Os
principais mestres e historiadores do Karate-Dô, especialmente do linha
Shotokan encontram as raízes mais remotas da prática em Bodhidharma[2], um patriarca budista, que
trouxe o budismo da Índia para a China, provavelmente no século VI d.C.[3], onde, como se sabe o
budismo prosperou, ramificando-se em várias correntes, nem todas
verdadeiramente alinhadas com os postulados de Sidarta Gautama, até que chegou
ao Japão, pelas mãos de Dogen, no século XII da era cristã.
Bodhidharma[4] ficou conhecido como o
primeiro patriarca budista na China e é a ele também atribuída a paternidade do
Zen-budismo, cujo prefixo (Zen), em
Japonês (Chan[5] em Chinês) quer significar
o silêncio profundo ou mais propriamente aquele estado mental típico à
meditação, onde o praticante procura disciplinar a mente não deixando que ela
se perca em devaneios, tão próprios à natureza humana, reencontrando a sintonia
com as forças o universo, estado mental conhecido como satori[6].
Essa
doutrina, no Japão[7]
encontrou outra religião já ancestral na ilha, o xintoísmo, produzindo um certo
sincretismo, permitindo a convivência de credos.
É
preciso notar que no oriente, e no Japão em especial, a idéia de religião não
abraça o mesmo viés paternalista com que esse fenômeno se manifesta no
ocidente, onde a toda religião corresponde um Deus pai, ora bondoso, ora rude e
severo, as vezes até perverso. No
sistema cultural oriental, de estrutura milenarmente hierarquizada,
dificilmente conviveriam a adoração a um Deus Pai com a devoção ao senhor ou ao
amo, próprio ao sistema feudal que por séculos dominou o Japão e que até os
dias presentes deixa marcas indeléveis.
Não
por outra razão, o cristianismo trazido para a ilha central pelos Portugueses
no século XVI, não prosperou e, apesar de quase cem anos de influência lusa,
foi banido entre os nipônicos pelo Xogunato Tokugawa no ano de 1613[8].
Portanto,
o Zen-budismo a partir de sua introdução no Japão passou a ter um influência
determinante na cultura local, constituindo até uma casta clerical de larga
influência política.
É
possível dizer que as artes marciais japonesas[9] são uma manifestação do Zen, ou uma forma de prática do Zen, embora, como se verá mais adiante,
quando elas se ocidentalizaram, desafortunadamente, tenham perdido a maior
parte de suas características originais.
Prova
inequívoca dessa influência está no próprio nome que os mestres
sistematizadores convencionaram dar às disciplinas que procuravam fundar, todas
elas nominadas com o sufixo DÔ, ou caminho para iluminação[10], signo indelével da
influência do Zen.
Difícil
explicar a noção de caminho, como igualmente é desalentador traduzir em e
palavras o verdadeiro significado do Zen[11], pois trata-se de uma
experiência singular, própria e individual de cada praticante, que somente se
manifesta através da prática, insuscetível de apreensão meramente intelectual,
mas é possível dizer, com as limitações naturais da verbalização, que, na
perspectiva holística do oriente onde tudo tem relação com tudo, que exercício
zenista é um instrumento de introspecção e descoberta destinado a responder às
questões mais profundas da natureza humana, sobre a identidade, origem e futuro
do ser humano.
Essas
práticas, evidentemente, não se restringem às artes marciais, posto que estas
apenas fazem parte de um todo maior, onde ingressam a pintura japonesa, a caligrafia(shôdô) a
ikebana (artes florais), a cerimônia do chá (Chadô)[12], e mesmo o Judô, o Aikidô[13], o Kendô (uso de espadas)[14], o Kyudô (arco e flexa)[15] e o Karate-Dô[16].
É
preciso, pois, compreender o fenômeno das artes marciais no seu nascedouro
moderno, visto que os sistematizadores (Kano, no Judo, Ueschiba no Aikido e
Funakoshi[17]
no Karate-Dô[18],
somente para citar alguns), todos eram homens devotados ou Zen-budismo, e
desenvolveram suas respectivas artes nessa exata perspectiva.
