É
um conceito físico que tem por fundamento a força responsável pela amálgama do
universo. Todo o equilíbrio cósmico, das
galáxias e dos sistemas solares, está calcado na força gravitacional, embora
seja necessário reconhecer que outras forças também atuam, mas que para este
ensaio não têm relevância.
Fosse
possível "desligar" a força gravitacional, passaríamos imediatamente
a flutuar sem qualquer ponto de apoio.
Em pouco tempo, os músculos ficariam flácidos até perderem a função e os
ossos porosos até se desmancharem. Porém
mesmo que a gravidade pudesse ser “desligada”, deste terrível mal não
padeceríamos. É a força gravitacional
que também mantém a atmosfera em torno do planeta. Em segundos estaríamos mortos por asfixia.
Esses
breves comentários servem para ilustrar a relevância da força gravitacional
para a vida de qualquer ser humano, com especial relevância para o budoka que
faz do movimento o seu caminho (Dō). Sem a força gravitacional, os movimentos
como os conhecemos não existiriam, tampouco a espécie humana ou até outras
formas de vida.
Todo
o movimento humano, no ambiente gravitacional, tem origem em um ponto de apoio
que normalmente encontramos no solo.
Ocasionalmente poderemos nos apoiar em obstáculos laterais, mas será
efetivada no chão de onde partirão as forças físicas que gerarão a movimentação
humana. Com menor relevância também nos
servirmos do ar, o mesmo que é mantido ao alcance nossos narizes pela força
gravitacional.
A
consciência desse fenômeno — para alguns mera obviedade e para muitos
despercebido — em muito transcende sua percepção fenomenológica. É preciso compreendê-lo para otimizar a
interação e assim alcançar melhores resultados.
Desde
Arquimedes, e isso no século II a.C., o conceito do centro de gravidade ou
baricentro é fundamental à compreensão do movimento dos corpos, representado
pelo ponto onde se concentra a força gravitacional. A posição do centro de gravidade em relação a
seu corpo determinará o equilíbrio e, a partir dele, o movimento que aquele
corpo poderá desenvolver, tratando-se quer de um corpo inanimado, quer de um
corpo vivo.
Os
orientais, já há séculos, especulavam acerca da posição do centro de gravidade
no corpo humano, provavelmente situado no baixo ventre, localização confirmada
pela ciência moderna. Com efeito, o
conceito do Taden (Hara), o ponto imaginário que se situa a distância de quatro
dedos abaixo do umbigo, estava correto.
Ali o ponto nevrálgico dos movimentos humanos. Ali o equilíbrio e o desequilíbrio necessário
ao movimento eficaz.
Normalmente
dispomos deste conceito introjetado instintivamente. Fosse diferente não poderíamos executar as
tarefas mais prosaicas, como movimentar os braços, a cabeça ou caminhar. A própria natureza nos dotou dessa função,
tal como qualquer ser vivo que necessite se movimentar. Contudo, o sistema ganha em muita
complexidade no momento em que desejamos desenvolver movimentos mais refinados,
para os quais não fomos dotados de capacidade instintual.
Inquestionavelmente
o primeiro conceito a ser dominado é o centro de gravidade. Toda a movimentação do corpo humano está
condicionada a sua posição em relação aos demais membros ou porções. Rapidamente o praticante vai descobrindo que
a eficiência do movimento está relacionada à conexão entre no chão, o centro de
gravidade e o produto final do gesto.
Mais
do que tudo, o refinamento da prática, na velha equação segundo a qual se deve
perseguir o resultado máximo com o mínimo de energia, exige a aguda percepção
do posicionamento do centro de gravidade, e não só porque o melhor resultado, o
mais eficiente, depende da equação energética, mas também porque para o budō, o
outro, o oponente, é elemento integrante da equação. E o outro dispõe de razão, emoção e sua
própria compreensão do movimento.
Nenhuma utilidade haverá de se retirar do movimento potente, mesma na
melhor de suas expressões individualmente admitidas, sem cirúrgica precisão,
mesmo que para isso a potência cinética tenha que ser reduzida. O movimento isoladamente potente, com
frequência, se volta contra quem o produziu.
A precisão sempre haverá de estar acima de tudo, daí o foco ou o kime.
É
virtualmente impossível pensar em foco sem o exato domínio do centro de
gravidade. E isso porque mesmo as
pequenas oscilações no centro de gravidade produzem graves perturbações na
execução final de cada movimento.
Essa
compreensão não pode jamais escapar àqueles que se dedicam ao budō. Observando e estudando compreenderão que a
sintonia com o equilíbrio cósmico, assim considerado pelas leis da física, está
no domínio da posição do centro de gravidade, principal preocupação do
praticante na execução de cada movimento, para disciplinar o corpo e a mente no
respeito àquilo que é imutável.
A
prática continuada, a execução continua e repetida dos movimentos serve
primordialmente à sintonia destes com centro de gravidade, cuja atuação tem
efeito purificador, no paradoxal encontro do equilíbrio dentro do desequilíbrio
que representa qualquer movimento corporal.
Somente
assim o budoka se encontra apto aos desafios externos, seja na sua
representação física direta, do oponente a ser vencido, seja na metáfora maior,
muitíssimo mais relevante, do encontro do ser humano com a última das verdades.
E
não haverá de ser verdadeiro o movimento que, apesar do imenso esforço, não
produz sequer uma parte do efeito que dele se espera. Estaremos no caminho da verdade quando a
surpresa nos apanhar, quando o mínimo esforço desperta um estupendo
resultado. Nada disso será possível, sem
a compreensão aguda e profunda do conceito do centro de gravidade, que sempre
deverá ser explorado para muito além de sua mera representação física, pois
nele está guardado o mistério, o segredo, a chave para a compreensão do
universo.
Fernando Malheiros Filho
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