao mesmo fracasso. É necessário preocupar-se com o pequeno e com
o grande ao mesmo tempo, fazê-los trabalhar em conjunto, ter uma visão ampla,
reconhecer todas as forças que atuam em cada situação. Fechar os olhos a qualquer delas é
desastroso. Aqui está presente o
princípio da fluidez mental. Deter a
mente em determinado ponto significa paralisá-la. A mente fluída tudo percebe e com tudo
interage, sem perda de tempo. Deve estar
sempre disponível.
O
general conhece seus soldados. Musashi refere que o verdadeiro general é
capaz de comandar os soldados dos adversários.
Obviamente é uma linguagem metafórica, uma forma de dizer o quanto já
foi dito, sobre a capacidade de condicionar as ações do oponente. Somente possível após muita prática.
Soltar
o punho da espada. Se a espada
integra-se ao samurai, ele não a segura, nem ela a ele. Ambos fazem parte do mesmo todo, assim como
espírito e corpo agindo em conjunto. A
espada, pela habilidade do espadachim, toma vida própria, comporta-se além do
desejo consciente de quem a segura.
Espada e samurai formam um ente diverso do que simplesmente o samurai ou
simplesmente a espada. São engrenagens
de um sistema, que atuará com precisão quando acionado. Largar a espada significa deixá-la ao sabor
do imponderável, pois é impossível comandá-la conscientemente. A consciência não é suficientemente hábil e
rápida para conduzir à vitória. O
espadachim transcende a si mesmo no uso de sua espada, assim como o homem sábio
em seu ofício.
Corpo
de rocha. A prática efetiva, profunda e
continuada conduz à verdadeira fortaleza.
O
vento. No “capítulo do vento”, o
nobre samurai dedica-se à crítica das outras escolas, ensinando que não se deve
privilegiar o instrumento em detrimento do lutador. Significaria uma inversão de valores. Sua crítica, no entanto, é própria à época, e
pouca relevância tem atualmente, senão por uma leitura também metafórica, com
relação aos aspectos criticáveis da conduta humana, nem sempre controláveis,
muitas vezes imperceptíveis para quem os pratica.
Evidentemente,
Musashi não estava ocupado em um ensaio filosófico, muito embora,
freqüentemente, pontificasse máximas de verdadeira sabedoria. Este texto, todavia, destina-se justamente,
por assim dizer, a preencher esta lacuna (humildemente).
Desde
o início do “capítulo do vento” é possível perceber em Musashi a preocupação
com a inversão de valores por tornar o que é “meio” em “fim”. É compreensível esse sentimento no lutador
que fez da arte de matar sua vida para, aos trinta anos, recolher-se a meditar
sobre o passado, ante o uso comercial do Kenjutsu
em tempos de paz, onde quem tinha melhor aspecto e aparência recolhida mais
discípulos e, conseqüentemente, mais prestígio e poder.
Musashi
critica asperamente as escolas que fizeram da arte de lutar um simples meio de
vida. Talvez seja inevitável que isso
aconteça em época de paz, mas é sempre necessário estar atento para evitar a
superficialidade.
Na
arte marcial encontra-se um grande paradoxo que explica o enorme interesse que
despertam. Desenvolvidas primitivamente
para matar, perderam este objeto primordial no meio civilizado, mantendo-o
apenas simbolicamente, metaforicamente.
Nos
outros ofícios, o homem atinge sempre seu objetivo primordial. Assim o carpinteiro, o moleiro, bem como nas
profissões modernas, o médico, o advogado, o engenheiro, etc...
O
lutador jamais poderá fazê-lo, pois aprendeu a lutar exatamente para valorizar
à paz e à vida. Como está impedido (de
matar), simula, e quando simula superficializa.
Nessa inflexão, perde a identidade, sente-se desorientado, e
constantemente é chamado a refletir sobre a superficialidade. Obriga-se, então, ao aprofundamento, e
redescobre-se.
Musashi
critica a prevalência dos instrumentos (espada longa, curta, etc...) sobre a
conduta espiritual. Modernamente, penso,
é possível dirigir a mesma crítica a proeminência da técnica (instrumento)
sobre o ser. A técnica em si mesmo
desnatura-se, torna-se uma caricatura, pois atinge exclusivamente um fim
contraditório: aparenta a eficiência que quer neutralizar!