As
artes marciais, portanto, não se destinam a ensinar a lutar, pois mesmo
historicamente foram concebidas em períodos de paz[19], mas a um ideal muito
mais ambicioso de fazer o homem entender a si mesmo, ainda que
animicamente. Lutar, para as artes
marciais zenistas, significa um produto acessório, um meio para atingir determinado fim. O
budoka[20] há de ser, muito antes de
um lutador, um ser humano em estado de plenitude, mas paralelamente jamais
poderá descurar da boa técnica, na execução escorreita de movimentos, pois que
este é o único instrumento disponível à consecução da verdade última[21], ou seja, a constatação
definitiva do fenômeno que significa o universo, despido do véu da cultura,
percebida no íntimo de forma pura e incontrastável.
Nesse
sentido a prática anda junto ao processo de iluminação, visto que o verdadeiro
objetivo perseguido somente será atingido se a experiência física for realmente
reveladora, e esta somente assim será se a própria prática for verdadeira. Trata-se de fenômenos indissociáveis, na
perspectiva holística de que a mente não pode ser separada do corpo[22], e a prática corporal
leva ao aperfeiçoamento da mente, tanto quanto vice-versa, considerando que
ambos, na verdade, compõem a mesma entidade que se traduz no ser humano.
São
muitíssimo marcantes as características do Zen
nas artes marciais forjadas por sua influência, notadamente no Karate-Dô. Neste a repartição da prática em Kihon, Kata e Kumite encerra o
emblema dessa ascendência, pois se a repetição própria ao Kihon, emula a meditação[23] típica ao Zen, que é puramente repetitiva, um
verdadeiro treinamento. Não menos raízes
tem o Kata[24],
cujo nome, na etimologia sâncrita (Kafu),
significa dominar os maus pensamentos, o que se faz através dos rituais que se
destinam a automatizar no praticante a disciplina, que nada mais é do que
conter os impulsos negativos. Trata-se
de uma forma de educação, intuitiva em todas as culturas[25], praticada à exaustão
para polir[26]
o espírito no Karate-Dô.
O
Kata, portanto, responde ao um
objetivo maior do que simplesmente uma prática física e estética, como parece ser
ao observador menos atento. No ideal
imediato de simular ou dramatizar uma luta imaginária, reveste-se de um ritual
a ser repetido intermináveis vezes, até que o praticante, educado pela
repetição, possa perceber as mensagens que os sentidos ordinários, senão a
intuição, não podem captar.
Considerando
que o conhecimento somente se transfere através da cultura e esta pela palavra
escrita, e que esta última é insuficiente para conter as mensagens que se
desejava transmitir à gerações posteriores, os antigos não tiveram alternativa
senão cifrar a mensagem metaverbal através de Katas, a serem decifradas por cada praticante no curso da
eternidade[27]. Essa decifração significa a iluminação tão
própria ao Zen.
Enquanto
isso o Kumite, em todas as suas acepções,
responde pela necessidade de averiguar o quão próximo da verdade estamos ao
longo da prática[28],
pois a verdade interna somente será alcançada se correlativamente a verdade
externa também o for. Significa dizer
que se a arte é o caminho em busca da verdade última, somente a prática
verdadeira poderá atingir tal fim, que passa pelo habilidoso uso de técnicas
realmente eficientes, embora sua utilização deva ser metafórica, pois a pureza
a ser resgatada coaduna-se com a não-violência, e a não-violência não se atinge
pela negação ou sufocamento da violência, pois sabemos que assim ela fica
apenas adormecida aguardando o momento de se manifestar, quando normalmente
eclode com forma inaudita, enquanto que a verdadeira não-violência exige a
interação com a violência, a manipulação da violência, até seu domínio total,
transmudando-a em paz, interior e exterior, que também é um estado de
transcendência ou iluminação, objeto primitivo das artes marciais em sua
acepção zenista.
O
fenômeno das artes marciais, entretanto, há muito se desprendeu de sua fonte
original. Especialmente após a Segunda
Grande Guerra, que findou em 1945 com a capitulação dos países do eixo, entre
eles o Japão, desceu o véu que separava oriente e ocidente, passando a ocorrer
uma integração jamais antes vista na história da humanidade. De um lado os orientais, em especial o Japão
contemplado por grandes massas de recursos americanos alocados pelo “Plano
Marshall”[29],
apressaram-se em absorver valores ocidentais, notadamente a tecnologia, enquanto
que os ocidentais, gradualmente, deixavam-se seduzir pelas práticas do oriente,
entre elas as artes marciais, que ganharam grande notoriedade e hoje milhões de
adeptos.
