A
inquietação é talvez uma das características mais singulares do ser
humano. Diferente dos demais seres
vivos, equipado com um poderosíssimo instrumento que lhe outorga a capacidade
de raciocinar, o homem é primordialmente inconformado. Inconformado com as limitações da vida, mas
principalmente inconformado com a própria finitude e com a incapacidade de
compreender-se a si próprio.
Afora
o que podemos chamar, grosso modo, de tecnologia, ou a interação do homem com a
natureza na busca de modificá-la em proveito próprio, a principal aspiração da
cultura vem sendo da busca do autoconhecimento.
Matizado
pela lógica, a cultura ocidental bem palmilhando um longo percurso, onde ora
predominaram a religião, ora a filosofia e, mais recentemente a medicina,
através da revolucionária psicanálise, cujo mérito, maior de todos, foi
perceber que a ação humana dificilmente pode ser interpretada através do
raciocínio silogístico, onde da soma de premissas deve necessariamente decorrer
o resultado previsto.
Esta
fórmula matemática de compreensão mostrou-se extremamente tímida com relação à
natureza humana, e a filosofia passou a servir-se da metafísica, enquanto que a
medicina emaranhava-se com a intuitiva psicanálise, ambas com inúmeras
intersecções.
Mas
o mistério persistiu, fazendo do homem um refém de si mesmo, envolvido em uma
brumosa inconsciência a respeito da própria natureza, enquanto desbravava o
universo, pondo a natureza a seus pés, ousando até replicar-se pelo processo de
clonagem como já foi prometido, sem, no entanto, responder a mais elementar das
perguntas: quem sou eu?
A
resposta a tão antiga indagação, com efeito, não é tarefa simples, acessível à
lógica primária, aquela mesma que utilizamos para jogar dominó. A ausência de solução para o enigma, após
tantos milênios de civilização, por si só indica o grau de dificuldade para
esta onerosa empreitada.
Significaria
suma pretensão apontar a resposta, até porque solução concreta não há, senão
uma única e singular para cada um de nós.
Merece acento, todavia, os sucessivos fracassos das tentativas meramente
intelectuais, e a constante, apesar de intuitiva procura do homem em encontrar
através das atividades físicas, os próprios limites, apesar do risco à vida,
seja nas abissais profundezas do oceano, seja nos asfixiantes cumes mais altos
do mundo, na corrida para o espaço ou do desafio pela alta velocidade.
Há,
em todas essas ações humanas, além do desafio, a busca das sensações
desconhecidas que somente as situações-limite podem permitir. É o sintoma claro de que falta o autoconhecimento
e o instrumento adequado para atingi-lo. Esta portentosa couraça que nos separa
de nós mesmos não é facilmente perfurável, e sua ruptura é ainda mais difícil,
quase que intransponível frente a natureza abstrata, etérea, imaterial e intangível
que detém.
Com
rompê-la para apanhar o tesouro que ela tão renhidamente protege? Eis a
questão!
O
fracasso dos métodos tradicionais, se não revelam o caminho, por certo
desvendam por onde não devemos ir.
Arriscar a vida também não vem se demonstrando um método eficiente,
especialmente ante a impossibilidade de tirar proveito da experiência interior
daqueles que pereceram. Nisso talvez seja possível extrair uma experiência
reveladora, daqueles que, em vida, procuram a morte metafórica através da prática
continuada que os torna tão hábeis no seu mister, que passam a praticá-lo em
harmonia cósmica, prescindindo da vontade, como se “algo” os impelisse na
prática.
Trata-se
de uma experiência única e individual, de natureza zenista, na qual a maior parte
das artes marciais buscou inspiração, pois a disciplina corporal e a sintonia
de todos os sentidos é condição “sine qua
non” ao estado de
iluminação. É preciso ser capaz de
bramir à espada metafórica e cortar à própria alma, desvesti-la, permitindo que
pela abertura irradie-se a benfazeja luz interior.
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