Isso
passa nas competições modernas, e daí provavelmente a crise que elas atualmente
enfrentam. As regras foram criadas para
evitar a eficiência, e a eficiência valorizada passou a ser a ineficiência. Esvaziou-se filosoficamente o conceito de
arte marcial, e o invólucro vazio desaba.
Como
tudo, a dualidade justifica os opostos, e nem por isso as competições são
indesejáveis, pois celebrizam a prática, disseminam conceitos, mas estamos muito
distantes do momento em que serão perfeitamente conciliáveis as duas formas de
prática (esportiva e marcial).
Conforme
queixava-se Musashi, é preciso resgatar a essência, enterrada sob a aparência,
desvendando a riqueza verdadeira que se encontra na exploração consciente desse
primitivo sentimento humano consubstanciado no espírito da agressão. Trabalhá-lo libera enorme força criadora.
A
espada como instrumento. A natureza
instrumental da espada perpassa a história das artes marciais, e hoje podemos
associá-la à técnica pura de outras artes, na sua maioria desenvolvidas com as
“mãos vazias”. Nesse ponto, o instinto
de Musashi também não o trai.
Argutamente lembra que não é importante o comprimento da espada, mas o
uso que se faz dela. Portanto, a espada,
tal como a arte, não tem um fim em si mesmo.
Destina-se a aprimorar o praticante, elevá-lo.
É
nesse sentido que o mestre samurai exorta o praticante a interiorizar sua
técnica, afastando-se da “força bruta”.
Tem-se por “força bruta” o desforço primitivo, impensado,
mal-elaborado. A força deve passar pela
purificação da técnica, e esta é a conquista do treinamento prolongado e
praticado com sinceridade. Não se pode
triunfar senão pelo poder da inteligência.
Logo
o instrumento é de menor importância. O que importa é a polidez com que ele é
brandido, revelando a essência de seu portador.
Miyamoto Musashi notabilizou-se em vencer adversários fortemente armados
com simples bastões, e uma vez através de um remo.
Musashi
lembra que a eleição de determinado instrumento, aprioristicamente, revela
inaceitável limitação. Os defensores do
uso exclusivo da espada longa, olvidam-se da situações em que o combate dá-se
em espaços pequenos, e aqueles que usam espadas curtas limitam-se a aguardar a
falta ou o erro do portador da espada longa.
Ambas as perspectivas são limitadas e devem ser recusadas. É preciso ser adaptável, usar a razão para
poder vencer, seja qual for o instrumento disponível ou indicado.
Para
as outras situações da vida vale o mesmo ensinamento, pois o lutador engessado
é vítima da própria imobilidade. Tão
infinitas são as possibilidades, como infinito é o horizonte. Somente a preparada e aguda inteligência
poderá divisá-las adequadamente.
O
correto é ter a compreensão ampla da situação, e portar-se com equilíbrio,
firmeza e retidão — física e de caráter.
É
incorreto deixar-se trair pela complexidade, e elevá-la ao ponto de ser
dominado por ela. O complexo há de ser
simples e o simples necessariamente complexo.
Inútil criar técnicas de mera aparência, demasiadas e excessivas. Importante é compreender a essência,
tornando, pelo entendimento amplo, o que é complexo em simples.
A
simplicidade decorre do domínio que o praticante tem, animicamente, da situação
que enfrenta. Agindo assim deverá sair
vencedor. Se tiver a situação por
complexa, jamais poderá dominá-la, decerto será dominado por ela.
Portanto,
desconfie dos ensinamentos ininteligíveis, que somente foram criados para
enaltecer seu criador.
A
visão crítica às outras escolas.
Embora já tenha mencionado no curso da obra detalhes sobre a técnica e
estratégia, ao comparar seus mandamentos com os de outras escolas, o mestre
samurai fornece outros conceitos valiosos, que merecem reflexão, fazendo verdadeira
síntese do que já havia exposto.
Lembra
novamente que estar em guarda significa passividade, ou agir depois, razão pela
qual nunca se deve “entrar em guarda” espiritualmente, deixando-se esse
conceito apenas para meras posições do corpo que não refletem o estado de
espírito. A postura mental deve ser
sempre de estar disposta a remover os obstáculos, por mais difíceis que possam
parecer.
Do
mesmo modo deve se situar a visão, pois limitá-la à delimitação das figuras que
têm forma e cor, significa aprisioná-la ao mundo da aparência. É preciso ler o espírito, compreender as
abstrações, somente assim chegar-se-á à vitória.
