domingo, 3 de agosto de 2014

Cortando a própria alma


                        A inquietação é talvez uma das características mais singulares do ser humano.  Diferente dos demais seres vivos, equipado com um poderosíssimo instrumento que lhe outorga a capacidade de raciocinar, o homem é primordialmente inconformado.  Inconformado com as limitações da vida, mas principalmente inconformado com a própria finitude e com a incapacidade de compreender-se a si próprio.

                        Afora o que podemos chamar, grosso modo, de tecnologia, ou a interação do homem com a natureza na busca de modificá-la em proveito próprio, a principal aspiração da cultura vem sendo da busca do autoconhecimento.

                        Matizado pela lógica, a cultura ocidental bem palmilhando um longo percurso, onde ora predominaram a religião, ora a filosofia e, mais recentemente a medicina, através da revolucionária psicanálise, cujo mérito, maior de todos, foi perceber que a ação humana dificilmente pode ser interpretada através do raciocínio silogístico, onde da soma de premissas deve necessariamente decorrer o resultado previsto.

                        Esta fórmula matemática de compreensão mostrou-se extremamente tímida com relação à natureza humana, e a filosofia passou a servir-se da metafísica, enquanto que a medicina emaranhava-se com a intuitiva psicanálise, ambas com inúmeras intersecções.

                        Mas o mistério persistiu, fazendo do homem um refém de si mesmo, envolvido em uma brumosa inconsciência a respeito da própria natureza, enquanto desbravava o universo, pondo a natureza a seus pés, ousando até replicar-se pelo processo de clonagem como já foi prometido, sem, no entanto, responder a mais elementar das perguntas: quem sou eu?

                        A resposta a tão antiga indagação, com efeito, não é tarefa simples, acessível à lógica primária, aquela mesma que utilizamos para jogar dominó.  A ausência de solução para o enigma, após tantos milênios de civilização, por si só indica o grau de dificuldade para esta onerosa empreitada.

                        Significaria suma pretensão apontar a resposta, até porque solução concreta não há, senão uma única e singular para cada um de nós.  Merece acento, todavia, os sucessivos fracassos das tentativas meramente intelectuais, e a constante, apesar de intuitiva procura do homem em encontrar através das atividades físicas, os próprios limites, apesar do risco à vida, seja nas abissais profundezas do oceano, seja nos asfixiantes cumes mais altos do mundo, na corrida para o espaço ou do desafio pela alta velocidade.

                        Há, em todas essas ações humanas, além do desafio, a busca das sensações desconhecidas que somente as situações-limite podem permitir.  É o sintoma claro de que falta o autoconhecimento e o instrumento adequado para atingi-lo. Esta portentosa couraça que nos separa de nós mesmos não é facilmente perfurável, e sua ruptura é ainda mais difícil, quase que intransponível frente a natureza abstrata, etérea, imaterial e intangível que detém.

                        Com rompê-la para apanhar o tesouro que ela tão renhidamente protege? Eis a questão!

                        O fracasso dos métodos tradicionais, se não revelam o caminho, por certo desvendam por onde não devemos ir.  Arriscar a vida também não vem se demonstrando um método eficiente, especialmente ante a impossibilidade de tirar proveito da experiência interior daqueles que pereceram. Nisso talvez seja possível extrair uma experiência reveladora, daqueles que, em vida, procuram a morte metafórica através da prática continuada que os torna tão hábeis no seu mister, que passam a praticá-lo em harmonia cósmica, prescindindo da vontade, como se “algo” os impelisse na prática.

                        Trata-se de uma experiência única e individual, de natureza zenista, na qual a maior parte das artes marciais buscou inspiração, pois a disciplina corporal e a sintonia de todos os sentidos é condição “sine qua non” ao estado de iluminação.  É preciso ser capaz de bramir à espada metafórica e cortar à própria alma, desvesti-la, permitindo que pela abertura irradie-se a benfazeja luz interior.



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