domingo, 3 de agosto de 2014

Senectude - O velho que segue praticando


                                                               A expressão que intitula este ensaio foi tomada de Cícero (orador e político romano), de sua obra de mesmo nome (na verdade, em latim, Cato maior, sive De senectute), uma aguda reflexão sobre a velhice e suas consequências naqueles que flertaram com a imprudência de envelhecer.  Ainda que escrita no século anterior ao primeiro de nossa era, época em que poucos ficavam velhos e aos que envelheciam não se poderia esperar disposição e boa saúde, Cícero enaltece as virtudes da velhice sã, fundamentalmente da sabedoria que somente com ela se pode acumular.

                                                               Nesses nossos tempos, os velhos representam muito mais do que um problema previdenciário.  Mantêm-se ativos e produtivos se tiverem a prudência de cuidar da saúde desde cedo, praticando exercícios, alimentando-se corretamente.

                                                               Para o soldado ao tempo dos samurais estava reservada a morte ainda jovem, não havendo com que se preocupar com seu destino na velhice.  Mas para o budoka moderno a equação inverteu-se por completo.  Forjado nos treinamentos intensos, sendo obrigado a alimentar-se com equilíbrio e vigor, mesmo não querendo, provavelmente, será portador de boa saúde até que o avançar dos anos lhe imponha o ciclo natural da vida, sobrevindo ao fim da existência.

                                                               Ao contrário de seus congêneres no passado, haverá de conviver com a própria degenerescência, enfrentando o paradoxo como os muitos e próprios aos praticantes das artes marciais, prática em que o vigor físico, a energia e a disposição parecem ser qualificativos indissociáveis daquele que deseja seguir o caminho (Dō).

                                                               Daí a reflexão que já atormentava Cícero.  O difícil exercício daquele que, mesmo velho, segue praticando, não porque reconheça ser capaz executar os movimentos que na juventude, apesar de penosos, eram perfeitamente exequíveis, exuberantes até pela potência, expressão estética, elasticidade e oportunidade, virtudes que o envelhecimento vai solapando, pouco a pouco, mudando inexoravelmente o perfil do praticante.

                                                               Mas ainda assim os velhos e suas cabeças encanecidas teimam em juncar os dojōs e os cursos que outros velhos ─ os mestres ─ vêm ministrar como se o tempo não tivesse passado, como se os músculos, os ossos e as articulações se tivessem congelado, tornando-se imunes à ação da decrepitude, parecendo até que os movimentos são mais agudos e perfeitos, executados com mais acuidade e foco, mesmo que desvestidos aquela exuberância que somente a juventude pode produzir.

                                                               Há no praticante velho, em si, algo muito maior do que sua degenerescência, pois ele faz dela seu principal aliado, pela força do exemplo na luta contra o final certo e inapelável representado pela morte.  Mesmo que tecnicamente desqualificado, ainda que mero principiante, na marcha em que envelhece o praticante exercita a sua transcendência, demonstrando a si mesmo e aos demais, que a morte que se avizinha não deve ser temida, mas esperada. O praticante velho é antes de tudo um forte, exibindo fortaleza em muito superior àquela que a exuberância juvenil faz questão de exibir na profunda ignorância sobre a própria finitude que somente os jovens têm licença para exibir.

                                                               Mas nem esses, mesmo por suas características atávicas, transmitida por gerações pela experiência dos velhos que se foram, não estão imunes à força do exemplo, principalmente quando este exibe aquilo que somente os velhos podem dispor, pelo acúmulo da experiência e o concerto da sabedoria.

                               O velho que pratica e que sempre praticou, terá em seu favor algo que nenhum outro mais jovem poderá dispor, senão depois da própria velhice: a experiência vivida e sofrida, na dor e eventualmente na glória, na soma de milhões ou talvez bilhões de repetições, a constante elaboração e reelaboração dos pensamentos e das reflexões, das vivências e das conclusões, das verdades prospectadas nos estratos mais profundos de sua natureza e na dos demais.  Somente o velho poderá dispor desse cabedal, dessa memória que o tempo trata de assentar em solo firme e fecundo.  Somente o velho poderá exercer a maestria.

                                                               E por executar movimentos inacreditáveis, que até ele mesmo duvidará de sua capacidade em fazê-lo, na incredulidade estará sua força.  O contraste haverá de ser claro entre os cabelos brancos, a pele sem elasticidade e pontilhada pelos sinais, as articulações agraudadas, e a sobrevivência limpa do movimento como se não pertencesse àquele corpo que o tempo tratou de alquebrar. O mestre surpreende a si mesmo e assim também aos demais, a todos convidando a desfrutar da existência, ignorando que a morte manda sinais, aos quais não devemos nos submeter, senão pelo acúmulo da sabedoria, cuja exuberância é a prova inequívoca da finitude.

                                                               Cada vez mais sábios porque cada vez mais velhos, seguimos praticando e a produzir o eco do que fomos, na luta pela sobrevivência da identidade.  A cada movimento eficiente, agora já sem o recurso dos músculos vigorosos, mas artífices da sincronia que somente experiência profunda pode gerar, significamos ─ os velhos ─ o exemplo vivo da resistência, do espírito do esforço que nos cabe inocular nos mais jovens, fazendo deles os velhos que, no futuro, saberão compreender que os jovens nada mais são do que os velhos projetados, aquilo em que um dia se tornarão, cuja razão de viver pode se resumir na perfeição de um movimento, a mesma perfeição que se pretende ao caráter e à alma.

Fernando Malheiros Filho
Professor de Karatê



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