O
uso dos pés deve obedecer a maior proximidade do que deles se faz
instintivamente, de modo a impedir a vacilação por contrariar a natureza. Por isso movem-se em conjunto, obedecendo o
deslocamento do corpo.
O
ritmo é da vida, portanto, não de pode contrariá-lo. Desejar ser rápido é contrapor-se à
lentidão. Logo, o ritmo ficará
descurado. Não importa a rapidez se o ato
é defeituoso. Ele deve ser praticado em
seu próprio ritmo. Como assevera Musashi
em sua ilustrativa alegoria, o expert,
no desempenho de seu ofício, não é rápido, faz tudo a seu tempo. A rapidez, a aceleração, levam à perda de
ritmo, esta à precipitação, e, finalmente, à imperfeição.
Assim
na vida, assim na luta, a aptidão depende de que seja encontrado o ritmo, e
vitória da manutenção deste.
Finalmente,
quando refere sua forma de ensino, o velho samurai recorda que exige de cada
qual o que seu potencial pode oferecer.
O aprendizado deve ser gradual (os métodos modernos de ensino, aliados à
psicologia, hoje, bem sabem disso, mas é surpreendente que um velho lutador
tivesse bem claro tal fato no século dezessete), obedecendo a dificuldade de
assimilação dos princípios. A prática
continuada dará conta do processo da aprendizagem.
A
profundidade do conhecimento, como tudo, é relativa ao grau de desenvolvimento
do pupilo, sendo incorreto tornar secretos os conhecimentos ditos
profundos. Deles o aluno dará conta se
os merecer, e merecerá se os procurar, e somente os procurará se estiver
determinado a fazê-lo por sua fortaleza espiritual. Deve-se ensinar com destemor, este o ofício
do mestre-professor.
O
Vácuo. Se é verdadeiro que o Gorin no sho não tem o objetivo de ser
uma suma filosófica, pois em sua maior parte atenta para questões práticas, de
técnica, postura e estratégia, não é menos verdadeiro que a preocupação
filosófica está sempre presente, aparecendo ao longo do texto, com maior ou menor
fluência.
O
“capítulo do vácuo”, ao contrário dos demais, destina-se justamente à reflexão
abstrata, ao linguajar simbólico, diverso dos dizeres, por vezes até cruentos,
que caracterizam o restante do texto, e daí sua atualidade e provavelmente maior
relevância; razão, inclusive, para ser colocado ao final do livro.
O
vácuo, vazio ou nada, tem inúmeras significações, mas a única que não se cogita
é sua acepção literal, ou seja, de ausência de matéria. Trata-se aqui de um estado de espírito próprio
daqueles que atingiram a elevação. Na
vacuidade não há sobressaltos, inquietação, temor. Reina a paz.
Esse
é o estado de espírito que todos almejam (muitos inconscientemente), pois
independente do caminho que nos descobrimos trilhando, quanto ao fim último de
nossos atos, buscamos o mesmo objetivo: estar em paz conosco. Mas a paz verdadeira há de ser perene, e não
pode ser confundida com a chamada paz momentânea, que conhecemos por alívio,
prenúncio de tempestade.
Muito
difícil descrever com palavras — tão limitada forma de comunicação — a extensão
do sentido do vácuo espiritual, mas é possível dizer que somente pode ser
atingido pelo homem que conhece profundamente a si mesmo, e por isso aos seus
demais.
Este
homem não se forja ao acaso, por descuido ou com indolência. Ele é fruto do esforço em busca da perfeição,
obstinadamente.
É
certo que a perfeição, conceitualmente, é inatingível, mas não é isso que
importa, pois relevante é o propósito de alcançá-la. Ela não deve ser representada, na vida,
através da matéria, pois assim estaríamos substituindo o insubstituível. O objeto da ação humana é sempre abstrato,
pois mesmo quando desejamos a concretude material representada por determinado
objeto, na verdade almejamos é o sentimento produzido pelo ato de possuir.
Portanto,
o espírito — essa entidade não necessariamente mística, mas exclusivamente
abstrata — preside a vida, e se deve nutri-lo.
Pacificá-lo por meio do equilíbrio, harmonia, retidão e paz, significa
atingir à plenitude, pairar no vácuo.
Posfácio. A leitura do antigo texto de Musashi e deste
ensaio não encerra completamente o entendimento do que realmente significam as
artes marciais, pois é provável que o mestre-samurai, e alguns de seus
contemporâneos, apenas tenham desencadeado um processo que somente amadureceria
séculos depois.