Mas
as artes marciais em sua transferência do oriente para o ocidente não deixaram
de sofrer uma forte influência cultural resultando em verdadeira alteração de
sua base conceitual. É preciso notar que
no oriente as formas de pensamento estão intimamente ligada ao Hinduísmo,
Confucionismo, Budismo e Taoísmo no parte continental e o Zen-Budismo e Xintoísmo no Japão, todos radicados em uma
perspectiva holística, integrativa ou complementar, enquanto que o pensamento
ocidental, em especial aquele que nos levou à sociedade contemporânea, sofre
forte influência dos postulados aristotélicos, mais remotamente, e newtonianos
e catersianos mais proximamente[30].
O
viés de pensamento ocidental, influenciado pela física de Isaac Newton[31] e pela filosofia René
Descartes[32]
e Aristóteles[33]
tende a converter o entendimento da realidade a um modelo mecanicista e
reducionista, isto é, tentar entender tudo como seu fosse uma máquina (física
newtoniana) separando as partes do todo (visão catersiana), ignorando a natural
integração que tudo tem com as leis do universo, em sua grande parte
incompreensíveis pelo intelecto.
As
artes marciais que, trazidas do oriente vicejaram no nosso meio, não
conseguiram escapar desse molde ocidental, transformaram-se em esportes – já
por aí especializando-se e perdendo sua perspectiva holística –, convertendo-se
em modalidades competitivas onde a busca do troféu passou ser o objetivo maior
(ou menor) a ser perseguido.
Trata-se
de uma armadilha própria ao Zen, um
verdadeiro koan[34]
pelo absurdo que encerra, pois se o ideal de transcendência, presente a
evanescência[35]
que caracteriza a vida nesse mundo, recomenda a relativização dos valores e
mesmo a produção o desapego, as artes marciais passaram a ser um instrumento do
apego, circunscritas ao ideal esportivo onde a vitória externa é o quanto
importa, não sendo relevante o quão derrotados poderemos estar no interior.
Revestidas
de roupagem ocidental em sua base conceitual, embora apresentem-se sempre com
trajes orientais, as artes marciais no ocidente perderam essência e hoje, após
longo apogeu, perdem também adeptos, especialmente entre aqueles que buscam
algo além dos sentidos ordinários, um contigente cada vez maior de pessoas,
perdidas entre o esoterismo, os produtos de auto-ajuda e mesmo atraídas pelo
charlatanismo puro.
Eis
o desafio presente dos professores de artes marciais, em especial aos
instrutores de Karate-Dô a quem dirijo estas palavras. A sobrevivência da prática para o futuro e
mesmo sua maior popularização depende crucialmente de uma mudança conceitual
profunda na forma em que a arte é ensinada, com a retomada dos valores
perdidos, e mais até, a pesquisa dos confins do ser humano ainda não
explorados, resgatando o Karate-Dô da sua hoje marginal condição de apenas uma
modalidade de luta, devolvendo-lhe o sentido original, holístico, de integração
entre mente e corpo, de poderoso instrumento de prospecção das verdades
humanas, capaz de dar resposta à eterna pergunta da filosofia em todos os
tempos: quem somos?
[1]
Considerando que este texto tem uma direção específica, e prende-se a uma
palestra a ser proferida pelo lapso de tempo de 30 minutos, usarei
extensivamente as notas de rodapé para veicular informações complementares e
acessórias ao tema em debate.
[2]
Daruma em japonês, que é referido, por exemplo por Nishiyama, em sua “short history”, capítulo introdutório ao
leu livro “Karate, The art of ‘empty
hand’ fighyting’,ed. Tutle, 1984.
Semelhante referência também faz Nakayama, em seu “Dynamic Karate”, ed. Kodansha, 1983.
[3]
Roque Severino, em seu excelente “Espírito
das Artes Marciais”, Imago, 1988, lembra que Bodhidharma provavelmente
chegou à china, egresso da Índia, no ano 520 de nossa era, trazendo consigo a
tradição budista que se iniciou com o próprio Buda, em cuja linhagem indiana
Daruma era o 28º patriarta, tornando-se o primeiro patriarca na China.
[4] O
nome Bodhidharma tem origem no sânscrito (língua primitiva na Índia),
significando a junção de duas expressões: Bodhi
(iluminação) e Dharma (lei
fundamental que rege o universo).
[5] A
palavra chan é uma abreviatura de channa, que em sânscrito grafa-se dhyana, ou meditação.
[6]
Embora de dificílima conceituação, como passa com as questões próprias ao zen, em sua maior parte metaverbais, o
satori é um estado em que a intuição se alarga. D.T. Suziki chama-o de intuição
prájnica, algo aproximado ao nirvana, ou seja, estado de iluminação suprema,
realidade última, aquela que se adquire sem o filtro da cultura e do intelecto
no contado direto e perceptivo com as forças que regem o universo.
[7]
Segundo a bibliografia disponível, o Zen
foi introduzido no Japão no Dogen (1200-1253), no ano de 1227, após passar
quatro anos na China com o Mestre Niojo.
[8]
Sobre o tema há uma excelente obra do Nipo-brasileiro José Yamachiro,
intitulada “Choque Luso no Japão dos
Séculos XVI e XVII”, Ibrasa, 1989, cujo leitura reputo obrigatória aos
brasileiros, especialmente professores de artes marciais, com ênfase dos
instrutores de Karate-Dô, que pretendam entender as raízes telúricas de sua
prática e instrumento de trabalho, tendo em vista que também se trata de uma
identidade entre Brasil e o Japão, ambos fruto de influência colonial
portuguesa, guardando-se, obviamente, as especificidades de cada povo e o tempo
e a circunstância em que tal episódio histórico se deu. Também de José Yamashiro, e de leitura
imprescindível, são as obras “História da
Cultura Japonesa”, Ibrasa, 1985, e “História
dos Samurais”, Kempf/Editores, 1982. Ainda de José Yamashiro, com interesse
para o praticando de artes marciais, há sua primorosa tradução do “Gorin no sho”, texto clássico de
Miyamoto Musashi, que Yamashiro traduziu diretamente do japonês arcaico,
brindando-nos também com uma excelente introdução onde aduz informações
fundamentais sobre o contexto histórico em que a obra de Musashi se produziu.
[9]
Sobre aspectos da cultura militarista no Japão, indispensável é a leitura de “A
Arte japonesa de criar estratégias”, de Thomas Cleary, ed. Cultrix, cujo título
em português não faz justiça ao livro.
Paradoxalmente, apenas da influência dita religiosa, a história do
oriente, em especial a do Japão, está pontuada por conflitos armados, entre
países, ou mesmo viscerais e fratricidas.
Essa cultura é muito bem delineada por Cleary, que com rara felicidade
consegue traduzir para palavras o problema da guerra e seus reflexos na
cultura. O autor lembra que o Zen foi utilizado pela aristocracia
samuraica como verdadeira ideologia, e daí sua também influência nas artes
marciais. Concluo que os samurais
interessaram-se pelo Zen não só para
combater às castas clericais que dominaram o país por séculos, mas
especialmente frente a ótica da morte que o Zen
permite, tão útil àquele que, tal como o guerreiro, está sempre diante do
próprio passamento.
[10]
Não por outra razão, Dojo significa local de iluminação.
[11]
Sobre Zen-budismo, talvez a obra mais relevante seja “Introdução ao Zen-budismo” de Daisetz Teitaro Suziki, o principal
disseminador da doutrina no ocidente neste século. Nesta obra, além do texto profundo e
explicativo de Suzuki, há uma longa introdução Carl Gustav Jung, o principal
discípulo de Freud, psicanalista de renome, demonstrando o vivo interesse que o
Zen tinha entre os pensadores da
mente humana, pelo menos na primeira metade do século. Além de Jung, também o psicanalista Erich
Fromm escreveu sobre Zen e o filósofo
Alan Watts, este autor do interessante e esclarecedor “O espírito Zen” e de “O Zen e
a experiência mística”, ed. Cultrix.
Tais textos, escritos nas primeira metade deste século, que são
separados por um longo silêncio das letras do ocidente sobre o tema, fazem crer
que a derrota do Japão na 2ª Guerra de certa forma desvalorizou a doutrina, que
somente mais proximamente passou a ter nova vitalidade. Leitura mais amena pode ser encontrada em “Zen em quadrinhos”, Ediouro, de Tsai
Chih Chung, em uma exitosa iniciativa de popularizar a doutrina. O mesmo autor também escreveu (desenhou) “O Tao em quadrinhos”, cuja leitura é
também de grande interesse.
[12]
Sobre o “Zen na Arte da Cerimônia do
Chá” há uma excelente obra de Horst Mammitzsch, publicada pela ed. Pensamento,
1987.
[13]
Dentre as várias obras disponíveis em português sobre Aikidô, para resgatar
noções introdutória “O espírito do Aikidô”,
de Kisshômaru Ueshiba, filho do fundador Morihei Ueshiba, é uma valiosa
síntese.