O
processo referido é inevitável, pois tem semente na natureza humana. A guerra ou o espírito guerreiro sempre
buscou a paz. Pode até parecer
paradoxal, mas a reflexão séria conduz a essa conclusão. Guerreiam aqueles que reagem à agressão,
guerreiam também aqueles que, antecipando uma agressão, atacam. Em ambos os casos, guerreia-se para a
manutenção da paz. Mas quanto àqueles
que guerreiam pelo simples ato de guerrear, e do sentimento que disso
experimentam, também querem a paz; a paz interior, apesar de efêmera, que
doentiamente a guerra lhes traz. É
patológico, mas extremamente verdadeiro.
Essa
especulação resulta de livre interpretação, quase uma cogitação, como também livre
é a exegese aqui pretendida ao escrito histórico, mas é muito razoável que as
artes marciais japonesas (e de semelhante maneira as demais) tenham surgido
justamente para contraporem-se ao milenar militarismo japonês, que moldou
indelevelmente à cultura daquele país e tem influência até os nossos dias.
É
emblemático lembrar dos educados e refinados mestres de artes marciais, desde
os mais célebres (Funakoshi, Jigoro Kano, Ueschiba, Nakayama, etc...) até os
menos conhecidos, sempre pregando a utilidade educacional da arte marcial em
nome da formação do caráter do praticante.
Em
contraposição, mas justificando o próprio movimento, estão alguns praticantes
do ocidente (e também do oriente), truculentos e descerebrados, que associaram
— e lamentavelmente ainda associam — as artes marciais à violência pura.
Era
provavelmente inevitável que as artes marciais, apesar de cuidadosamente
sistematizadas por seus ideólogos, sofressem deturpação quando
“ocidentalizadas”, considerando o enorme abismo que existia, e em grande parte
ainda existe, entre as visões de mundo ocidental e oriental.
Aliás,
foi justamente em razão desse sentimento e dessa forma de percepção, que as
artes marciais surgiram, com o propósito de humanizar à agressividade, e não
simplesmente por sua singela negação ou supressão, mas através do exercício
dela, em uma concepção que apenas a mente fluída pode permitir. Os orientais, notadamente os japoneses,
descobriram que se a sublimação é um poderoso instrumento de imposição
cultural, geralmente é ineficaz quando utilizado para o tratamento das pulsões
humanas. Impossível controlar o instinto
de agressão simplesmente sufocando-o.
Seria uma outra forma de agressão.
Melhor explorá-lo, recolhendo a energia que dele emana utilizando-a para
propósitos nobres, tal como o homem trata a natureza. Significa um processo de transformação. Esse o fundamento filosófico das artes
marciais.
À
época de Musashi, tal desiderato ainda não estava bem presente, mas já se
manifestava claramente em sua preocupação com a sabedoria. O processo que se inaugurava passou por um
amadurecimento, e ainda hoje procura encontrar os verdadeiros valores, em busca
que jamais cessará.
Faltou
a Miyamoto Musashi, evidentemente, humanizar seu pensamento e sua expressão
literária, desenvolvendo o conceito mais profundo de arte, no sentido também
estético e de valorização do ser humano como um todo, inclusive de sua
sensualidade.
Essa
visão, evidentemente, não era possível naquela época, em um país oprimido por
quase um milênio de militarismo misógino, que tendia à supressão das
manifestações líricas e sensuais.
Disso
ocuparam-se os mestres posteriores a Musashi, que criaram um sistema de
treinamento que também privilegiava a estética (notabilizada pelos katas e pelos movimentos harmoniosos),
pois se a eficiência da prática outrora foi uma necessidade de sobrevivência,
surgia então a necessidade de um alimento para a alma, através da depuração do
conceito de arte, ambas convivendo em paz.
Atualmente,
tanto no ocidente como no oriente, começamos a compreender esse processo, de
que as artes marciais cumprem seu papel na afirmação da civilização através da
semeadura e cultivo dos verdadeiros valores humanos. Esse o seu caminho (“Do”).
Resta-nos,
o quanto possível, afinarmo-nos com essa perspectiva, e nisso é fundamental a
formação de professores que tenham a correta compreensão de sua função
histórica: de abraçar seres humanos embrutecidos pelas forças primitivas,
lapidando-os por uma correta atitude espiritual. Por certo não será possível dar respostas a
todas as interrogações que inquietam o ser humano (móvel principal de
especulação de todos os sistemas filosóficos), mas inquestionavelmente será
mais fácil conviver com essa inquietação.
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