[14]
Sobre o sentido filosófico do Kendô, “O
Zen na arte de conduzir a espada”, de Reinhard Kammer, ed. Pensamento,
1987, é uma excelente ferramenta de compreensão.
[15]
Foi sobre esse tema que escreveu-se o, talvez, maior clássico da lavra de um
ocidental sobre o Zen, intitulado, em
Português, “A arte cavalheiresca do
arqueiro zen”, ed. Pensamento, e Eugen Herrigel. Com uma excelente introdução de D. T. Suzuki,
trata da experiência do autor que, no anos 20, foi convidado a lecionar o Japão
sua especialidade (metafísica), decidindo também ingressar em contato com o Zen, fazendo-o através do Kyodô. A perplexidade desse ocidental repentinamente
mergulhado na cultura oriental é um relato fundamental, cuja leitura e mesmo a
releitura afigura-se experiência básica a quem pretende entender o fenômeno.
Sobre o mesmo tema, ou seja, a prática do Kyudô, aconselho a leitura de Kenneth
Kushner, em seu “O Arqueiro Zen e a Arte
de Viver”, ed. Pensamento, que se inspira, expressamente, na obra de
Herrigel, também produzindo um texto fluído e biográfico. Sobre a técnica de Kyudô há o excelente “O Segredo de Acertar no Alvo”, de
Jackson S. Morisawa, instrutor na escola Chozen-ji, livro voltado mais para a
técnica da arte. Herrigel também escreveu
“O caminho zen”, leitura igualmente
relevante para o entendimento da prática, especialmente porque escrita sob a
perspectiva de um filósofo ocidental.
[16]
Além do sufixo Dô, o Karate-Dô também tem íntima relação como Zen no restante de seu nome, pois nos dois
ideogramas que o compõe (Kara=vazio e Te=mão), Kara tem um profundidade bem
típica do Zen, significando o quinto
do cinco reinos (Terra, água, fogo, vento e o vácuo). É justamente com vistas a essa compreensão de
mundo que Miamoto Musashi organiza seu “Gorin
no sho”, o livro sobre estratégia, demonstrando mais uma vez o acerto da
ótica holística onde há uma relação entre tudo.
[17]
Sobre Gichin Funakoshi, seus apontamentos em “Karate-dô, o meu modo de vida”, já foram traduzidos para o
português, pela ed. Cultrix, onde o nobre Okinawense, professor em Shuri,
relata sua experiência com o Karate-Dô, desde os primeiros anos no torrão
natal, seus mestres, com ênfase em Azato, Yoshitsune (1827/1906) e Itosu,
Yasutsune (1830/1915), até a difusão da arte na ilha central.
[18]
Sobre o Karate Shotokan há a obra “Shotokan
Karate, Its History and Evolution”, de Randall G. Hassel, que traz inúmeras
e fundamentais informações sobre a história da arte, desde os seus primórdios
em Okinawa, incluindo gráficos e fluxogramas sobre as figuras históricas, katas
e outros tantos elementos essenciais ao entendimento desse fenômeno.
[19]
Miamoto Musashi, por exemplo, cuida de sistematizar seu pensamento sobre a
estratégia no Kenjutsu, ao final de sua vida, quando já na condição de Ronin (samurai sem senhor), debruça-se
sobre a vida de lutas e duelos.
Iniciava-se o chamado período Tokugawa, que imporia ao Japão, à força
das armas, um lapso de 250 anos de paz imposta. Em seus apontamentos Musashi faz referência
as várias escolas de Kenjutsu que vinham se estabelecendo, justamente para
educar os filhos das castas nobres.
Funakoshi, por seu turno, lembra que nasceu com a restauração Meiji
(1868) e, embora descendente de samurais, não teve que enfrentar a guerra,
voltando sua arte fundamentalmente à paz, e ao domínio do homem por si mesmo.
[20]
Praticante do Budô, ou aquele que
trilha o caminho do guerreiro (Bu).
[21]
Nirvana
[22]
No pensamento Chinês a interação dos pólos dá-se pelas figuras do Yin e Yang, que não chegam a compor propriamente uma dualidade de
antípodas, mas de figuras interativas, que compõem o ciclo do universo.
[23] O
Profº da USP e mestre de Karate-Dô, Yasuyuki Sasaki, sobre a questão salienta:
“... em investigações recentes[de
praticantes de Karate-Dô], registro eletroencefalográficos de ondas cerebrais
indicam uma freqüência de aproximadamente 10 ciclos por segundo (10hz)./Tais
atividades de onda Alpha são flutuações uniformes de mais comumente observadas
em pessoas imediatamente antes de dormirem.
Seus padrões regulares contrastam notadamente com a flutuação errática
aparente do cérebro, no estado de despertar.
Estudos recentes têm mostrado que praticantes de Zen e Yoga também
apresentam esta atividade de ondas Alpha, durante período de meditação.” In
Manual de Educação Física, Karate-Dô, vol., Ed. E.P.U., 1974.
[24] O
mestre Kenei Mabuni, com especial felicidade, afirmou que “O Kata é o Zen em movimento” (conf. Revista Karate Bushido, França,
janeiro de 1998.
[25]
Os ritos são próprios a todas as culturas conhecidas, pois é da natureza humana
estabelecer rotinas e protocolos desde nos eventos mais relevantes, como no
casamento, nascimento e morte, até os mais pueris, tal como escovar os dentes
todo o dia pela manhã.
[26]
Não sem razão o Kata Meikyô significa
“polindo o espelho” encerando uma metáfora muito expressiva, emblemática, pois
ao polir o espelho estando diante do espelho, e o polimento facilita a visão
que temos de nós mesmos, ou seja, em última expressão, o aprofundamento do
processo de auto-conhecimento.
[27]
Em sua maioria os Katas tem nomes sugestivos que encerram uma mensagem de
profundidade indelével. Bassai-Dai, por exemplo, que significa
penetrando a fortaleza, bem pode ser uma forte metáfora do nascimento em uma
analogia guerreira.
[28]
Por isso a Shiai-Kumite significa
fundamentalmente um teste, ou seja, a competição do praticante não é com seu
oponente, mas consigo próprio, procurando divisar o quanto de verdade
(eficiência) há em sua prática.
[29]
Programa de auxílio econômico adotado pelos E.U.A., após a 2ª Guerra Mundial,
com o objetivo de promover a recuperação dos países envolvidos na guerra.
[30]
Sobre esse tema é indispensável a leitura dos livros de Fritjof Capra, autor de
“O Ponto de Mutação” e de “O Tao da Física”, onde demonstram a
grande influência que temos da visão newtoniana (relativa ao físico inglês
Isaac Newton) e cartesiana (relativa ao filósofo francês Renés Descartes), a
primeira de viés mecanicista, que procura, em sua visão de mundo, entender tudo
como o funcionamento de uma máquina, e a Segunda, reducionista, que busca
reduzir o todo aos seus elementos básicos, o que se contrapõe a uma perspectiva
holística, característica do antigo pensamento oriental, onde o tudo se
relaciona com tudo. Capra demonstra que
os postulados newtonianos sobre física foram e são muito úteis para entender os
fenômenos quotidianos, mas impróprios e insuficientes para o entendimento de
fenômenos físicos em grau subatômico, e na magnitude cósmica. Sobre a evolução das ciências ocidentais e
sua relação com a filosofia, obra grandemente informativa é a do brasileiro
Marcelo Gleiser, intitulada a “Dança do
Universo dos mitos da criação ao Big-Bang”, Companhia das Letras, 1997.
[31]
Físico inglês que viveu entre 1642 e 1727
[32]
Filósofo e matemático francês que viveu entre 1.596 e 1650.
[33]
Filósofo grego que viveu entre 384 e 322 A.C..
[34]
Instrumento mental desenvolvido pelos mestres Zen para treinar os praticantes, que consiste em uma pergunta que
não pode ser respondida através do uso da razão. Por exemplo: “Bata palmas com as duas mãos. Como será o
ruído das palmas de uma mão só?”
[35]
Sem tentar explicar o Zen, o que
entendo impossível, imagino que um de seus fundamentos esteja no que a
psicanálise chamou de “pulsão da morte”.
Somos os únicos seres que sabem da própria morte, que conhecem a
finitude da vida, e que se depara diante do absurdo de nascer para morrer,
único evento realmente certo da vida. A
morte, por assim dizer, comanda a vida, pois nossa concepção de vida está
indissociavelmente vinculada à morte, e em tudo que fazemos há eco do momento
derradeiro, desde o ato mais comezinho até a mais profunda especulação
filosófica. Há uma lei universal
ininteligível atrás de tudo isso, e essa é a matéria prima do Zen, buscar a iluminação (algo
semelhante com o insight na
psicanálise): o momento em que passamos a entender como as coisas do mundo se
comportam, em que pese não possamos explicar.
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